sábado, 12 de setembro de 2026

AS VINHAS DE DEUS (XII)

 

78. A erva aproxis é tão facilmente atraída pelo fogo que, mesmo quando se encontra a grande distância, atrai imediatamente para si a chama e rapidamente se consome, incendiando-se não apenas pelo calor, mas pela simples luz da chama que lhe é apresentada... Assim também, quando nossos corações se colocam na presença da bondade divina e atraem para dentro de si as perfeições divinas, pelo deleite que nelas encontram, podem dizer com verdade: 'A bondade de Deus é toda minha, porque me alegro em sua excelência; e eu sou todo dele, pois o seu beneplácito me possui'. 

79. Foi esse amor de compaixão que imprimiu os estigmas no amoroso e seráfico São Francisco e as ardentes chagas de nosso Salvador na amorosa e angélica Santa Catarina de Sena; pois a complacência amorosa aguçara as pontas da dolorosa compaixão, assim como o mel torna mais sensível e penetrante o amargor do absinto; ao passo que, inversamente, o doce perfume da rosa é enfraquecido e amortecido pelo alho plantado junto às roseiras. Pois, assim como a complacência amorosa que sentimos no amor de nosso Salvador nos faz experimentar uma compaixão mais profunda por seus sofrimentos, também, por outro lado, quando passamos da compaixão por suas dores à complacência em seu amor, a alegria se torna tanto mais ardente e mais elevada.

80. Os Magos do Oriente não conseguem contentar-se com a beleza da cidade de Jerusalém, nem com a magnificência da corte de Herodes, nem com o brilho da estrela; seus corações procuram a pequena gruta e o pequeno Menino de Belém. A Mãe do belo amor e seu santo esposo não conseguem repousar entre parentes e amigos; prosseguem ainda, 'procurando com aflição' o único objeto de sua complacência. O desejo de aumentar essa santa complacência afasta todo outro prazer, para que a alma possa gozar mais perfeitamente daquele para o qual a bondade divina a atrai.

81. A mirra produz seu primeiro líquido como que por transpiração; mas, para que entregue todos os seus sucos, é necessário ajudá-la mediante uma incisão. Do mesmo modo, o amor divino de São Francisco manifestou-se durante toda a sua vida como uma espécie de exalação que dele emanava, pois em todas as suas ações ele não respirava senão esse santo amor. Mas, para manifestar inteiramente a incomparável abundância desse amor, veio o Serafim celestial feri-lo. E, para que os homens soubessem que suas chagas eram feridas do amor celestial, elas não foram feitas com ferro, mas com raios de luz.

82. A bem-aventurada Madre Teresa diz admiravelmente que, quando a união da alma com Deus alcança tal perfeição que nos mantém unidos a Nosso Senhor, ela em nada difere do arrebatamento e da suspensão do espírito; mas, quando é breve, chama-se apenas união ou suspensão, ao passo que, se é prolongada, chama-se arrebatamento ou êxtase. De tal modo que, com efeito, a alma unida ao seu Deus tão firme e estreitamente que não pode facilmente ser separada dele já não está em si mesma, mas em Deus; assim como um corpo crucificado já não está em si mesmo, mas na cruz, e como a hera que se agarra ao muro já não está em si mesma, mas no muro.

83. Assim como os marinheiros que se fazem ao mar com vento favorável e bom tempo jamais se esquecem dos cabos, das âncoras e das demais coisas necessárias para o mau tempo e as tempestades, também o servo de Deus, embora desfrute do repouso e da doçura do santo amor, nunca deve estar sem o temor dos juízos divinos, a fim de poder servir-se dele em meio às tempestades e aos assaltos da tentação. Do mesmo modo, assim como a casca de uma maçã, embora tenha pouco valor em si mesma, serve, contudo, grandemente para conservar a fruta que recobre, assim também o temor servil, embora tenha tão pouco valor em si mesmo quando comparado ao amor, é, todavia, muito útil para preservar o amor em meio aos perigos desta vida mortal.

