quarta-feira, 14 de outubro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXX/Final)

PARTE IV - O CÉU

IV. Sobre o número dos que se salvam

Nos três capítulos anteriores, tivemos a agradável tarefa de mostrar quão belo é o paraíso celestial e quão grande é a felicidade de que desfrutam os redimidos. Sem dúvida, no coração de cada um de nossos leitores surgiu um fervoroso desejo de ser admitido nos domínios da luz eterna e de participar de suas alegrias. Talvez cada um se sinta seguro de que suas esperanças a esse respeito serão realizadas.

É, contudo, muito de temer que muitos não alcancem a meta e sejam para sempre excluídos do Reino dos Céus, como este capítulo pretende demonstrar. Permiti-me, porém, suplicar a todos os que o lerem que não deixem que estas palavras os desanimem e os tornem pusilânimes, mas que, pelo contrário, elas aumentem neles o espírito de humildade e de temor salutar, estimulando-os a maior empenho e diligência na obra de sua salvação, caso esta lhes pareça menos fácil do que estavam inclinados a imaginar. Meu único motivo ao escrever este capítulo é abrir os olhos do leitor e mostrar-lhe o perigo em que se encontra. Pois, se eu não o fizesse, ele poderia continuar cegamente pelo caminho errado e somente perceber que se trata do caminho da perdição quando já fosse tarde demais para voltar atrás, quando a mão da morte retirasse o véu de seus olhos. Considero, portanto, que prestarei um serviço àquele que anda desgarrado se o esclarecer acerca do risco que corre e procurar dirigir seus passos para o caminho do Céu.

Permite-me perguntar-te, ó leitor: que proporção de todos os que vivem sobre esta terra julgas que será salva? A metade? A terça parte? Ou talvez a quarta parte? Ah! Receio, e não sem boas razões, que o número esteja muito longe de ser tão grande. Jesus Cristo, que é a Verdade eterna, seus santos Apóstolos e os Padres da Igreja, todos nos dizem que assim será.

Que diz Cristo acerca do número dos eleitos? Suas palavras são estas: 'Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos'. Ele repete essas palavras ao falar do convidado que não trajava a veste nupcial: 'Atai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores. Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos'. Ainda que nada mais se encontrasse em toda a Escritura a esse respeito, essa passagem não poderia deixar de nos alarmar. Há, porém, muitas outras semelhantes, das quais citarei uma ou duas.

No Evangelho de São Mateus, lemos que Nosso Senhor disse: 'Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele. Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que o encontram' (Mt 7,13). Não são essas palavras capazes de nos inspirar inquietação e apreensão? Não poderemos estar entre aqueles que entram pela porta larga e caminham pela estrada espaçosa que termina na perdição eterna?

Para que possas compreender melhor o sentido das palavras de Nosso Senhor e perceber mais claramente quão poucos são os eleitos, observa que Cristo não disse que eram poucos os que caminhavam pela senda do Céu, mas que eram poucos os que encontravam esse caminho estreito. 'Quão estreita é a porta que conduz à vida, e poucos são os que a encontram'. É como se o Salvador quisesse dizer: o caminho que conduz ao Céu é tão estreito e tão áspero, tão tomado pela vegetação, tão escuro e difícil de distinguir, que muitos passam a vida inteira sem jamais encontrá-lo. E aqueles que o encontram estão constantemente expostos ao perigo de se desviar dele, de tomar uma direção errada e de se afastar inadvertidamente, porque ele é tão irregular e tão encoberto pela vegetação. Assim o diz São Jerônimo em seu comentário à passagem em questão. Além disso, há alguns que, mesmo estando no caminho certo, se apressam em abandoná-lo, porque ele é tão íngreme e penoso. Há também muitos que são atraídos para fora do caminho estreito pelas artimanhas e pelos enganos do demônio e, assim, quase sem perceber, são conduzidos para baixo, rumo ao Inferno. De tudo o que foi dito, podemos concluir que são poucos os que encontram o caminho do Céu, e ainda menos os que perseveram em segui-lo até o fim.

Ora, como Cristo sabia que essas suas palavras seriam mal interpretadas e entendidas em sentido falso tanto pelos crentes como pelos descrentes, em outra ocasião acentuou e reforçou o que já havia dito acerca do pequeno número dos eleitos. Pois, quando um dos discípulos lhe perguntou: 'Senhor, são poucos os que se salvam?' - Ele respondeu: 'Esforçai-vos por entrar pela porta estreita; porque muitos, eu vos digo, procurarão entrar e não poderão' (Lc 13,24). Escuta as palavras do Divino Mestre. Ele nos ordena que nos esforcemos, que nos empenhemos, que empreguemos todas as nossas forças para entrar pela porta estreita. E, o que é ainda mais capaz de nos causar temor, acrescenta que muitos procurarão entrar e não poderão.

