sábado, 22 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (II)


📌 Heresia e Cisma (De haeresi et schismate)

1. 'Heresia' (haeresis) recebe esse nome, em grego, a partir de 'escolha' (electio; cf. αἱρεῖν, 'escolher'), sem dúvida porque cada pessoa escolhe (eligere) para si aquilo que lhe parece melhor, como fizeram os filósofos peripatéticos, acadêmicos, epicuristas e estoicos - ou como outros que, seguindo doutrinas perversas, afastaram-se voluntariamente da Igreja.

2. Por conseguinte, 'heresia', palavra de origem grega, recebe seu significado de 'escolha', pela qual cada pessoa, segundo o próprio juízo, escolhe para si aquilo que lhe apraz estabelecer e adotar. A nós, porém, não é permitido introduzir coisa alguma com base em nosso próprio juízo, nem escolher aquilo que outra pessoa tenha introduzido segundo o seu julgamento particular.

3. Temos como autoridades os apóstolos de Deus, que não escolheram por si mesmos coisa alguma para introduzir segundo o próprio juízo, mas transmitiram fielmente ao mundo a doutrina recebida de Cristo. E, ainda que um anjo vindo do céu pregue de outro modo, será declarado anátema.

4. 'Seita' (secta) recebe esse nome de 'seguir' (sequi, particípio secutus) e de 'manter' (tenere), pois empregamos o termo 'seitas' para designar disposições de espírito e instituições ligadas a determinado preceito ou princípio, que as pessoas mantêm e seguem quando, na prática religiosa, professam crenças muito diferentes daquelas professadas pelas demais.

5. 'Cisma' (schisma) recebe esse nome da divisão (scissura) das opiniões, pois os cismáticos conservam o mesmo culto e o mesmo rito que os demais; comprazem-se apenas na dissensão (discidium) dentro da comunidade. O cisma ocorre quando algumas pessoas dizem: 'Nós somos os justos', 'Somos nós que santificamos os impuros' e outras coisas semelhantes.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

AS VINHAS DE DEUS (IX)

 

57. 'Um rebento sairá da raiz de Jessé' - diz o profeta Isaías; isto é, a Santíssima Virgem; e da Virgem nascerá uma flor, Nosso Senhor Jesus Cristo. Sobre essa flor repousará o Espírito Santo, comunicando-lhe 'o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade, e Ele será cheio do temor do Senhor' (Is 11,2). Assim, a sagrada humanidade de nosso Salvador é como uma flor divina sobre a qual repousou o Espírito Santo, para comunicar-lhe os seus sete dons. Isso nos é apropriadamente representado pelo candelabro de ouro com sete braços, que ficava diante do Tabernáculo do Antigo Testamento e que poderia ser chamado de flor, porque os seus braços estavam dispostos em forma de lírios.

58. Se os frutos mais delicados e mais facilmente perecíveis, como as cerejas, os damascos e os morangos, podem ser conservados durante um ano inteiro quando preparados em açúcar ou mel, não é de admirar que nossos corações, embora fracos e insensatos, sejam preservados da corrupção do pecado quando conservados pelo Corpo e Sangue incorruptíveis do Filho de Deus, que é 'mais doce que o mel e o favo de mel'.

59. O matrimônio é um estado que exige mais virtude e constância do que qualquer outro. É um exercício contínuo de mortificação e talvez o seja para vós ainda mais do que habitualmente. Deveis, portanto, preparar-vos para ele com grande cuidado, a fim de que dessa planta de tomilho, apesar de seu amargor natural, possais extrair o mel de uma vida santa. Que o doce Jesus seja sempre o açúcar e o mel que tornarão suave a vossa vocação! Que Ele viva e reine para sempre em nossos corações!

60. Assim como o sumo da videira, se permanecer por demasiado tempo na uva, corrompe-se e se estraga, também a alma humana, se permanecer entregue aos prazeres e à voluptuosidade, aos desejos e anseios, acaba por se corromper; mas, quando esmagada pela tribulação, produz uma doce bebida de penitência e amor.