84. Com efeito, o santo amor é uma virtude, um dom, um fruto e uma bem-aventurança. Como virtude, torna-nos obedientes às inspirações interiores que Deus nos concede por meio de seus mandamentos e conselhos, em cuja execução praticamos todas as virtudes, das quais o amor é a virtude de todas as virtudes. Como dom, o amor torna-nos dóceis e receptivos às inspirações interiores, que são como os mandamentos e os conselhos secretos de Deus; e, ao colocá-los em prática, fazemos uso dos sete dons do Espírito Santo, dos quais o amor é o dom dos dons. Como fruto, ele nos proporciona um sabor e um prazer extraordinários na prática da vida devota, a qual requer os doze frutos do Espírito Santo; e, por essa razão, o amor é o fruto dos frutos. Como bem-aventurança, faz-nos receber como grande favor e singular honra as afrontas, calúnias, censuras e insultos que o mundo nos dirige; e faz-nos renunciar e rejeitar toda glória que não seja aquela que procede de nosso amado Salvador Crucificado.

85. O amor, portanto, é frequentemente representado pela romã, que, recebendo suas propriedades da árvore, pode ser chamada de virtude da árvore; parece também ser o seu dom, que ela oferece ao homem; e é o seu fruto, pois é comida para deleitar o paladar humano. E, finalmente, ela é, por assim dizer, a glória e a bem-aventurança da árvore, pois traz consigo uma coroa e um diadema.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (149/152)

 

149. O MENINO SOLDADO

José Sanchez del Rio pertencia à Juventude Católica, seção de Aspirantes. Tinha 13 anos quando Calles, presidente do México, iniciou a sua terrível perseguição contra os católicos. O menino apresentou-se ao general Mendoza, comandante do Exército dos Libertadores, e lhe disse:
➖ Se eu não souber atirar com o fuzil, poderei prestar, outros serviços: cuidar dos cavalos, preparar munições, carregar água. Deixe-me ser soldado de Cristo-Rei!
Em vista de tamanha insistência, o general resolveu aceitar o pedido do menino. A mãe, porém, temia pela sorte de seu filhinho.
➖ Ora, mamãe - dizia ele para animá-la - não me deixe perder esta boa ocasião de ganhar o céu com tão pouca fadiga e tão depressa.

Qual seria o segredo de tamanho ardor? A santa comunhão cotidiana. Rezara muito junto da sepultura do protomártir da Juventude Católica Mexicana - o jovem Joaquim Silva - e, desta oração, o aspirante Sanchez saiu soldado de Cristo-Rei, na expectativa de um glorioso martírio. No acampamento era ele o benjamim, mas o seu desejo era entrar em combate. Pouco depois do seu alistamento, no mais aceso furor de uma batalha, o cavalo do general Mendoza caiu fulminado. Ato contínuo, o soldadinho apeou-se, e disse:
➖ General, tome o meu cavalo. Que importa que me matem? O senhor é aqui mais necessário do que eu.

E escondido atrás de uma pedra, continuou a atirar, até que, esgotadas as munições, foi aprisionado. Admirado ao ver um menino feito soldado, o general inimigo indagou:
➖ Que está fazendo, menino? Não sabe que vamos fuzilá-lo?
➖ Que importa? - replicou Sanchez. Só me prenderam porque estava sem munição.
➖ Ninguém pretende fazer-lhe mal algum; mas diga-nos o que sabe dos rebeldes.
➖ Eu, traidor de meus irmãos? Nunca! Pensam que sou um judeu como vocês? Prenderam-me como a um inimigo; então, devem fuzilar-me!
Tais respostas espantavam a todos. Conservaram-no, porém, como prisioneiro, na esperança de, por meios brandos ou violentos, arrancar-lhe algums informações.

A noite, fecharam-no na igreja da aldeia, transformada pelos soldados de Calles em galinheiro. Sanchez, que queria passar a noite rezando, em dado momento percebeu a presença de galos e galinhas na igreja. Ficou indignado com aquela profanação e, levantando-se, torceu o pescoço de todos aqueles animais.É fácil imaginar a irritação dos guardas, quando, pela manhã, deram com a inesperada matança. Investiram contra o menino, e bateram-no até vê-lo derramar sangue. Sanchez, corajoso, dizia:
➖ Deixem-me vivo para morrer fuzilado.