Se aqueles que desejam e se esforçam por entrar no Reino dos Céus não conseguem fazê-lo, que será daqueles que levam uma vida descuidada, talvez até ímpia, e não demonstram zelo nem interesse pelo que diz respeito à sua salvação eterna? Já ouvimos Cristo declarar-nos três vezes que o número dos eleitos é pequeno; que, em proporção à grande massa da humanidade, apenas poucos serão salvos. E, como sabia que não tomaríamos a peito essa grave verdade como deveríamos, Ele a repete em linguagem ainda mais explícita.

Depois de dizer a um homem rico que viera procurá-lo que deixasse todos os seus bens e o seguisse, e de o homem se retirar entristecido, Ele disse, dirigindo-se aos discípulos: 'Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que possuem riquezas!' E os discípulos ficaram admirados com suas palavras. 'Mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é para os que confiam nas riquezas entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. Então, eles se admiraram ainda mais, dizendo entre si: Quem, pois, poderá salvar-se? E Jesus, olhando para eles, disse: Aos homens isso é impossível, mas não a Deus; porque a Deus tudo é possível' (Mc 10,23-27).

Na verdade, essas palavras, vindas dos lábios de nosso Divino Mestre, bastam para nos inspirar profundo temor; quase bastam para nos fazer perder o ânimo. Pois elas nos dizem expressamente que a obra de nossa salvação é de imensa dificuldade, uma realização quase milagrosa, e que é quase impossível à pobre humanidade entrar no Reino dos Céus. É, na realidade, tão milagroso que um homem escape da perdição eterna e alcance a felicidade eterna quanto seria que um único homem, sozinho, vencesse e pusesse em fuga um exército inteiro. Pois todas as potências do Inferno se aliam ao mundo perverso contra nós; todas as potências do Inferno dispõem suas forças em ordem de batalha para vencer e escravizar cada um de nós, mortais. E, com as terríveis potências das trevas, o mundo mau e astuto faz causa comum, assim como as concupiscências da carne, com o propósito de provocar nossa ruína.

Ora, visto que são tantos os adversários que nos assaltam, adversários tão astutos, tão fortes e tão ferozes, quem poderá julgar-se seguro da vitória? É quase um milagre escapar das garras de inimigos tão numerosos e tão formidáveis. Quem poderá esperar vencê-los por suas próprias forças? Devemos necessariamente reconhecer que todos os que venceram o inimigo maligno, o mundo perverso e suas próprias inclinações más foram fortalecidos por Deus com seu auxílio especial. Vemos, assim, quão penosa e laboriosa é a tarefa de conquistar o Céu; e compreendemos a verdade das palavras de Nosso Senhor, quando disse: 'O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos o arrebatam' (Mt 11,12).

Para consolo e encorajamento do cristão, deve-se observar aqui que, se o número de seus inimigos é tão assustadoramente grande, o número de seus amigos é ainda maior. 'Não temas, porque são mais os que estão conosco do que os que estão com eles'. Assim falou o profeta Eliseu ao seu servo amedrontado. 'E o Senhor abriu os olhos do servo, e ele viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e de carros de fogo' (4Rs 6,16). Não somos deixados sozinhos no combate; nosso santo Anjo da Guarda e todos os espíritos bem-aventurados estão ao nosso lado; podemos contar com a poderosa proteção da Mãe de Deus, com a eficácia dos sacramentos, com os méritos da Paixão de Cristo, com a inspiração do Espírito Santo e com o socorro de Deus Todo-Poderoso. Por meio desses poderosos auxílios, venceremos, se combatermos corajosamente e não nos entregarmos, por fraqueza, ao cativeiro, como infelizmente tantos fazem. Pois essas pessoas tímidas, indolentes e sem ânimo iludem-se com a falsa esperança de que, afinal, não é difícil conquistar o Céu. Pensam e dizem a si mesmas: a situação não é tão grave quanto alguns querem fazer parecer; Cristo não sofreu por nós em vão; se não fosse da vontade de Deus que nos salvássemos, Ele não nos teria criado para desfrutarmos do Céu. Essas e outras palavras semelhantes ouvimos dos lábios dos filhos deste mundo; eles vivem segundo essas ideias e conseguem enganar a si mesmos e aos outros.

