quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

QUARTA DE CINZAS


Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris

'Lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás!(Gn 3,19). A Quarta-Feira de Cinzas é o primeiro dia do tempo da Quaresma, quarenta dias antes da Páscoa. Neste dia por excelência refletimos sobre a nossa condição mortal nesta vida e a eternidade de nossas almas na vida futura. Num tempo em que se valoriza tanto a dimensão física, a beleza do corpo, a imposição das cinzas nos desvela a dura realidade do nosso corpo mortal: apenas pó que há de se consumir em cinzas.

Esse dia dá início, portanto,  a um tempo de profunda meditação sobre a nossa condição humana diante da grandeza e misericórdia de Deus. Tempo para fazer da nossa absurda fragilidade, sustentáculos da verdade e da fé; tempo para fazer de nossa pequenez e miséria, um templo de oração e um arcabouço de graças; tempo para transformar a argila pálida de nossos feitos e conquistas, em patamares seguros para a glória de Deus. Um tempo de oração, jejum e caridade. Um tempo de oração, desagravo, conversão, reparação. E um tempo de penitência, penitência, penitência...

A penitência é traduzida por atos de mortificação, seja na caridade silenciosa de um pequeno gesto, seja na determinação silenciosa de um pequeno 'não!' Pequenos gestos: uma visita a um amigo doente, uma palavra de conforto a quem padece ausências, um bom dia ainda nunca ofertado; ou um pequeno 'não': à abstinência de carne ou refrigerante ou ao fumo; abrir mão de ter sempre a última resposta ou para aquela hora a mais de sono; simplesmente dizer não a um livro, a uma música, a uma revista, a um programa de televisão. 

Propague o silêncio, sirva-se da modéstia; invista no anonimato, não se ensoberbeça, pratique a tolerância, estanque a frivolidade, consuma-se na obediência. Lembra-te que és pó e todas as tuas ações, aspirações e pensamentos vão reverberar em ti as glórias de Deus.

Abre-se hoje o Tempo da Quaresma: 'convertei-vos e crede no Evangelho'. Pois é no Evangelho (Mt 6, 1-6.16-18) que Jesus nos dá os instrumentos para a realização de uma autêntica renovação interior: oração, jejum e caridade. Com estas três práticas fundamentais, o tempo de penitência da quaresma é convertido em caminho de santificação ao encontro de Jesus Ressuscitado que vem, na Festa da Páscoa.

QUARESMA 2026

A Quaresma é assumida pela Igreja como um tempo de preparação para a celebração da Páscoa, movido essencialmente pelo incentivo maior e mais intenso pelo povo cristão das práticas de oração constante e penitência, como jejuns e obras de caridade. A Quaresma deste ano tem início na Quarta-Feira de Cinzas (18 de fevereiro) e se estende até as vésperas imediatas da Missa Vespertina In Coena Domini na Quinta-Feira Santa, ou seja, na Quarta Feira da Semana Santa (dia 01/04/2026).


Sugestão: Adotar este ciclo de leituras e devoções diárias (40 dias) durante esta Quaresma (clicar sobre o título abaixo)


Primeiro Dia - Quarta Feira de Cinzas
Quadragésimo Dia - Quarta Feira da Semana Santa 

Não incluir na sequência das datas das Leituras do Diário da Quaresma de 2026 os dias 19/03 (São José), 25/03 (Anunciação do Senhor) e 29/03 (Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor)

Ver: Leituras para os Tempos da Quaresma - Biblioteca Digital do blog

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

FESTA VOTIVA DA SAGRADA FACE DE NOSSO SENHOR

Hoje é o último dia antes do grande e santo jejum da Quaresma. No rito litúrgico da Igreja, sempre representou um dia ímpar, chamado Marti Gras (ou Terça-feira Gorda), que delimita um tempo de separação radical entre um tempo de diversão, alegria e consumo de carne ao período austero de jejum e penitência da Quaresma. Ou seja, impõe ao cristão uma percepção clara de antagonismo entre o tempo de festa que termina e o tempo de penitência prestes a se iniciar. Infelizmente, e particularmente no Brasil, este dia da terça-feira de carnaval transformou-se apenas em um dia ímpar de zombarias, escândalo público e pecado para muita gente.