Naquele dia obteve licença de escrever a sua mãe. Na carta dizia: 'Mamãe querida. Fui feito prisioneiro e esta noite serei fuzilado. Chegou, finalmente, a hora tão desejada. Abraço a senhora e a todos os meus irmãos, e prometo-lhes um bom lugar no Céu'. E assinou: 'José Sanchez del Rio, que morre em defesa da Fé, por amor de Cristo-Rei e da Rainha Nossa Senhora de Guadalupe'.

Seriam 23 horas do dia 10 de fevereiro de 1928, quando o menino foi conduzido ao cemitério. Caminhava cantando o hino: 'Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera'. Ao chegar ao cemitério, perguntou onde estava a sua cova e vendo-a, para lá se dirigiu, ajoelhou-se e beijou-a. Os soldados inimigos avançaram sobre ele e o transpassaram a punhaladas. O sangue jorrava de inúmeras feridas, mas Sanchez não tremia nem chorava.
➖ Continuem - repetia - continuem! Mais um pouquinho e estarei com Cristo-Rei!
Um dos soldados disparou-lhe um tiro na cabeça e ele caiu morto na cova. O sepulcro desse valoroso menino soldado de Cristo-Rei é, hoje, glorioso e muito visitado.

150. A INGRATIDÃO PARA COM DEUS

Conta o historiador César Cantu que certo rei da índia caiu em um rio. Um servo fiel correu, lançou-se à torrente e, agarrando o rei pelos cabelos, salvou-o da morte certa. Voltando a si, o rei quis saber quem e de que modo o salvara das águas. Levaram-lhe o servo fiel, e esperavam que o soberano lhe desse uma generosa recompensa. Mas não foi assim. O rei com ar severo perguntou-lhe: 'Como tiveste a ousadia de por as mãos em teu rei?' E imediatamente mandou que o trucidassem. 

Essa monstruosa ingratidão causou horror. O castigo, porém, não tardou. Estando o rei, certo dia, embriagado, entrou num barco e outra vez naufragou. Os barqueiros bem o poderiam salvar mas, recordando-se do servo trucidado, deixaram que o rei se afogasse. Fizeram mal, é certo; mas o mau rei teve o que merecia, porque fôra ingrato e cruel para com aquele que lhe demonstrara tanto amor, livrando-o da morte. Quantos não há por ai que, escapando da morte eterna por meio do Sacramento da Penitência, imitam aquele rei, mostrando-se cruéis e ingratos para com Jesus, o seu libertador!

151. O NOME DE JESUS

São Bernardino de Sena foi um grande apóstolo e propagador da devoção do Nome de Jesus. Conta-se que, no fim de todos os sermões, costumava expor um quadro no qual estava gravado o nome de Jesus, e com esse meio de propaganda conseguía efeitos maravilhosos. 

Uma vez, numa praça de Bolonha, pregou contra o jogo de baralho com tamanho sucesso, que o abuso desse jogo foi extirpado. Ora, um artífice, que fabricava as cartas e com essa arte ganhava o seu sustento, ficou reduzido à miséria, pois ninguém mais lhe comprava baralhos. Que fazer? Apresentou-se ao pregador São Bernardino e lhe disse: 'Padre, agora não terei mais com que viver; pensai vós em socorrer-me'. 

O santo não se embaraçou. 'Se não sabes pintar outra coisa - disse a ele - vai e pinta esta imagem, e verás que tudo vai bem'. E fazendo um círculo, desenhou nele o sol e no centro do sol o nome de Jesus. O artífice executou aquele trabalho com o máximo cuidado, e toda a gente corria a comprar cópias daquela imagem. De sorte que, assim, o fabricante daquele novo gênero de cartas, além de cooperar para a propaganda do Nome de Jesus, fez ainda uma boa fortuna.

152. CONTEMPLA-SE AO ESPELHO PELA ÚLTIMA VEZ

Na cidade de Florença vivia uma jovem, que er amuito vaidosa. Só pensava em pentear a sua formosa cabeleira, acariciar e aformosear a sua carne. Diante do espelho, diariamente passava longas horas contemplando-se e estudando o grave problema de encontrar um meio de fazer sobressair ainda mais a sua graça e formosura. Mas, por detrás do espelho, a enfermidade a espreitava. Meteu-lhe as garras e prostrou-a no leito de dores. A febre consumia todos os seus ossos e, dentro de poucos dias, de toda a sua beleza não restava mais que um rosto lívido e um punhado de ossos descarnados.