A Sagrada Escritura não nos deixa dúvida de que essas pessoas estão no erro e caminham pela estrada larga que conduz à perdição. Todo o ensinamento do Evangelho se opõe inteiramente aos princípios que elas seguem; e aqueles que levam uma vida descuidada e satisfazem desregradamente os sentidos são repetidamente advertidos de que a morte eterna será sua porção. Escuta a advertência que Cristo dirige aos devotos deste mundo e aos amantes de seus prazeres: 'Ai de vós, os ricos, porque já tendes a vossa consolação! Ai de vós, os que estais saciados, porque tereis fome! Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis! Ai de vós, quando os homens vos louvarem!' - isto é, quando homens de maus princípios, contrários às máximas da religião, aplaudirem vossas palavras, vossas ações e vossas opiniões. Essa condenação, saída dos lábios de Nosso Senhor, bem pode encher-nos de temor. Qual é o objetivo da grande maioria dos homens na vida? Que procuram alcançar e pelo que anseiam? Desejam ser ricos, prosperar, viver no luxo e ser louvados por seus semelhantes. Ninguém considera isso um pecado. E, no entanto, Nosso Senhor declara que a morte eterna será o destino dessas pessoas e as denuncia em termos veementes.

Por essas e outras passagens semelhantes, que abundam na Sagrada Escritura, vês que Deus é mais rigoroso do que imaginas e que perder tua alma é mais fácil do que talvez penses. Portanto, não continues a viver tão descuidadamente, mas trabalha por tua salvação com temor e tremor, como te exorta o Apóstolo. Assim fizeram os santos em todos os tempos, tendo sempre diante dos olhos o temor dos juízos de Deus. Os ímpios, pelo contrário, sempre costumaram dizer, como muitos ainda dizem hoje: Deus é misericordioso; Ele não nos condenará tão facilmente à perdição eterna. Mas recorda o que diz a Sagrada Escritura: 'Não estejas sem temor acerca do pecado perdoado, e não acrescentes pecado a pecado. E não digas: A misericórdia do Senhor é grande; Ele terá misericórdia da multidão dos meus pecados. Pois a misericórdia e a ira vêm prontamente dele, e sua ira recai sobre os pecadores' (Eclo 5,5-7). Encontramos também Santa Catarina de Sena dizendo: 'Ó infelizes pecadores, não vos fieis na grandeza da misericórdia de Deus; crede-me: quanto mais provocardes a ira desse Deus misericordioso pelo pecado deliberado, tanto mais profundamente sereis lançados no abismo da perdição'.

É indubitavelmente verdade que devemos depositar nossa confiança na misericórdia de Deus; mas São Gregório nos ensina qual deve ser a natureza dessa confiança. Ele diz: 'Aquele que faz tudo quanto pode confie firmemente na misericórdia de Deus. Mas, para aquele que não faz tudo o que está ao seu alcance, confiar na misericórdia de Deus seria mera presunção'. A todos e a cada um de nós, o Apóstolo Pedro diz: 'Empenhai-vos ainda mais para tornar certa, pelas boas obras, a vossa vocação e eleição' (2Pd 1,10).

Vários Padres da Igreja consideram que, do fato de apenas oito pessoas terem sido salvas por ocasião do dilúvio, de apenas quatro - a saber, Ló, sua mulher e suas duas filhas - terem escapado com vida da destruição de Sodoma e Gomorra, e de não mais de dois dos seiscentos mil homens aptos que saíram do Egito terem alcançado a Terra Prometida, enquanto todos os demais morreram no deserto, pode-se concluir que o número dos eleitos entre os cristãos será proporcionalmente pequeno. Isso concorda com o que São João Crisóstomo disse certa vez, ao pregar na cidade de Antioquia: 'Que pensais, meus ouvintes: quantos habitantes desta cidade poderão talvez salvar-se? O que estou prestes a dizer é muito terrível; contudo, não vo-lo ocultarei. Desta cidade tão populosa, com seus milhares de habitantes, nem cem se salvarão; duvido até mesmo que sejam tantos. Pois quanta indiferença vemos entre os idosos, quanta maldade entre os jovens, quanta impiedade entre todas as classes de pessoas!'