Exatamente por tais razões, a festa votiva em honra à Sagrada Face de Nosso Senhor (instituída pelo Papa Pio XII em 1958 e que não consta mais do calendário da liturgia atual) é especialmente celebrada na terça-feira que precede o tempo da Quaresma, como ato de desagravo e reparação aos pecados cometidos durante o carnaval. Este foi inclusive um pedido formal de Nosso Senhor Jesus Cristo à Madre Pierina em 1938:

'Veja como sofro. No entanto, sou compreendido por tão poucos. Que gratidão da parte daqueles que dizem que me amam. Eu dei o meu Coração como um objeto sensível do meu grande amor pelo homem e dou o meu rosto como um objeto sensível da minha tristeza pelos pecados do homem. Desejo que seja honrado por uma festa especial na terça-feira da Quinquagesima (a terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas). A festa será precedida por uma novena na qual os fiéis farão reparação comigo unindo-se à minha tristeza'.

O pedido de Nosso Senhor Jesus Cristo é muito claro: não é preciso esperar a Quarta-feira de Cinzas para nos colocarmos em espírito de penitência pelos nossos pecados e pelos pecados dos homens. 

Deus onipotente e misericordioso, dignai-vos, nós vos suplicamos, conceder a todos aqueles que honram o rosto do vosso Cristo neste dia, desfigurado na sua Paixão e Morte de Cruz pelos nossos pecados, a graça de vê-lo e glorificá-lo por toda a eternidade. Amém.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

VERSUS: ANGÚSTIA X CONSOLAÇÃO

'Que nada te assuste ou entristeça, que teu coração não se perturbe, não temas nenhuma doença ou angústia. Não estou eu aqui, eu que sou tua Mãe? Não estás sob minha sombra e proteção? Não sou eu tua fonte de saúde? Não estás felizmente aconchegado nas dobras do meu manto, seguro em meus braços?'

(Mensagem de Nossa Senhora de Guadalupe a Juan Diego, em 12 de dezembro de 1531)



'Sim, povo de Sião, que habitas em Jerusalém, não terás mais do que chorar. À voz de tua súplica, Ele te fará misericórdia; assim que a ouvir, Ele te atenderá. Quando o Senhor vos tiver dado o pão da angústia e a água da tribulação aquele que te instrui não se esconderá mais, e verás com teus olhos aquele que te ensina. Ouvirás com teus ouvidos estas palavras retumbarem atrás de ti: 'É aqui o caminho, andai por ele' - quando te desviares quer para a direita, quer para a esquerda'. 

(Is 30,19-21)

PALAVRAS ETERNAS

'O melhor jejum é o jejum do pecado'

(São João Crisóstomo)

domingo, 15 de fevereiro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo!(Sl 118)

Primeira Leitura (Eclo 15,16-21) - Segunda Leitura (1Cor 2,6-10) -  Evangelho (Mt 5,17-37)

  15/02/2026 - SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'E EU VOS DIGO...'



Nas palavras: 'Em verdade, Eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra' (Mt 5,18), Jesus proclama que a Boa Nova do Evangelho trazida à humanidade, como instrumento de resgate e não de abolição à Antiga Lei, está fundada na Verdade Absoluta, imutável no espaço e no tempo, desde os nossos primeiros pais até o último homem da face da terra. O pecado é o mesmo ontem e hoje, e os Dez Mandamentos modelam a história humana na dimensão divina.