E, por detrás da enfermidade, apresentou-se, com sua terrível caveira e com seus ossos esqueléticos, a morte. Aquela jovem não contava mais de vinte anos e, no entanto, tinha de despedir-se da vida e de todas as coisas mundanas que tanto amava. Disseram-lhe com delicadas palavras que o seu estado era muito grave e que, por isso, devia preparar-se para comparecer diante de Deus. A vaidosa jovem lançou um grito de dor. Olhou para trás e viu que perdera tristemente a vida esquecendo-se de Deus. Olhou para a frente e compreendeu que estava a dois passos do Juiz dos céus e da terra, a quem teria de dar contas de todas as suas vaidades. Estava às portas do céu ou do inferno! A consciência dizia-lhe aos gritos que muito tinha que temer por sua salvação eterna...

A febre converteu-lhe a cabeça numa fornalha de fogo. Saltou da cama, abriu seus cofres e seus armários, tirou os vestidos mais preciosos e as jóias mais ricas e começou a vestir-se e a enfeitar-se como naquelas noites em que se preparava para ir aos bailes e teatros. Como louca, e sustentada pela mesma febre, penteou-se e arranjou-se com toda a elegância. Contemplou-se ao espelho e pôs-se a exclamar: 'Como sou formosa! como sou formosa! E queriam enterrar-me a mim, a mulher mais formosa do mundo! Não, não... quero viver, quero viver... Venham minhas jóias, minhas pérolas, meus vestidos, meus anéis, minhas pulseiras, meus colares...'

E fora de si, arrojava-se a todos os seus cofres, armários e baús, e tirava os seus tesouros e apertava-os contra o coração e beijava-os com loucura. Sim, estava louca! E louca continuou por alguns dias e louca morreu. E metida num caixão, vestida com uma pobre mortalha, foi levada à sepultura. Eis aí a verdade: a vaidade humana tem que deixar todos os seus tesouros nas garras frias e cruéis da morte!

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE AUGSBURG


O Milagre Eucarístico de Augsburg (Alemanha), no final do século XII, contempla uma realidade cuja memória transcende mais de oito séculos de devoção ininterrupta e que constitui um culto eucarístico medieval extremamente antigo, historicamente muito bem definido e com sólida comprovação documental desde a sua origem (e não por descrições tardias), o que o torna um evento desta natureza bastante singular. 

E tudo começou com um ato desordenado e gravemente irregular de devoção privada. No ano de 1194, movida por uma especial devoção à Eucaristia e não como uma profanação deliberada, uma mulher, cujo nome não foi preservado, após receber a sagrada comunhão na igreja de Heilig Kreuz (Santa Cruz), recolheu a hóstia consagrada e a levou secretamente para casa, colocando-a e mantendo-a por um longo período confinada, num relicário improvisado, na forma de um invólucro de cera. Cinco anos depois, atormentada pela consciência, a mulher revelou finalmente o que havia feito ao preposto Berthold, vinculado ao mosteiro dos Cônegos Regulares Agostinianos de Heilig Kreuz

Em 11 de maio de 1199, Berthold dirigiu-se até a residência da mulher e recolheu o invólucro de cera que, uma vez rompido, revelou não mais uma hóstia normal, mas uma substância com aparência vermelho-sangue, perpassada por capilares, à semelhança de pequenos veios ou filamentos, ao longo de toda a sua extensão. A hóstia foi, então, levada ao bispo de Augsburg - Udalschalk (1184 –1202) que, em um documento expedido apenas quatro dias depois, não apenas relatou o acontecimento como testemunha ocular, como lhe deu certificação formal, ao instituir de imediato o culto de adoração à relíquia, que ficou conhecida como Das Wunderbarliches Gut [em tradução livre: o bem precioso ou o tesouro maravilhoso].