Palavras como essas bem podem fazer-nos tremer. Hesitaríamos em acreditar nelas se não viessem dos lábios de tão grande Santo e Padre da Igreja. E, se é verdade que, nos cinco primeiros séculos, quando o zelo e a devoção dos cristãos eram muito mais fervorosos do que agora, um número tão pequeno alcançava a salvação eterna, que acontecerá em nossos dias, quando o crime e o vício predominam em proporções tão assustadoras? Visto que ninguém pode negar, ou sequer duvidar, que o número dos eleitos é pequeno em comparação com o dos réprobos, suplico-te, ó leitor cristão, que te empenhes ao máximo em realizar a obra de tua salvação. Sabes quão terrível é ser condenado eternamente.

Os suplícios e tormentos do Inferno são tão terríveis que não se encontram palavras para descrevê-los. Considera, enquanto é tempo, a eternidade dessas torturas indizíveis e acautela-te, para que também tu não sejas lançado no abismo de uma angústia sem fim. Como poderias suportar tormentos tão imensuráveis e tão intermináveis? Não perderias o ânimo e te entregarias ao desespero? Não te enfurecerias e te revoltarias? Contudo, isso de nada te valeria; apenas acrescentaria sofrimento aos teus padecimentos e aumentaria tua miséria.

Tudo isso é terrível, pavoroso e aterrador. Como é que não pensas nisso mais frequentemente? Como é possível que continues a viver tão descuidadamente? Como é possível que não tenhas maior temor do Inferno? Julgas, talvez, que o Céu te está assegurado? Como é que segues a multidão, como se não soubesses que corres grande perigo de perecer com ela?

Se queres salvar-te, segue o conselho de Santo Anselmo, quando diz: 'Se queres ter certeza de estar no número dos eleitos, esforça-te por ser um dos poucos, e não um dos muitos. E, se queres estar inteiramente seguro de tua salvação, esforça-te por estar entre os mais poucos dentre os poucos; isto é: não sigas a grande maioria dos homens, mas segue aqueles que entram pelo caminho estreito, que renunciam ao mundo, que se entregam à oração e que nunca afrouxam seus esforços, nem de dia nem de noite, para alcançar a felicidade eterna'.

CONCLUSÃO

Façamos, meu caro leitor, com coragem e alegria, tudo quanto for necessário; empreendamos tudo e sacrifiquemos tudo para alcançar a felicidade inefável do Céu, pois jamais poderemos pagar por ele um preço demasiado alto. Não nos deixemos abater pelas dificuldades do caminho, pois, afinal, não é tão difícil merecer o Céu. Se fizéssemos pelo Céu a metade do que as pessoas fazem para ganhar o sustento, adquirir um pouco de riqueza, poder ou fama, ou desfrutar da vida, estaríamos certos de assegurar um lugar elevado entre os santos. Tudo o que temos de fazer para alcançar o Céu é guardar os mandamentos de Deus e de sua Igreja, carregar nossas pequenas cruzes, cumprir as obrigações de nosso estado de vida e vencer a tentação; e, embora isso ultrapasse nossas forças naturais, podemos, contudo, contar com a graça de Deus, se a pedirmos com fervor. Com o auxílio de Deus, tudo se tornará relativamente fácil, pois, como diz São Paulo: 'Tudo posso naquele que me fortalece' (Fl 4,13). A oração fervorosa e perseverante nos assegurará o Céu.

Agora, caro leitor, dirijo-te as palavras que a mãe dos Macabeus disse ao seu filho mais novo, ainda um menino, quando ele estava prestes a ser torturado até a morte, como seus seis irmãos haviam sido antes dele: 'Meu filho, suplico-te que olhes para o Céu'. Olha para o Céu todos os dias, especialmente nos momentos de provação e de tentação. O Céu vale plenamente cada sofrimento, cada sacrifício e cada combate que nos são exigidos, e até mil vezes mais! A vida é breve; suas provações, seus sofrimentos, seus trabalhos, seus combates e suas cruzes também são breves e transitórios; mas o Céu e suas alegrias são inconcebíveis, satisfazem todos os desejos do coração e não têm fim! - 'A nossa tribulação presente, momentânea e leve, produz para nós, acima de toda medida, um peso eterno de glória' (2Cor 4,17). Que Deus, em sua misericórdia, conceda esse feliz fim ao autor deste livro e a todos aqueles em cujas mãos ele vier a cair.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE ALCALÁ DE HENARES

O milagre eucarístico de Alcalá de Henares, cidade espanhola próxima a Madri, é conhecido como o milagre das Santas Formas. Sua origem remonta a 1597 e consiste na conservação extraordinária de vinte e quatro hóstias consagradas, cuja incorruptibilidade foi reconhecida pelas autoridades eclesiásticas em 1619.