61. A Divina Providência faz tudo bem e dispõe todas as coisas da melhor maneira. Que felicidade para essa jovem ter sido retirada do mundo antes que a malícia pervertesse o seu entendimento e ter deixado esse lodaçal antes de ser por ele manchada! [sobre a morte de uma jovem religiosa]. Os morangos e as cerejas são colhidos antes das peras e das laranjas, porque a sua estação assim o exige. Deixemos Deus colher aquilo que plantou em seu pomar: Ele colhe cada coisa no seu devido tempo.

62. Sei que vossos sofrimentos aumentaram ultimamente e, por isso, compadeci-me ainda mais de vós. Contudo, juntamente convosco, louvo e bendigo Nosso Senhor pelo seu beneplácito, que Ele realiza em vós, fazendo-vos participar de sua santa cruz e coroando-vos com sua coroa de espinhos... É um bom sinal para essa alma o fato de ter sofrido muitas aflições, pois, tendo sido coroada de espinhos, devemos crer que será coroada de rosas.

63. Plantai Jesus Cristo crucificado em vosso coração, e todas as cruzes deste mundo vos parecerão rosas... Sabeis o que fazem os pastores da Arábia quando percebem que se aproxima uma tempestade? Abrigam-se sob os loureiros, juntamente com seus rebanhos. Quando percebermos que as perseguições e as contradições nos ameaçam, devemos refugiar nossos afetos à sombra da Santa Cruz, com verdadeira confiança de que 'todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus' (Rm 8,28).

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE BORDEAUX

 

Ao contrário de outros milagres eucarísticos, o  Milagre Eucarístico de Bordeaux (França) em 1822 não consiste em um evento extraordinário envolvendo uma transformação física e permanente das espécies eucarísticas em carne ou sangue, mas uma manifestação ou aparição eucarística: Cristo teria se tornado sensivelmente visível no lugar normalmente ocupado pela Hóstia.

Na tarde de domingo de 3 de fevereiro de 1822, ocorria a cerimônia de bênção do Santíssimo Sacramento em uma pequena capela situada na rua Mazarin, em Bordeaux, presidida pelo Padre Pierre-Justin Delort, substituindo naquela ocasião o celebrante habitual - padre Pierre-Bienvenu Noailles - fundador da nascente comunidade da Sagrada Família de Bordeaux.

No momento em que o Santíssimo foi exposto no ostensório e o sacerdote iniciou a incensação, a Hóstia deixou de ser percebida normalmente, manifestando em forma visível a figura de um homem, descrita pelo Padre Delort e testemunhas (coroinha, religiosas e leigos presentes) como sendo de um homem de aproximadamente trinta anos e extraordinária beleza, apresentando as seguintes características e feições: rosto intensamente luminoso, cabelos claros caindo até os ombros, uma faixa ou manto vermelho disposta sobre o ombro e o peito, a mão esquerda pousada sobre o coração e a mão direita estendida sobre os presentes em gesto de bênção. 


Esta figura de Jesus Cristo não correspondia a uma imagem pintada ou imóvel mas, pelo contrário, mostrava-se viva, inclinando-se algumas vezes para a direita e para a frente. O fenômeno teria permanecido visível por cerca de vinte minutos. Outros presentes não perceberam a imagem exposta na Hóstia, mas viram uma luz extraordinária emanando dela ou experimentaram uma intensa sensação da presença divina. O acontecimento ocorreu somente vinte meses depois da fundação da comunidade da Sagrada Família de Bordeaux, de modo que o padre Noailles interpretou a aparição como uma confirmação de que a obra nascente era agradável a Deus.

padre Pierre-Bienvenu Noailles

Depoimentos escritos das testemunhas foram encaminhados ao então arcebispo de Bordeaux, Dom Charles-François d’Aviau du Bois de Sanzay. De acordo com a tradição documental da Sagrada Família, o arcebispo determinou uma investigação e considerou o acontecimento digno de crédito, autorizando a celebração anual em sua memória no dia 3 de fevereiro. O ostensório associado ao acontecimento foi conservado pela Sagrada Família e tradicionalmente venerado na comunidade contemplativa de La Solitude, em Martillac, perto de Bordeaux.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

ORAÇÃO: SENHOR, FAZEI DESCER O VOSSO ESPÍRITO...