Hóstia milagrosa na Igreja de Santa Cruz (em destaque o relicário)
Santíssimo Sacramento Milagroso na Igreja de Santa Cruz de Augsburgo (Sanctissimum Miraculosum Sacramentum in Ecclesia Sanctae Crucis Augustae, narrado em latim à direita)

O milagre ocorreu aproximadamente 70 anos antes de Bolsena-Orvieto (1263) e da instituição universal da festa de Corpus Christi por Urbano IV, em 1264. Isso o coloca no centro de uma época importantíssima para o desenvolvimento da devoção eucarística ocidental. Nos séculos XI-XIII, estava ocorrendo uma progressiva explicitação teológica e litúrgica da doutrina da Presença Real. O IV Concílio de Latrão, por exemplo, utilizaria em 1215 a linguagem da transubstanciação, apenas 21 anos depois do início do episódio de Augsburg.

A igreja medieval foi reconstruída e ampliada; grande parte da estrutura atual deriva das obras iniciadas no final do século XV. Mesmo depois da secularização do mosteiro dos agostinianos em 1803, a igreja permaneceu vinculada à veneração do Wunderbarliches Gut. Em Heilig Kreuz, em mais de oito séculos de memória e peregrinação religiosa ininterruptos, os fiéis não se ajoelham diante de uma relíquia morta, mas diante de Cristo vivo e presente na Eucaristia. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

SORRISOS DE DEUS (III)

(Beato Marcel Callo, falecido em 1945)

(Beato Odoardo Focherini, falecido em 1944)

(Santa Maria Troncatti, falecida em 1969)

(Beato Giuseppe 'Pino' Puglisi, falecido em 1993)

(Beato Edward Poppe, falecido em 1924)

(Santa Dulce dos Pobres, falecida em 1992)

(Beato János Brenner, falecido em 1957)

(Beata Maria Felícia de Jesus Sacramentado, falecida em 1959)

terça-feira, 8 de setembro de 2026

GLÓRIAS DE MARIA: FESTA DA NATIVIDADE DE MARIA

Com o nascimento de Maria, Deus dá ao mundo a aurora que anuncia a vinda do Messias, o início histórico da obra da Redenção. Maria, 'bendita entre todas as mulheres' e rainha dos anjos, foi privilegiada pelos desígnios da Providência com as graças mais sublimes para ser elevada à excelsa dignidade de Mãe do Nosso Salvador Jesus Cristo, Mãe de Deus. 

'Deus onipotente, antes que o homem caísse, previu a sua queda e decidiu, antes dos séculos, a redenção humana. Decidiu Ele encarnar-se em Maria... Hoje é o dia em que Deus começa a pôr em prática o seu plano eterno, pois era necessário que se construísse a casa, antes que o Rei descesse para habitá-la. Casa linda, porque, se a Sabedoria constrói uma casa com sete colunas trabalhadas, este palácio de Maria está alicerçado nos sete dons do Espírito Santo. Salomão celebrou de modo soleníssimo a inauguração de um templo de pedra. Como celebraremos o nascimento de Maria, templo do Verbo encarnado?'

(Homilia sobre a Natividade de Maria, de São Pedro Damião)

A Festa da Natividade de Maria (celebrada no dia 8 de Setembro, pelo calendário tridentino) era celebrada no Oriente Católico muito antes de ser instituída no Ocidente e tem sua origem provavelmente em Jerusalém, pelos meados do século V. De acordo com a Tradição, Maria nasceu de pais virtuosos e avançados em idade, Joaquim e Ana, que cumpriam fielmente os seus preceitos cristãos em Jerusalém, resignados e pacientes diante a esterilidade do casal. Contemplados com a gravidez tardia, nasceu-lhes pela Divina Providência a filha que seria a Mãe de Deus, evento singular da história da humanidade que não foi objeto nem de profecias e nem de sinais extraordinários antes, durante ou depois da natividade de Maria.