De acordo com o relato tradicional, um homem arrependido procurou auxílio e confissão junto ao padre jesuíta Juan Juárez no Colégio da Companhia de Jesus de Alcalá de Henares, trazendo consigo o produto de um terrível sacrilégio: 24 hóstias consagradas roubadas em diferentes igrejas. Numa época conturbada por um forte anticlericalismo, o sacerdote temeu, ao recolher as hóstias com grande reverência, que as mesmas podiam estar envenenadas. Por isso, decidiu não distribuí-las na comunhão, mas guardou-as separadamente, esperando que se deteriorassem naturalmente, para então dar aos restos o destino apropriado.

As hóstias, entretanto, não se degradaram mas, ao contrário, permaneceram intactas e frescas, sem qualquer sinal de corrupção com o tempo. Para verificar se o fenômeno poderia ser explicado pelas condições locais de conservação, partículas não consagradas foram expostas em condições semelhantes de ambientes muito úmidos, e se deterioraram em pouco tempo como seria esperado, ao passo que as Santas Formas conservaram-se integralmente neste mesmo ambiente.

Em 1608, o caso foi dado a conhecer ao Provincial dos jesuítas de Toledo (superior regional) que deu início à investigação eclesiástica, sendo as hóstias submetidas a uma bateria de exames para aferição da sua notável incorruptibilidade, sem quaisquer resultados ou explicações naturais. Em 1619, sua conservação foi reconhecida como milagrosa e a devoção ganhou grande expressão pública, formalizada por uma solene procissão realizada em 25 de abril de 1620, com a participação do então rei da Espanha Felipe III (1578–1621).


Para a memória maior desta devoção, foi construída a Capela das Santas Formas (parte integrante da atual Igreja de Santa Maria Maior, que ocupa a antiga igreja do Colégio dos Jesuítas) que passou a abrigar uma custódia especialmente construída para acolher as 24 hóstias consagradas, de tamanho normal para a comunhão dos fieis. Ela possuía um formato octogonal, comportando oito divisões, cada uma contendo três hóstias alinhadas verticalmente, fechadas com faces de vidro.

Em 1777, após a expulsão dos jesuítas da Espanha dez anos antes, as Santas Formas foram transferidas para a atual Catedral-Magistral de Alcalá de Henares. Durante a Guerra Civil Espanhola, em 1936, o templo foi saqueado e a custódia e as Santas Formas desapareceram (destruídas, ou mais provavelmente, recolhidas antes do saque e escondidas em local desconhecido pela eventual morte dos responsáveis).


Atualmente, a devoção é preservada por meio de uma procissão anual solene, conduzindo uma réplica da Custódia Original das Santas Formas, que tem uma data móvel, ligada ao tempo pascal (data entre o quinto e o sexto domingo da Páscoa), com o cortejo se deslocando da Igreja de Santa Maria Maior até a Capela das Santas Formas, anexa ao mesmo conjunto religioso. A devoção anual comporta uma tradição da Igreja Católica Espanhola que remonta a mais de quatro séculos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

GLÓRIAS DE MARIA: NOSSA SENHORA APARECIDA

A história é bem conhecida: em 1717, Dom Pedro de Almeida Portugal e Vasconcelos (Conde de Assumar), efetivado como governador das Capitanias de São Paulo e Minas Gerais, viajou de navio de Portugal a Santos, com grande comitiva. Tomando posse do governo em São Paulo, seguiu rumo às minas de ouro em Minas Gerais, fazendo uma longa parada em Guaratinguetá, no período de 17 a 30 de outubro. Para a recepção do ilustre viajante, foram-lhe servidos os melhores pratos da culinária local, incluindo os saborosos pescados do Rio Paraíba do Sul.

Para a nobre tarefa de pescar uma grande quantidade de peixes, foram convocados os pescadores Domingos Alves Garcia, seu filho João Alves e Felipe Pedroso, cunhado de Domingos, entre outros. Entretanto, mesmo com o conhecimento enorme que tinham dos melhores pontos de pesca, não conseguiam nada. Mas algo extraordinário estava para ocorrer. Na rede lançada, surgiu primeiro uma pequena imagem em terracota de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça, que foi recolhida e guardada com zelo pelos pescadores no fundo do barco. E eis que, numa nova investida, mais abaixo no rio, sem nada de peixe, veio a cabeça da imagem. Um objeto de dimensões tão reduzidas coletado do leito largo e vigoroso do Paraíba do Sul! E, surpresa ainda maior, novas investidas da rede trouxeram agora cardumes de peixes, em tão grande quantidade, repetindo-se, no largo do Porto de Itaguaçu, o milagre de Cristo no Mar da Galileia.



