PARTE II - O JUÍZO FINAL
XI. Sobre a proclamação da sentença sobre os bons e os maus
O que foi dito até agora a respeito do Juízo Final é, de fato, algo terrível, mas o que está por vir é ainda maior: estamos prestes a falar da sentença pronunciada sobre os ímpios e de como eles serão lançados no inferno. Isso é tão terrível que nada em toda a eternidade pode ser comparado a tal horror.
Quando o Juiz supremo tiver sondado os corações de todos os homens e pesado todas as suas ações na balança da justiça, quando tudo tiver sido revelado e manifestado ao mundo inteiro, Ele proferirá sentença sobre os bons e sobre os maus. Primeiro, Ele voltará um rosto bondoso para os seus eleitos (que estarão à sua direita) e dirigirá a eles as palavras consoladoras: 'Vinde, ó benditos do meu Pai, possuí o reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes; estava nu e me vestistes; estava doente e me visitastes; estava na prisão e viestes ter comigo' (Mt 25,34-36).
'Vocês foram fiéis a mim até o fim das suas vidas. Desprezaram o mundo e todas as coisas do mundo, amaram-me e buscaram acima de tudo promover a minha glória. Sofreram muito enquanto estavam na terra, realizaram árduas obras de penitência, foram desprezados e oprimidos pelos adeptos do mundo e pelos ímpios. Mas agora o tempo do sofrimento terminou e o tempo da felicidade começa; vossa tristeza se transformará em alegria, alegria eterna que nenhum homem poderá tirar de vós. Vinde, pois, ó meus amigos, vinde, vós, abençoados e escolhidos do meu Pai celestial, vinde do trabalho para o descanso, vinde da tristeza para a alegria, vinde dos reinos das trevas para as regiões da luz, vinde da terra para o Céu. Vinde e possuí a pátria celestial, pela qual tantas vezes ansiastes, vinde e reinai comigo para sempre, pois por vossas boas obras merecestes esta recompensa. Vossa felicidade perdurará enquanto eu for Deus, e na minha presença desfrutareis da bem-aventurança do Céu por toda a eternidade'.
Os corações dos eleitos transbordarão de alegria, consolo e deleite ao ouvirem estas palavras amorosas. Eles erguerão os olhos para o rosto benigno de seu Juiz e dirão a Ele com alegria e gratidão: 'Deus e Senhor misericordioso, vossa bondade para conosco é infinita, e vossa generosidade não conhece limites. Como merecemos receber de Vós uma tal recompensa? O que fizemos para merecer a felicidade sem fim? É somente por vossa misericórdia e caridade infinita que Vós nos acolheis em vosso reino de glória. Sede bendito para sempre; nossa boca exaltará a vossa majestadade para sempre!'
Depois disso, Cristo ordenará aos seus Anjos que tragam todos os santos diante de si. E, à medida que se aproximarem do seu trono, Ele as revestirá com uma vestimenta de glória, brilhante e bela, de modo que brilhem como estrelas. Sobre suas cabeças, colocará coroas de ouro de brilho incomparável e, em suas mãos, colocará lírios, rosas, ramos de palmeira e um cetro, para simbolizar a vitória que alcançaram sobre o mundo, a carne e o demônio.
Os perdidos testemunharão a glória e a exaltação dos santos. Ouvirão seus gritos de triunfo, e isso lhes será como fel e absinto. Rangerão os dentes de raiva e remorso; todo o prazer que sentiam em seus pecados agora se foi. Chorarão e lamentarão, e dirão, em meio a soluços de profundo desespero: 'Ai de nós, quão infelizes, quão miseráveis somos! O que fizemos! Vede aqueles a quem outrora desprezávamos, agora tão felizes, tão extasiados, tão honrados e glorificados, e nós, que os desprezávamos, estamos agora tão infelizes, tão miseráveis, tão desonrados, marcados para sempre com todos os sinais de reprovação! E, no entanto, poderíamos ter conquistado para nós o mesmo destino glorioso que eles; o trabalho e a dificuldade não teriam sido além de nossas forças. Mas nós, em nossa maldita loucura, desperdiçamos o Bem Supremo e nos privamos da felicidade eterna em troca de prazeres sem valor e passageiros. Ó que loucura, que insanidade da nossa parte! Como pudemos nos deixar deslumbrar a tal ponto pelas vis devassidões do mundo!'