'Ó Joaquim e Ana, casal bem-aventurado e verdadeiramente sem mancha! Pelo fruto do vosso seio fostes reconhecidos, segundo a palavra do Senhor: 'Pelos seus frutos os reconhecereis'. A vossa conduta foi agradável a Deus e digna daquela que nasceu de vós. Tendo levado uma vida casta e santa, engendrastes a joia da virgindade, aquela que deveria permanecer Virgem antes, durante e depois do parto, a única sempre Virgem de espírito, de alma e de corpo. Convinha, de fato, que a virgindade saída da castidade produzisse a Luz única e monógena, corporalmente, pela benevolência d’Aquele que A gerou sem corpo – o Ser que não gera, mas que é eternamente gerado, para Quem ser gerado é a única qualidade própria da Sua Pessoa. Ó que maravilhas, e que alianças estão neste menino! Ó Filha da esterilidade, virgindade que engravida, nela se unirão divindade e humanidade, sofrimento e impassibilidade, vida e morte, para que em todas as coisas o menos perfeito seja vencido pelo melhor! E tudo isto para minha salvação, ó Mestre! Amas-me tanto que não realizaste esta salvação nem pelos anjos, nem por nenhuma outra criatura, mas tal como já a minha criação, também a minha regeneração foi Tua obra pessoal. Assim, eu exulto, faço despertar a minha alegria e o meu júbilo, volto à fonte das maravilhas, e embriagado de uma torrente de alegria, toco de novo a cítara do espírito e canto o hino divino da natividade'.

(Homilia sobre a Natividade de Maria, de São João Damasceno)


Nasce Maria, dádiva de Deus, santíssima em sua concepção, santíssima no seio de sua mãe, santíssima desde o primeiro instante de sua vida. Pois não convinha que o santuário de Deus, a mansão da sabedoria, o relicário do Espírito Santo, a urna do maná celestial, tivesse em si a menor mácula. Antes de receber sua alma santíssima, sua carne foi completamente purificada até do menor resíduo de toda mancha, sem a mais ínfima inclinação para o pecado.

'A gloriosa Virgem não apenas foi preservada do pecado original em sua concepção, como foi também adornada da justiça original e confirmada em graça desde o primeiro momento de sua vida, segundo muitos eminentes teólogos, a fim de ser mais digna de conceber e dar à luz o Salvador do mundo. Privilégio que jamais foi concedido à criatura alguma, nem humana nem angélica, pertencendo somente à Mãe do Santo dos Santos, depois de seu Filho Jesus ... Todas as virtudes, com todos os dons e frutos do Espírito Santo, e as oito bem-aventuranças evangélicas se encontram no coração de Maria desde o momento de sua concepção, tomando inteira posse e estabelecendo n'Ela seu trono num grau altíssimo e proporcionado à eminência de sua graça'.

(Homilia, São João Eudes)


Maria Santíssima é a nova Eva, a mãe espiritual dos homens; é Judite que será vitoriosa sobre o inimigo do povo de Deus; é Ester que alcançará misericórdia para o seu povo. Foi Maria que Adão entreviu quando Deus lhe disse que uma mulher esmagaria a cabeça da serpente. Deus a tinha em vista quando prometeu a Abraão, aos patriarcas e a Davi, que o Salvador brotaria da sua estirpe. Ela é o tronco de Jessé que havia de dar a flor escolhida, conforme a profecia de Isaías. 

Genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão: 2Abraão gerou Isaac;Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos; 3Judá gerou, de Tamar, Peres e Zera; Peres gerou Hesron; Hesron gerou Rame; 4Rame gerou Aminadab; Aminadab gerou Nachon; Nachon gerou Salmon; 5Salmon gerou, de Raab, Booz; Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé;6Jessé gerou o rei David. David, da mulher de Urias, gerou Salomão; 7Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; 8Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Uzias; 9Uzias gerou Jotam; Jotam gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; 10Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; 11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, na época da deportação para Babilónia.12Depois da deportação para Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel;13Zorobabel gerou Abiud. Abiud gerou Eliaquim; Eliaquim gerou Azur; 14Azur gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; 15Eliud gerou Eleázar; Eleázar gerou Matan; Matan gerou Jacob. 16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.18Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo.19José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente.20Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: 'José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados'. 22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus conosco.

(Evangelho: Mateus, 1, 1-16.18-23)

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (I)

1. A MULHER CANANEIA

Uma mulher cananeia veio pedir a Jesus a cura da sua filha, cruelmente atormentada pelo demônio [Mt 15,21-28].

