terça-feira, 9 de junho de 2026

'TUDO PASSA!'

Quanta verdade é que a figura deste mundo sempre está passando, e nós também! Dos sábios e justos, diz Isaías, que vêem a terra de longe. Ora vem cá, alma minha, faze por ser sábia, toma as asas da contemplação, e suspende-se nelas, e olha de longe para esta bola da terra, e verás como a sua figura sempre está passando.

Que é o que vês? Mares, rios, árvores, montes, vales, campinas, desertos, povoados... e tudo passando. Os mares em contínuas crescentes e minguantes; os rios sempre correndo; as árvores sempre remudando-se, ora secas, ora floridas, ora murchas; os montes já foram vales, e os vales já foram montes, ou campinas; os desertos já foram povoados, e os povoados de agora, já foram desertos.

Mas olha em especial para os povoado, porque o mundo são os homens. Tudo está fervendo em movimentos que acabam e começam: uns a sair dos seios das mães, outros a entrar nos ventres das sepulturas; aqueles cantam, dali a pouco choram; estes outros choram, dali a pouco cantam; aqui se está enfeitando um vivo, parede e meia estão amortalhando um defunto; aqui contratam, acolá distratam; aqui conversam, acolá brigam; aqui estão à mesa rindo e fartando-se, acolá estão no leito, gemendo o que riram, e sangrando-se do que comeram...

Lá vai um no seu coche com os pés sobre tela e veludo; atrás das rodas vai um pobre nu e descalço. E que turba-multa é aquela que vai cobrindo os campos de armas e carruagens? É um exército, que vai a uma de duas coisas: ou a morrer, ou a matar. E sobre quê? Sobre que dois palmos de terra são de cá, e não são de lá...

E que árvores são aquelas que vão voando pelas ondas com asas de pano? São navios, que vão buscar muito longe coisas que piquem a língua para comer mais, coisas que afaguem a pele, coisas que alegrem os olhos; isto é: espécies, sedas, ouro.

Olhai o tráfego! Tudo ferve, tudo se muda por instantes. Se divertirdes os olhos, dali a nada tudo achareis virado. O rico já é pobre, o plebeu já é fidalgo, o moço já é velho, o são já é enfermo, e o homem já é cinzas. Já são outras cidades, outras ruas, outra linguagem, outros trajes, outras leis, outros homens... Lembra-te, tudo passa!

Pe. Manuel Bernardes (Sermões)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLV)

Os tapetes de Corpus Christi revelam uma tradição muito antiga, que surgiu na região dos Açores em Portugal no século XV e foi introduzida no Brasil no período colonial. Em Minas Gerais, estado que durante o Ciclo do Ouro recebeu milhares de portugueses, a tradição foi amplamente difundida e se enraizou na sociedade cristã de todas as épocas, fazendo parte da tradição religiosa mineira. Em Ouro Preto/MG, essa tradição resulta em um verdadeiro espetáculo de fé, arte e cultura, numa mistura grandiosa de beleza, devoção e encantamento.





 


domingo, 7 de junho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

           

'A todo homem que procede retamente, eu mostrarei a salvação que vem de Deus' (Sl 49)

Primeira Leitura (Os 6,3-6) - Segunda Leitura (Rm 4,18-25) - Evangelho (Mt 9,9-13)

  07/06/2026 - DÉCIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'MISERICÓRDIA E NÃO SACRIFÍCIO!'

'Naquele tempo... Jesus viu um homem chamado Mateus'... (Mt 9,9). Mateus, um homem comum, como eu e você. Jesus viu em Mateus, esse homem comum e pecador, o que vê em todos nós: homens comuns e pecadores que, no cotidiano de suas vidas, dedicam-se a tantas e muitas atividades e perdem tempo com tantas coisas, que se descuidam, que se esquecem, que se afastam da única coisa que realmente importa: a salvação eterna da alma!

Este pobre homem comum chamado Mateus - um coletor de impostos, praticante de uma das atividades mais desprezadas pelo povo judeu à época - vai experimentar, em toda a sua magnitude, as maravilhas da misericórdia de Deus: 'segue-me!' (Mt 9,9). Seguir a Jesus significava abandonar todos os bens para aquele que vivia de se apoderar dos bens alheios. E, sem titubear, o Mateus bendito dos Evangelhos largou tudo e seguiu Jesus. Esse Mateus tem nome - como poderia ter sido meu nome ou o seu - porque, ao se desvestir do mundo, teve como herança eterna o seu nome escrito no Livro da Vida.