Senhor, fazei descer o Vosso Espírito bom e suave aos nossos corações
e preparai neles uma morada para Vós.
Purificai-os de toda mancha da carne e do espírito;
aumentai neles a fé, a esperança e a caridade
e disponde-os à penitência, ao amor e à mansidão.
Extingui, com o orvalho da vossa bênção, o ardor dos nossos desejos
e, com o vosso poder, mortificai os nossos impulsos carnais
e as concupiscências da carne.
Nos trabalhos, nas vigílias e nos jejuns,
concedei-nos fervor e discernimento
para vos amar e louvar,
para vos dirigir as nossas orações e pensar em Vós.
Concedei-nos também força e devoção para ordenarmos cada ação e pensamento
segundo a vossa vontade
e para perseverarmos nessas virtudes até o fim da nossa vida. Amém.

(Santo Elredo de Rievaulx, Oratio pastoralis)

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (I)


📌 Mártires (De martyribus)

1. Na língua grega, os 'mártires' (martyr) são chamados, em latim, 'testemunhas' (testis); daí também os 'testemunhos' serem chamados, em grego, martyria. E são chamados testemunhas porque, em razão do testemunho (testimonium) que deram de Cristo, padeceram seus sofrimentos e combateram pela verdade até a morte.

2. Embora pudéssemos chamá-los 'testes', empregando o termo latino, nós os chamamos 'mártires', segundo o grego, porque essa palavra grega tornou-se bastante familiar aos ouvidos da Igreja, assim como muitos outros termos gregos que empregamos em lugar dos latinos.

3. O primeiro mártir do Novo Testamento foi Estêvão, cujo nome, na língua hebraica, é interpretado como 'estandarte', pois, em seu martírio, ele foi o primeiro modelo proposto à imitação dos fiéis. O mesmo nome, traduzido da língua grega para o latim, significa 'o coroado'; e isso de modo profético, porque, por certa previsão do futuro, seu nome anunciava antecipadamente aquilo que haveria de acontecer: ele sofreu e recebeu aquilo que seu nome significava. Assim, 'Estêvão' quer dizer 'coroado': na humildade, foi apedrejado; na glória, porém, foi coroado.

4. Há, além disso, duas espécies de martírio: uma consiste no sofrimento manifesto; a outra, na fortaleza oculta da alma. Com efeito, muitas pessoas, suportando as ciladas do inimigo e resistindo a todos os desejos carnais, tornaram-se mártires mesmo em tempos de paz, porque se ofereceram, em seus corações, como sacrifício a Deus Todo-Poderoso. São precisamente aquelas que, se sobreviesse um período de perseguição, também poderiam ter sido mártires.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

O DESEJO DE AGRADAR A DEUS

Dê rédeas soltas ao seu desejo por Deus; o amor é mais desejável do que a vida neste mundo. Deixe-se ser barro em suas mãos, confiando em sua vontade para você, seja na adversidade ou na glória. Todo desejo deve ser aperfeiçoado ao ser consumido pelo fogo do amor de Deus, e o desejo de agradar a Deus deve estar acima de todos os outros.

Quando morreremos para todas as coisas, para que possamos viver somente para Deus? Ah, sim, quando chegará esse momento? Ó morte preciosa! Mais desejável que a vida; morte que, pelo amor, nos transforma em Deus! São João Crisóstomo disse: Silentium, quod lutem prabet figulo, idem ipse prabe conditori tuo. Oh, que frase! Ele disse: 'Assim como o barro permanece silencioso nas mãos do oleiro, assim também você deve permanecer em silêncio nas mãos do seu Criador'. O barro permanece silencioso, quer o oleiro o molde em um vaso de honra ou de ignomínia; quer o quebre ou o jogue fora; ele se contenta em ser descartado ou colocado em uma galeria de arte. Grave este ensinamento em sua memória.