Cientes dos fatos extraordinários ocorridos, os pescadores locais recuperaram a imagem e passaram a venerá-la em suas casas, como imagem peregrina, até que a mesma foi colocada em pequeno oratório na casa de Atanásio Pedroso, filho de Felipe, e depois, com o culto já generalizado na ‘Nossa Senhora Aparecida’, erigiu-se uma pequena capela de sua devoção em Itaguaçu, com o apoio do Padre José Alves Vilela, pároco da Igreja de Santo Antônio de Guaratinguetá. Sob a sua coordenação, a devoção recebeu a aprovação episcopal e foi construída, então, a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, no chamado Morro dos Coqueiros, inaugurada em 1745, apenas 28 anos após o achado da imagem. Em torno da igreja, implantou-se rapidamente uma comunidade que constitui hoje a cidade de Aparecida. A igreja tornou-se de imediato centro de romarias e de devoções marianas de toda a natureza.


Com a intensa participação popular e, pela ausência de sacerdotes no Brasil, optou-se pela solicitação de auxílio junto a comunidades religiosas europeias. Em 1894, com a chegada dos padres redendoristas alemães, as atividades religiosas, os cultos e as romarias tornaram-se muito mais organizados, favorecendo muito a rápida difusão da evangelização e a consolidação da igreja como santuário de frequente peregrinação. Tais eventos culminaram com a solene coroação da imagem de Nossa Senhora Aparecida em 8 de setembro de 1904 (com manto azul e coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, ofertados pela Princesa Isabel em visita ao santuário em 6 de novembro de 1888) e com a elevação do santuário à condição de Basílica Menor em 29 de abril de 1908. Em 16 de julho de 1930, o Papa Pio XI outorgou o título de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. Em 1967, ano da comemoração do jubileu dos 250 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, o Papa Paulo VI ofertou ao Santuário Nacional da Padroeira do Brasil uma Rosa de Ouro, ato repetido pelo Papa Bento XVI em 2007. O dia da Padroeira do Brasil é celebrado em 12 de outubro, feriado nacional. 

As enormes e crescentes manifestações populares exigiram a construção de uma nova basílica, com dimensões e infraestrutura compatíveis com o maior centro de peregrinação espiritual do Brasil que se tornou Aparecida. Desta forma, entre 1955 e 1980, foi construída a atual Basílica, inaugurada a 04 de julho de 1980 pelo Papa João Paulo II e elevada a Santuário Nacional em 1984. Que continua a receber milhares de peregrinos, infindáveis romarias, em agradecimento, louvor e veneração à Virgem Padroeira do Brasil. Na Sala das Promessas, em meio a milhares de ex-votos, tem-se uma ideia da admirável senda de prodígios e milagres alcançados por tantos romeiros e fieis, pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida.


Em Aparecida, ao contrário de tantos outros centros de peregrinação mariana, a Virgem fez-se aparecer apenas sob a forma de uma pobre e pequena imagem de terracota de 38cm de altura, sem quaisquer visões, mensagens ou prodígios sobrenaturais, para falar aos simples, aos humildes, aos fracos, aos desvalidos, que as almas simples, despojadas de valores intrinsecamente humanos e entregues somente à confiança e à misericórdia de Deus por Maria, são as glórias dos Céus.


ORAÇÃO A NOSSA SENHORA APARECIDA

Ó Senhora da Conceição Aparecida, que fizestes tantos milagres que comprovam vossa poderosa intercessão junto ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, obtende para nossas famílias as graças de que tanto necessitam. Defendei-nos da violência, das doenças, do desemprego e, sobretudo, do pecado, que nos afasta de Vós. Protegei nossos filhos de tantos fatores de deformação da juventude. E concedei a todos os membros de nossas famílias a graça de poderem trilhar o caminho de perfeição e de paz ensinado por Vosso Divino Filho, que afirmou: 'Disse-vos estas coisas para que tenhais paz em Mim. Haveis de ter aflições no mundo; mas tende confiança, Eu venci o mundo!' Amém.