E tal mudança de vida impõe a necessidade de uma grande celebração e a experiência de Mateus é então compartilhada com muitos outros irmãos de profissão e são muitos deles que agora estão em festa circundando Jesus à mesa. O apostolado que rende frutos de imediato, o serviço a Deus que começa no minuto seguinte ao chamamento da graça. E eis que, diante o mistério da graça, se manifesta o desvario da malevolência dos fariseus: 'Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?' (Mt 9,11). E Jesus vai lhes dar esta resposta: 'Quero misericórdia e não sacrifício... eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores' (Mt 9,12). Ou seja, para nos chamar a todos - homens comuns e pecadores de todos os tempos - todos nós que precisamos ser curados das feridas do pecado.

Mateus, de agora em diante, será São Mateus, o primeiro Evangelista. Movido pela fé e pela docilidade aos ditames da graça - pela mesma fé creditada como justiça que tornaram Abraão o pai de muitos povos conforme a promessa divina - o coletor de impostos vai abandonar tudo para seguir Jesus. Seguir Jesus implica dedicação plena, tomada de decisão resoluta, integridade de propósito e... obras! São estas coisas que permeiam o significado da proposição imperativa do Senhor aos homens de todos os tempos: 'Quero misericórdia e não sacrifício!' (Mt 9,12). Seguir Jesus, sim, mas não apenas com os lábios ou por meio do indiferentismo de uma crença qualquer, mas com a fé creditada como justiça e servida pela caridade para com todos os nossos irmãos, para propiciar a todos nós a graça da salvação e os frutos eternos das maravilhas da misericórdia de Deus!

sábado, 6 de junho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (116/123)

 

116. UM DUELO E UMA CONVERSÃO

O professor Parrini, homem de grande talento, era infelizmente maçon, havia muitos anos. Comprometera-se por escrito a não receber o sacerdote mesmo em caso de grave enfermidade; e no seu testamento ordenara que se lhe fizessem funerais civis exclusivamente.

Ora, sucedeu que Parrini, durante um duelo, recebeu vários ferimentos. Quando percebeu a gravidade de seu estado, imediatamente mandou chamar o pároco, pois queria reconciliar-se com Deus. Em presença das testemunhas renunciou à maçonaria e retratou seus escritos contra a religião e a Igreja.

Recebeu, depois, os sacramentos com uma piedade que edificou a todos. Tendo osculado afetuosamente o Crucifixo, declarou que reconhecia a Jesus Cristo como seu único consolador e sua única esperança, e expirou. A explicação desta inesperada conversão é a seguinte: Parrini nunca passava um dia sem rezar, ao menos o De profundis pelas almas do Purgatório.

117. GOUNOD E A SANTA MISSA

O célebre compositor Gounod, que fora educado num seminário, nunca deixou de ser católico praticante. Quando, em seus últimos anos de vida, veraneava na chácara de seu amigo Charbrier, caminhava diariamente dois quilômetros a pé para ouvir a missa, na igreja mais próxima.

Um dia, enquanto esperava, sentado num banco, que começasse o Santo Sacrifício, notou que faltava coroinha. Levantou-se, pediu licença ao padre para substituir o coroinha e ajudou a missa com muita edificação de todos os presentes.

118 - 123. O MENINO JESUS NA HÓSTIA

1. Certo pároco de Moneada (Espanha) andava atormentado por escrúpulos. Temia que a sua ordenação sacerdotal tivesse sido inválida e que, por isso, as suas palavras na consagração fossem ineficazes. Nosso Senhor quis restituir-lhe a paz da alma por meio de um milagre. Uma menina de cinco anos, ao assistir às missas desse pároco, da consagração até a comunhão, via na Hóstia um belíssimo menino. Ciente disso, o sacerdote colocou sobre o corporal três hóstias, mas consagrou somente duas; à hora da comunhão consumiu uma e deixou a outra ao lado da hóstia não consagrada. Chamou em seguida a menina que lhe apontou exatamente a hóstia consagrada, dizendo-lhe que naquela via o Menino e na outra não.