A plenitude do exercício do Decálogo é a via de santificação perfeita. O Céu é uma porta aberta para os que se consomem e se alimentam da Verdade de Cristo, emanada da vivência profunda dos valores do Evangelho e não apenas sedimentados no alicerce frágil das exterioridades enormes da antiga Lei Mosaica: 'Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus' (Mt 5,20). Nesta contextualização, Jesus vai passar dos conceitos formais expressos por 'vós ouvistes...' às premissas mais abrangentes da Nova Lei: 'e eu vos digo...' Assim, do pecado gravíssimo do homicídio formal, Jesus anuncia que na própria ira contra o próximo já se manifesta a gravidade do pecado. O pecado do adultério não se restringe ao ato consumado e definitivo, que era castigado com a morte, mas é igualmente perverso no desejo; o juramento falso é um ato abominável, mas é igualmente pecaminoso o simples juramento sobre qualquer coisa.

Jesus exorta, em todas estas passagens, a se cumprir, em tudo e para todos, a santificação em plenitude, traduzida na observância radical dos seus Mandamentos e na fuga da ocasião de pecado por todos os meios disponíveis, pelos mais extremos possíveis: 'Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno' (Mt 5,29 - 30).

Não ceder ao pecado sob concessão alguma. Não afrontar a graça divina por nenhum propósito humano. A verdadeira santificação exige, portanto, vigilância extrema e oração constante. A superação da fragilidade de nossas limitações implica decisões claras e firmes em favor da pureza evangélica e aos ditames de Cristo, nosso Divino Mestre: 'Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno' (Mt 4,37).

sábado, 14 de fevereiro de 2026

DEVOÇÃO DAS 40 HORAS

  

Estamos a poucos dias do início da Quaresma, tempo singular de oração e penitência. E precedido por um tempo também singular de desvario e liberação total de escândalos públicos que arrastam as almas para os abismos do pecado. Há maneiras diversas de um católico viver livre destas amarras ou fazer atos de desagravo nestes tempos de carnaval e antecipar o tempo quaresmal de penitência, mas um, bastante especial, é a chamada Devoção das 40 Horas ao Santíssimo Sacramento nestes dias e antes da Quarta-Feira de Cinzas, que constitui um antigo rito litúrgico da Igreja quase relevado ao esquecimento nos dias atuais.

A devoção teve origem na Idade Média (pelo menos desde o século X) como devoção ao Santo Sepulcro do Salvador, que era erigido desde a Adoração da Cruz, na Sexta-Feira Santa, até a Missa de Ressurreição do Domingo de Páscoa. Durante este tempo (cerca de 40 horas), os fiéis oravam diante dele, recitando ou cantando salmos e outras preces, em memória da morte e sepultura do Senhor, que esteve no Sepulcro por cerca também de 40 horas.

A Exposição do Santíssimo ─ visível ou velado no cálice ─ para sua adoração pelos fiéis, constitui uma das principais práticas de adoração a Jesus na Sagrada Eucaristia, particularmente por meio da Festa de Corpus Christi e da Devoção das 40 Horas. Estas práticas litúrgicas constituem, portanto, o termo feliz da evolução da devoção original ao Santo Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo. A celebração da Devoção das 40 Horas foi aprovada inicialmente pelo papa Paulo V em 1539 e Clemente XI ordenou definitivamente a sua prática litúrgica, em termos de Adoração Perpétua, mediante a famosa Instrução Clementina de 1705.

A devoção pode ser praticada em quaisquer datas, mas especialmente é indicada no Tempo Pascal, durante as quarenta horas que antecedem o dia de Corpus Christi e durante os três dias de carnaval que antecedem a Quarta-Feira de Cinzas (domingo, segunda-feira e terça-feira), como rito de reparação aos pecados cometidos nesta época. As comunidades dividem-se em grupos e horas alternadas, de modo a adorar Jesus Sacramentado por 40 horas ininterruptas. As práticas de Devoção das Quarenta Horas é comumente intercalada com celebrações de missas coram exposito (mediante exposição do Santíssimo Sacramento).