domingo, 11 de outubro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

     

'Na casa do Senhor habitarei, eternamente' (Sl 22)

Primeira Leitura (Is 25,6-10a) - Segunda Leitura (Fl 4,12-14.19-20) - Evangelho (Mt 22,1-14)

  11/10/2026 - VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 O BANQUETE REAL 


No seu ministério público, Jesus falava muitas vezes em forma de parábolas, para incutir nos homens os ensinamentos da Boa Nova, sem lhes ferir demasiado as susceptibilidades da prática consolidada sobre valores falsos ou essencialmente humanos. Neste contexto, o plano divino de salvação da humanidade é apresentado na analogia de que 'o Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho. E mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram ir' (Mt 22,1-2).

O convite pressupõe uma convocação; a festa foi preparada em todos os detalhes e todos os convidados têm lugares específicos reservados na mesa do banquete; a eles está destinado as iguarias mais refinadas - símbolo dos mistérios da graça associados à Visão Beatífica e à plena vida em Deus. Mas muitos 'não quiseram ir' (Mt 22,2), começando pelos hebreus, o povo escolhido do Antigo Testamento. Muitos e muitos outros seguirão neste caminho de recusa explícita, seja pela indiferença, seja pelo envolvimento total nos seus próprios interesses pessoais e mundanos.

A reação do rei é imediata: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes’ (Mt 22,8 - 9). Diante do não do povo escolhido, o Senhor faz a opção pelos outros, os gentios do mundo, por todos os homens que acreditaram e assumiram a doutrina do seu Filho, vítima de amor sacrificada pelo triunfo da Cruz. Ir a todas as encruzilhadas e a todos os cantos do mundo é a vocação missionária da Igreja de todos os tempos, para buscar os eleitos para a grande festa do Senhor.

No banquete real, somente serão aceitos os convidados que estiverem usando o 'traje de festa' (Mt 22,11), ou seja, estiverem revestidos do estado de graça, premissa das almas adentrarem o Reino dos Céus. Assim, até mesmo os que fizeram parte da Igreja - os convidados - mas que usufruíram de uma fé sem obras e não produziram os frutos da graça serão julgados inconvenientes no grande dia do Juízo e serão expulsos do banquete e, assim, perderão definitivamente o Reino dos Céus e serão jogados às trevas, onde só haverá choro e ranger de dentes. Nós devemos ter o firme propósito de servir a Cristo na fé e nas obras, para nos tornarmos os convivas do banquete real por toda a eternidade, tangidos pela misericórdia e não pela justiça divina, porque 'muitos são chamados, e poucos são escolhidos' (Mt 22,14).

sábado, 10 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (II)

 

Maria! Quantas encantadoras lendas estão ligadas ao doce nome de Maria! Eis uma que geralmente é considerada uma narrativa piedosa ou parábola.

Nos primeiros tempos do cristianismo, um piedoso eremita, grande aos olhos de Deus, mas pouco conhecido dos homens - embora São Bernardo tenha pronunciado duas vezes um panegírico em sua honra e composto o ofício para a sua festa - vivia às margens do rio Aube, numa floresta da região de Champagne. Os antigos gauleses haviam adorado ali uma de suas sombrias divindades, que os romanos substituíram por Saturno. Por isso, o lugar era chamado Saturniacum quando o eremita, de nome Victor de Plancy, chegou e construiu uma capela e uma pequena ermida.

Numerosos acontecimentos milagrosos se seguiram a essa obra. Entre os mais surpreendentes estavam as conversões: almas entregues à perdição eram resgatadas para o céu; e corações antes enregelados pelo egoísmo e corrompidos por práticas viciosas inflamavam-se de caridade e produziam tais flores de virtude que até o mundo se via obrigado a admirá-las. São fenômenos que deixam a mente perplexa, mas que a fé explica facilmente.

O santo sentia que as horas que passava sozinho em sua cela eram as mais doces de sua vida. A única criatura viva perto dele era um pardal manso, que alimentava e estimava, considerando-o um símbolo da solidão. Devotado com ternura à Santíssima Virgem, o santo eremita a invocava incessantemente; e as únicas palavras que pronunciava em voz alta eram: Ave Maria! Acostumado a ouvir essas palavras, e somente elas, o pardal aprendeu a repeti-las. Grande foi a alegria do eremita quando, pela primeira vez, a ave pousou em seu ombro e lhe exclamou ao ouvido: Ave Maria!