2. São Lourenço Justiniano era devotíssimo da Santíssima Eucaristia e a sua fé profunda na presença real de Jesus na hóstia consagrada manifestava-se especialmente enquanto celebrava o santo sacrifício, na devoção angélica e nas copiosas lágrimas que derramava, edificando grandemente a todos que o viam ao altar. Não raro quis Deus recompensar-lhe a fé e devoção com fatos prodigiosos. Uma vez, por exemplo, na noite de Natal, quando celebrava a santa missa, pode contemplar na Hóstia santa um belíssimo Menino.

3. Em 1924, estavam um dia os deputados da República da Colômbia reunidos na Câmara, quando ouviram o som de uma campainha que anunciava a passagem de uma procissão em que se levava o Sagrado Viático a um enfermo. Fez-se no recinto da Câmara profundo silêncio e os deputados puseram-se em pé e permaneceram em respeitosa atitude até que a procissão acabou de passar.

4. Os protestantes, separando-se da Igreja Católica, perderam o sacerdócio e a Eucaristia instituída por Jesus Cristo. Certo dia, um visitante, entrando na esplêndida catedral protestante da Basileia (Suíça), descobriu respeitosamente a cabeça. O guia, estranhando esse gesto, disse: 'O senhor não precisa descobrir-se, porque aqui não está ninguém'. Tinha razão; nos templos protestantes Jesus não está.

5. A beata Joana Maria Bonomi, contando somente cinco anos de idade, ao assistir à missa de um neo-presbítero viu, no momento da consagração, como dois anjos erguiam a Hóstia resplandecente de luz.

6. Um missionário encontrou-se, certa manhã, bem cedinho, com uma menina que voltava da igreja. Depois de dizer-lhe: 'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo' e ela responder: 'Para sempre seja louvado', perguntou-lhe:
➖ Minha filha, você vai à missa todos os dias?
➖ Sim, senhor Padre, todos os dias, tanto no verão como no inverno.
➖ Mas, minha filha, você mora longe da igreja; não acha que é muito sacrifício fazer cada dia essa jornada tão fatigante?
Ao que ela respondeu com grande candura:
➖ Senhor Padre, é por amor de Jesus que eu faço isso, porque Ele bem o merece.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sexta-feira, 5 de junho de 2026

SETE REFLEXÕES SOBRE A EUCARISTIA


1. 'Eu fui um grão de trigo semeado no ventre virginal da minha Santíssima Mãe (cf. Jo 12,24); saí dele tenro e fresco, como um trigo em broto; cresci sob ventos e sóis intensos de trabalhos, caminhos e perseguições; e quando tinha quase trinta anos, os maus lançaram a sua foice sobre mim, e fui cortado desta vida, moído e atormentado, e transformado em farinha para que dela se fizesse este pão sagrado, do qual e pelo qual digo: 'Quem me comer, viverá por mim' (Jo 6,58). E tendo custado tão caro entregar-me como alimento aos homens, e estando fechado e depositado em lugar tão pequeno para que melhor possam me comer, prestam tão pouca atenção aos meus trabalhos e ao meu grande amor e à grande necessidade que têm de mim, que alguns nem sequer querem vir à minha casa; e se outros vêm, contentam-se em reverenciar-me quando sou consagrado e elevado na missa; mas preparar suas consciências, lutar contra suas paixões para virem puros à minha mesa e me receberem e se alegrarem comigo, muito poucos há'.

2. 'Quereis que Deus seja todo vosso? Sejais então todo dele. Não ousais? Como sois duros, cegos que sois, que temeis vos trocar por Deus? Por que temeis entregar-vos a Ele e oferecer-vos à sua vontade? Se, pelo que vos dais, Ele se entrega por si mesmo e, ainda assim, não ousaríeis? Pois isso é comungar, e isto é o significado e o ato da comunhão'.


3. 'Que confusão para nós, que nos contentamos com uma missa assistida de passagem, apressadamente, sem amor, sem gratidão! Bem-aventurado aquele que, quando tiver Cristo em suas mãos, sentir-se como o velho Simeão'.