Depois que esses seres infelizes tiverem lamentado sua miséria por um tempo considerável, a trombeta voltará a emitir um som poderoso. Esse toque da trombeta anunciará a sentença proferida sobre os réprobos e imporá silêncio a todos os presentes. Então, o Juiz se voltará para os ímpios e, olhando para eles com um rosto inflamado de santa ira, dirá: 'Ó pecadores tolos e cegos! Chegou agora o dia terrível de que vos falei quando estava na terra: o dia, a hora do julgamento. Agora está diante de vós Aquele a quem sempre vos mostrastes inimigos. Em vossa presunção arrogante, causastes todo tipo de dor e dano a mim, à minha Igreja, aos meus irmãos e irmãs, a todos os filhos de Deus. Contemplem as feridas que me infligiram; contemplem o lado que perfuraram; contemplem a Cruz na qual me cravaram; contemplem o pilar no qual me açoitaram e, ao qual, nos anos seguintes, amarraram a minha Igreja, minha esposa imaculada, século após século, lacerando e rasgando sua carne com o açoite de vossa zombaria insolente, vossa incredulidade, vossos escândalos, vossas seduções, vossos atos infames de todo tipo'.
'Por amor a vós, desci do Céu e, por amor a vós, suportei as crueldades da morte. E, no entanto, o meu amor, tão maravilhoso em sua extensão, não despertou resposta em vossos corações, não encontrou amor em troca; pelo contrário, rejeitastes-me com desprezo e ódio quando me apresentei à porta de vossos corações como um suplicante, desejoso de obter admissão ali. Quantas vezes Eu vos chamei e vós não quisestes me ouvir. Estendi as minhas mãos para vós, mas vós vos afastastes do meu abraço. Recorri a ameaças, visitei-vos com muitos castigos amorosos, mas vós não quisestes curvar o vosso pescoço orgulhoso sob o meu jugo suave. Escolhestes deliberadamente servir ao demônio como vosso deus e, por isso, partilhareis agora o seu destino e estareis com ele no abismo da condenação por toda a eternidade. Eu também rirei da vossa destruição. Eis que os meus servos, todos os justos, comerão e se fartarão, enquanto vós passareis fome eternamente. Aos meus servos será dado beber em abundância, enquanto vós tereis sede, e a vossa sede nunca será saciada. Os meus servos se alegrarão e vós chorareis. Meus servos exultarão em êxtase perpétuo e vós gritareis em agonia e desespero. Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para o demônio e os seus anjos. Pois tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era estrangeiro e não me acolhestes, estava nu e não me vestistes, fiquei doente e na prisão e não me visitastes'.
Este veredito, pronunciado pelo Juiz justo, atingirá os ouvidos dos condenados como um trovão; eles cairão prostrados no chão, oprimidos por estas palavras terríveis, e então lançarão tal grito de desespero e raiva, que os próprios Céus e a terra tremerão com o som: 'Ai de nós, malditos e miseráveis que somos! Agora seremos banidos da presença de Deus e dos santos para toda a eternidade! Teremos de arder para sempre e sempre com os demônios nas chamas do inferno! Ide para o fogo eterno! Ó que sentença terrível dos lábios do nosso Juiz! Fogo eterno! Tormento eterno! Nenhuma esperança de salvação! Ai de nós, pecadores miseráveis; ai de nós, ai de nós!
Assim, as almas perdidas se queixarão, chorarão e se lamentarão. Contudo, o tempo da graça já passou; a sentença foi proferida; não há mais misericórdia, nem clemência para elas. 'Compreendam estas coisas, vós que vos esquecestes de Deus; para que Ele não vos arrebate e não haja quem vos livre (Sl 49,22). Sim, compreendam isso, ó infelizes pecadores, e zelem para que um destino semelhante não vos alcance. Pensem em como se sentiriam se estivessem entre esses réprobos. Considerem o que desejariam ter feito e o que dariam como preço de resgate, se fosse possível serem libertados. Pois bem, façam agora o que desejariam ter feito então. Confessem e lamentem seus pecados enquanto ainda há tempo e supliquem a Deus que os preserve do tormento sem fim.
ORAÇÃO
Ó Deus misericordiosíssimo, Vós nos dissestes pela boca do vosso profeta: 'No tempo aceitável, eu te ouvirei, e no dia da salvação, eu te ajudarei' (Is 49,8). Eis que agora é o dia da salvação; por isso, invoco-vos e, com a maior confiança e do fundo do meu coração, suplico-vos que me concedais graça e ajuda na medida das minhas necessidades, para que eu não seja rejeitado. Pois os mortos não vos louvam, ó Senhor, nem aqueles que descem ao inferno, mas os vivos, nós que vivemos em vossa santa presença, exaltaremos o vosso santo nome para sempre. Amém.
(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)