Até mesmo os desejos mais sagrados, sejam eles referentes à salvação das almas ou às grandes necessidades da Igreja, devem ser consumidos no fogo do amor de Deus, do qual brotam, e aguardam o tempo divino para sua realização. Enquanto isso, cultive um desejo, o mais perfeito de todos: agradar a Deus cada vez mais e alimentar-se da sua Santa Vontade.

(São Paulo da Cruz)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVI)

  

PARTE III - O INFERNO

VIII. Sobre a eternidade

Nas páginas precedentes, apresentou-se ao leitor uma breve descrição dos tormentos do Inferno; agora, é a eternidade que deve ocupar a nossa atenção - assunto sobre o qual não é fácil escrever nem falar. Os tormentos do Inferno são todos tão horríveis e aterradores que bastam para fazer tremer até o homem mais corajoso. Mas o pensamento da eternidade é tão terrível que uma séria consideração a seu respeito é quase suficiente para fazer uma pessoa perder o juízo. Pois, neste mundo, por mais atribulado que um homem possa estar, ele possui uma fonte segura de consolação: sabe que, mais cedo ou mais tarde, a sua miséria terminará.

É próprio da natureza humana cansar-se de tudo depois de algum tempo, até mesmo das coisas que lhe são agradáveis e correspondem aos seus gostos. Se um homem fosse obrigado a permanecer o dia inteiro sentado à mesa, acabaria por sentir repugnância pelos alimentos colocados diante dele. Se alguém fosse forçado a dormir, dia e noite, durante uma semana inteira, no leito mais macio e confortável, como lhe pareceria longo aquele tempo! Se o mais ardoroso amante da dança fosse obrigado a continuar, dia e noite e sem descanso, essa sua diversão favorita, acabaria por adquirir por ela uma profunda aversão.

E, se assim acontece com as coisas conformes à nossa natureza e às nossas inclinações, o que sucederia com aquelas que nos são desagradáveis e repugnantes? Se uma pequena pedra entrasse no sapato de alguém e, como penitência, ele tivesse de conservá-la ali durante uma semana inteira, isso lhe pareceria quase intolerável. E, se uma leve dor ou incômodo se torna, após algum tempo, terrivelmente penoso, como se poderia suportar continuamente uma doença grave ou um verdadeiro sofrimento, sem murmuração nem impaciência?

Se fosse possível que um infeliz pecador fosse condenado a permanecer deitado numa fornalha, amarrado de pés e mãos, durante um ano inteiro, não o privaria a dor do uso da razão? Ninguém poderia ter o coração tão endurecido que não sentisse a mais profunda compaixão por uma pessoa assim atormentada. Contemplai agora o abismo do Inferno, e ali vereis milhares e milhares dessas infelizes criaturas no lago de fogo e de tormentos. Muitas delas já passaram vinte, cem, mil e até cinco mil anos nesse terrível estado de sofrimento.

Mas o que as espera? Não outros cinco mil anos, nem cem mil, nem mil vezes mil anos dessa terrível agonia: elas deverão suportá-la pelos séculos dos séculos. Diante delas está a eternidade, sem conforto nem consolação, sem graça nem misericórdia, sem mérito nem recompensa, sem a mais tênue esperança de libertação. É isso que torna tão incomensurável o tormento dos condenados; é isso que os leva ao furor e ao desespero.

Que imaginais ser realmente a eternidade? Qual será a sua duração? A eternidade é algo que não tem princípio nem fim. É um tempo sempre presente, que jamais passa. Assim, os tormentos dos condenados nunca terminarão, nunca passarão. Quando tiverem transcorrido mil anos, outros mil começarão, e assim por toda a eternidade. Nenhum dos condenados pode calcular há quanto tempo está no Inferno, porque ali não existe sucessão de dias e noites, nem divisão do tempo, mas uma noite contínua e eterna, desde o primeiro instante de sua entrada no Inferno e para sempre.

E, se quiserdes formar uma pálida ideia da eternidade, imaginai que todo o globo terrestre fosse composto de grãos de painço e que, a cada ano, viesse um pássaro e retirasse um desses pequeninos grãos. Que número infinito de anos teria de transcorrer antes que toda a Terra fosse consumida dessa maneira! Mais ainda: quantos milhares de anos não teriam de passar antes que uma única pequena colina fosse consumida! É impossível fazer qualquer estimativa desse número.