A princípio, imaginando que algum espírito santo tivesse vindo em missão divina, o eremita caiu de joelhos, reverente. Mas a ave continuou a chilrear Ave Maria! Ave Maria! e ele logo percebeu de onde vinham aquelas doces palavras. O pássaro, que surgira como uma distração inocente, tornou-se um amigo - quase um irmão - uma criatura de Deus que rezava. Victor redobrou os cuidados com ele e, desde então, sua solidão tornou-se agradavelmente mais leve.

A modesta ave, a quem as pessoas deram o nome de 'Pequeno Monge', parecia compartilhar a alegria de seu dono. Ao amanhecer, seu primeiro canto era Ave Maria! Quando Victor lhe lançava migalhas, o passarinho cantava uma ação de graças feita de ave-marias; e, quando o eremita se ajoelhava para suas devoções, pousava em seu ombro e sussurrava suavemente: Ave Maria! Victor cultivava um pequeno jardim. Se, por um instante, perdesse de vista o objeto constante de seus pensamentos, o fiel pardal, pousado numa árvore, logo o faria recordar com seu Ave Maria!


Os cristãos da região, que procuravam o santo eremita em suas aflições e dúvidas, estimavam muito o passarinho. Quando ele os saudava com sua pequena oração, não podiam deixar de considerá-la uma graça milagrosa concedida ao eremita por Nossa Senhora. Quando estava livre, o pardal fazia voos curtos pelos campos. Se Victor, em suas caminhadas meditativas, se afastava da cela mais do que de costume, a ave logo o fazia lembrar-se dela, chilreando uma Ave Maria!

Certo dia de primavera, enquanto Victor jazia enfermo em sua esteira, abriu a pequena porta da cela, e seu amiguinho saiu voando, como de costume. Poucos minutos depois, ele viu, alarmado, um gavião perseguir seu querido pardal. A ave de rapina abriu o bico e estendeu as garras para agarrá-lo e devorá-lo. Já quase sentindo as garras afiadas do inimigo, o pequeno pássaro gritou: Ave Maria! Diante daquele prodígio, o gavião, assustado e aterrorizado, interrompeu a perseguição. O manso pardal teve tempo de voltar à cela; caiu sobre o peito de Victor, chilreou debilmente uma última Ave Maria e morreu.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

DEVEIS RESPLANDECER COMO FILHOS DE DEUS!

'Fazei tudo sem murmurações nem discussões, para que sejais irrepreensíveis e puros, filhos de Deus sem mancha em meio a uma geração perversa e degenerada, na qual deveis resplandecer como astros, levando a Palavra da vida' (Fl 2,14–16).

Estas palavras devem ser compreendidas assim: o homem encontra-se como numa encruzilhada. Se procurar a salvação na luz que vem de Deus, ele a alcançará. Se escolher o mal, seguirá o diabo como castigo. Portanto, se o homem assumir sua condição humana e todas as suas obras sem murmurações, isto é, sem as deformações dos pecados e sem indecisões, com uma fé perfeita, amando o bem e odiando o mal, será certamente libertado no julgamento futuro e separado dos pecadores que se afastam do bem para abraçar o mal. 

Aqueles que agem amando o bem e procurando não ferir ninguém vivem como filhos de Deus, na simplicidade das boas obras, evitando murmurações e disputas vãs, rejeitando sentimentos negativos e mundanos. Insensíveis às armadilhas da sedução, despertam a estima daqueles que se alegram com sua coragem em meio a uma geração pervertida. Na perfeição de sua verdadeira fé, brilham como os astros cuja missão é iluminar o mundo, conforme determinou o Criador do universo. Com uma doutrina que se encarna na vida, converterão os homens a Deus. É dessa maneira que o Filho de Deus, sem pecado, deu a todos a sua Luz.

(Santa Hildegarda de Bingen)

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (III)

 

Tive vários êxtases de amor, e um em particular durante o meu noviciado, quando permaneci, por uma semana inteira, muito afastada deste mundo. Parecia que um véu havia sido lançado sobre todas as coisas terrenas. Mas, naquela ocasião, eu não era consumida por um verdadeiro fogo. Podia suportar aqueles transportes de amor sem esperar que se rompessem os laços que me prendiam à terra; ao passo que, no dia de que agora falo, mais um minuto - mais um segundo - e minha alma teria sido libertada. Ai de mim! Encontrei-me novamente na terra e a aridez logo voltou ao meu coração.

(Santa Teresa do Menino Jesus)