[21] Partindo dali, retirou-se Jesus para a região de Tiro e de Sidônia.
[22] E eis que uma Cananeia, que tinha saído daqueles arredores, gritou: 'Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim! Minha filha está miseravelmente atormentada do demônio'.
[23] Ele, porém, não lhe respondeu palavra. Aproximando-se seus discípulos, pediram-lhe: 'Despede-a porque vem gritando atrás de nós'.
[24] Ele respondeu: 'Eu não fui enviado senão às ovelhas desgarradas da casa de Israel'.
[25] Ela, porém, veio, prostrou-se diante dele, dizendo: 'Senhor, valei-me'.
[26] Ele respondeu: 'Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães'.
[27] Ela replicou: 'Assim é, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos'.
[28] Então Jesus disse-lhe: 'Ó mulher, grande é a tua fé! Seja-te feito como queres'. E, desde aquela hora, ficou sã a sua filha.


O texto não é de difícil compreensão, mas de interpretação e, numa abordagem descontextualizada, aparenta uma reação fria e até ofensiva de Jesus contra uma súplica de uma mãe em favor de sua filha: Jesus inicialmente não responde a sua súplica, declara ter sido enviado apenas às 'ovelhas perdidas da casa de Israel' e ainda conclui duramente que 'não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães'. A pedagogia e a misericórdia de Jesus está além das duras palavras, mas na exaltação da fé consciente daquela mulher.

Há que se notar a manifestação de fé da mulher logo no início do episódio. Jesus encontra-se então em ambiente predominantemente gentio, na região de Tiro e Sidônia. A mulher é identificada como de origem cananeia [Marcos a identifica como siro-fenícia], um povo historicamente adversário de Israel e, ainda que pagã, ela reconhece de pronto a dimensão de Jesus, clamando por ele com um título messiânico inquestionável: 'Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim!' [22], fato que não era reconhecido pela maioria dos israelitas de então. Ela configura, portanto, a primeira aproximação formal dos gentios face à missão salvífica do Redentor, amparada e movida por uma súplica ardente: 'tem piedade de mim!'. Importante destacar que ela manifesta a súplica inicial em seu próprio favor, reconhecendo-se como pobre pecadora, e não à filha doente; pois a caridade torna a dor por quem se reza parte de nós mesmos.

O silêncio inicial de Jesus [23] é deliberado, num gesto de extrair daquela fé manifesta um ato muito maior de louvor e exaltação diante a sua grande humildade. O silêncio de Deus não equivale à ausência de Deus. Sinal inequívoco de que as nossas orações passam necessariamente pela experiência do silêncio de Deus, sem que esse silêncio expresse uma recusa formal, mas como um teste e provação da autenticidade da fé e confiança em Deus daquilo que pedimos.

Arguído pelos apóstolos, ainda avessos à compaixão [23], Jesus manifesta então uma premissa de sua missão salvífica, que tinha por prioridade a salvação dos judeus [24], previamente à universalização de sua missão. A provação aumenta de grau: o silêncio agora torna-se uma razão de aparente recusa. Jesus está ali, além do ambiente judaico tradicional, diante de um ato de fé extremada de uma mulher não judia, mas pagã, e quase que como instado a fazer uma antecipação da abertura de sua missão divina aos gentios, que somente mais tarde será proclamada a todos os homens: 'Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações' (Mt 28,19).

Mas a fé que remove montanhas não desiste. Insiste. Diante o senão proposto, a súplica persiste: 'Valei-me!' [25]. E então, vem a prova mais dura. Jesus, uma vez mais, diante dos apóstolos, vai testá-la nos limites de sua fé extremada (que Jesus conhece antecipadamente) com palavras particularmente duras [26]. Jesus sabe com quem está lidando e somente uma manifestação excepcional de fé como o daquela mulher pode fazê-lo explorar ao limite a magnitude das potenciais virtudes humanas.