4. 'Ao esquecer a comunhão e a comunicação com Jesus Cristo, a fé esfria tanto que, se nada nos pressionasse, terminariamos por negar a fé... Receber o corpo de Jesus Cristo e nos unirmos agora a Ele, por meio da comunhão, é uma antecipação da união que haverá de existir entre nós e Ele nos céus'.

5. 'O sacerdote toma o pão nas mãos e pronuncia as palavras da consagração; assim que as pronuncia, já não há pão; quem entrou ali no lugar do pão? Jesus Cristo. Pois, quando vierem comungar, considerem que vocês são o pão que se converterá em Jesus Cristo, para que digam como o apóstolo São Paulo: Vivo eu, mas não eu, e sim Jesus Cristo em mim' (Gl 2,20).

6. 'Meu caro irmão, e se soubesses que graça tão grande te concedeu Jesus Cristo ao permanecer aqui para te sustentar! Guarda em teu peito o Santíssimo Sacramento, comunga com frequência, aproxima-te do santo altar de Jesus Cristo e roga-lhe com muita devoção: 'Senhor, estou nesta tribulação; Senhor, estou nesta fadiga; esta tentação me cansa; esta desonra me cerca; Senhor, estou morno, estou fraco, estou frio; Senhor, pois tu és o verdadeiro fogo, acende a minha alma com o teu amor; inflama, meu Senhor, as minhas entranhas na caridade'. Pede-lhe, que se com boa fé lhe pedires, Ele te concederá'.

7. 'E, acima de tudo, aproximemo-nos do fogo que acende e arde, que é Jesus Cristo, nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento. Abramos a boca da alma, que é o desejo, e vamos sedentos à fonte de água viva; pois, sem dúvida, ao colocarmos o mel na boca, algo provaremos, e o fogo no íntimo nos aquecerá. E depois e antes de comungar, tenhamos algum preparativo; e os melhores são a fé certa de que vamos receber Jesus Cristo, nosso Senhor, e o pensamento e o amor de sua paixão, pois é em sua memória que o ato se realiza. Corramos, pois, atrás de Deus, que não nos deixará; Ele está pregado na cruz; ali o encontraremos com toda a certeza; coloquemo-lo em nosso coração e fechemos as portas para que Ele não nos deixe.'

(São João de Ávila)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

CORPUS CHRISTI 2026

 

Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, é uma festa litúrgica da Igreja sempre celebrada na quinta–feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. 

O pão é pão e o vinho é vinho
como frutos do homem em oração;
é o que trazemos, é tudo o que temos,
como oferendas da nossa devoção. 

Não é mais pão, nem é mais vinho
quando espécies na consagração;
alma e divindade que se reconciliam
a cada missa, em cada comunhão.

Aparente pão, aparente vinho,
é mais que vinho, muito mais que pão;
o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo
 é o alimento da nossa salvação.

(Arcos de Pilares)

INDULGÊNCIAS DO DIA DA SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI

    

Nesta quinta-feira, dia da solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, o católico pode ser contemplado com as seguintes indulgências:

(i) Indulgência parcial: rezar, com piedosa devoção, a oração 'Alma de Cristo':

Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro de vossa chagas, escondei-me.
Não permitais que eu me separe de vós.
Do espírito maligno, defendei-me.
Na hora da morte chamai-me e
mandai-me ir para vós,
para que com vossos Santos vos louve
por todos os séculos dos séculos.
Amém.

(ii) Indulgência plenária: rezar, com piedosa devoção, a oração 'Tantum Ergo' ou 'Tão sublime Sacramento':

Tão sublime sacramento
vamos todos adorar,
pois um Novo testamento
vem o antigo suplantar!
Seja a fé nosso argumento
se o sentido nos faltar.
Ao eterno Pai cantemos
e a Jesus, o Salvador,
igual honra tributemos,
ao Espírito de amor.
Nossos hinos cantaremos,
chegue aos céus nosso louvor.
Amém.

Do céu lhes deste o pão,
Que contém todo o sabor.

Oremos: Senhor Jesus Cristo, neste admirável Sacramento, nos deixastes o memorial da vossa Paixão. Dai-nos venerar com tão grande amor o mistério do vosso corpo e do vosso sangue, que possamos colher continuamente os frutos da vossa redenção. Vós que viveis e reinais para sempre. Amém.