A resposta da mulher exprime a audácia da sua fé extraordinária e a dimensão espiritual de sua crença: 'mas os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos' [27]. Ela não contradiz Jesus, pelo contrário; mas justifica que, diante da superabundância das graças divinas, migalhas bastam para operar milagres e curar a sua filha. Neste contexto da graça, Jesus não apenas reconhece a grandeza da fé desta mulher cananeia, como a exalta diante de todos, numa intervenção raríssima e extraordinária [28], ainda mais que até mesmo os apóstolos foram objeto de censura do Salvador em muitas ocasiões como 'homens de pouca fé'. Aquela que começou sem aparentemente possuir direito algum termina ouvindo do próprio Cristo: 'Seja-te feito como queres!'.

Nesta passagem bíblica, a mulher cananeia não muda a vontade de Cristo pela insistência; Cristo conduz a mulher, por meio da insistência, à perfeição daquela fé mediante a qual Ele queria conceder-lhe a graça. Deus, às vezes, parece resistir justamente às almas que deseja aproximar mais de si. Cornélio a Lápide trata este episódio praticamente como um pequeno tratado sobre a oração perfeita, que incorpora dez diferentes disposições: humildade, fé, modéstia, prudência, reverência, resignação, confiança, ardor, caridade e perseverança.

Pão, mesa, migalhas. Uma migalha basta para a superabundância da graça. Aplicada espiritualmente à Eucaristia, essa imagem torna-se particularmente expressiva porque Cristo não está parcialmente presente numa pequena porção da Hóstia consagrada, mas por inteiro. Em outra passagem dos evangelhos, Jesus manifesta igualmente um extraordinário elogio de fé a outro gentio, o centurião romano: 'Em ninguém em Israel encontrei tamanha fé' (Mt 8,10). Aqueles para quem bastavam as migalhas, serão no futuro os convivas da mesa posta, das benesses e misericórdias de Deus: 'Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus' (Ef 2,19).

domingo, 6 de setembro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                      

'Não fecheis o coração; ouvi hoje a voz de Deus!' (Sl 94)

Primeira Leitura (Ez 33,7-9) - Segunda Leitura (Rm 13,8-10) - Evangelho (Mt 18,15-20)
 
  06/09/2026 - VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 A VIRTUDE DA CORREÇÃO FRATERNA


O Evangelho deste domingo é um tributo sobre o dever da correção fraterna. Reconhecer o erro e assumir o ônus da responsabilidade pelo erro cometido, são os atributos básicos do perdão. Mas o erro reverbera além daquele que o pratica e é dever - dever cristão - a sua pronta caracterização, a sua expressa condenação, o seu combate efetivo, a sua oportuna ou inoportuna contenção. A correção do erro é uma virtude cristã por excelência, quando praticada e vivida sob os ditames do reto juízo, da prudência caritativa, do verdadeiro amor fraterno: 'Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo!' (Mt 18,15).

Jesus nos adverte sobre a insensatez da omissão, do menosprezo, da condenação exaltada e pública do pecador que nos ofendeu: 'a sós contigo!' é uma proposição enfática e contundente pela correção fraterna, emanada pelo zelo apostólico e pela prudência cristã. Corrigir o erro para não se omitir em defesa da verdade; corrigir o erro sem destruir as pontes e as passagens que possam fazer o pecador retomar o caminho da verdade: 'Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão' (Mt 18,15). Benditos aqueles que levarem consigo para Deus os que puderam fazer o caminho de volta!

A correção fraterna é oportuna e inoportuna, porque a salvação de uma alma tem valor infinitamente maior que todos os nossos queixumes ou sentimentos desprezados. Não basta a correção, é preciso insistir nela mais uma vez, e outra vez, e outra ainda. A insistência moldada pelo zelo extremado na salvação da alma do próximo é o cimento que agrega as pedras frouxas de nossa própria caminhada para Deus.

Esse ardor de correção perpassa por terceiros e se encerra na própria vida da Igreja, Corpo Místico de Cristo, pois a perseverança da graça atrai graças em profusão e frutos extremos de conversão, piedade e misericórdia: 'se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois, onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles' (Mt 18,19 - 20). Porém, a obstinação determinada no erro tem natureza diabólica e, portanto, não é mais passível da graça. Aqueles que optam pelo desvario do mal e se afastam dos ensinamentos da Igreja, tornam-se, então, réus de delitos eternos: 'tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu' (Mt 18,18).