Talvez penseis que seria necessária toda a eternidade para destruir a Terra mediante um processo tão lento. Mas acreditai-me: ela poderia ser destruída muitas vezes antes que a eternidade chegasse ao fim. Pois a Terra, por fim, desapareceria, ainda que apenas um único grão fosse retirado de toda ela a cada século; mas a eternidade não pode terminar, porque nada se pode retirar dela. Quão terrível é esse pensamento! É verdadeiramente aterrador quando alguém procura compreendê-lo.

Os condenados se alegrariam e dariam graças a Deus se pudessem esperar que, depois de milhões e milhões de anos de tormentos, seriam finalmente libertados de sua miséria. Mas não há esperança alguma de que sejam finalmente libertados das penas do Inferno. Ninguém que reflita seriamente sobre isso pode deixar de se sentir tomado de assombro e horror. Ó Deus, quão terrível sois! Quão grande é a vossa severidade! Como podeis Vós, Pai das misericórdias, contemplar essas infelizes criaturas condenadas a tais suplícios pelos séculos dos séculos? Como podeis ouvir, sem vos comover, os seus gritos de desespero?

Tudo isso nos ensina quão grave deve ser todo pecado mortal, uma vez que Vós, Deus infinitamente misericordioso, podeis condenar o pecador à perdição eterna por um único pecado mortal. Ó cristão, suplico-vos, em nome de tudo o que é santo: não pequeis com tanta facilidade; não considereis o pecado mortal como coisa de pouca importância. Vede quão terrível é o castigo infligido aos infelizes pecadores. Talvez vos pareça quase inacreditável que Deus, cuja misericórdia é infinita, possa impor a uma de suas frágeis criaturas um castigo sem fim por um único pecado mortal.

Entretanto, assim é; e é igualmente verdade que um homem que tenha levado uma vida piedosa, se antes de morrer tiver a indizível desventura de cometer um pecado mortal e morrer sem arrependimento, será entregue à perdição eterna. O salmista não pôde deixar de manifestar a sua admiração diante disso; com efeito, parece considerá-lo quase impossível. Ouvi as suas palavras: 'Pensei nos dias antigos e tive presentes os anos eternos. E meditei de noite em meu coração; exercitei-me e perscrutei o meu espírito. Acaso Deus nos rejeitará para sempre? Ou nunca mais nos será favorável? Ou retirará para sempre a sua misericórdia, de geração em geração? Acaso Deus se esquecerá de usar de misericórdia? Ou, em sua ira, encerrará as suas misericórdias?' (Sl 76,6-10). Em outro salmo, ele responde a essas perguntas: 'O homem não poderá dar a Deus o seu resgate, nem o preço da redenção de sua alma; padecerá eternamente e ainda viverá até o fim; isto é, será atormentado para sempre e, contudo, continuará a viver (Sl 48,9-10).

A razão pela qual Deus, infinitamente misericordioso, pune o pecado mortal com um castigo eterno e nunca mais o perdoa é que o pecador, depois de condenado, não despertará em seu coração a contrição e o arrependimento, nem pedirá perdão a Deus. Pois, se alguém morre em pecado mortal, fica de tal maneira endurecido nele que jamais o abandonará por toda a eternidade. E, porque Deus o entregou à perdição, ele concebe contra Deus um ódio tão intenso que procuraria ofendê-lo de todas as maneiras que pudesse.

Em vez de se humilhar diante de Deus e implorar o seu perdão, preferiria suportar tormentos ainda maiores no Inferno. Portanto, porque o pecador não quer arrepender-se de seus pecados nem pedir perdão por eles, permanece eternamente em estado de pecado; e, como o seu pecado jamais é expiado nem objeto de arrependimento, também o castigo é eterno. Pois Deus não cessa de punir enquanto o pecador não se arrepende, não deplora o seu pecado e não pede perdão. Vê-se, portanto, que Deus não comete injustiça alguma contra o réprobo quando o submete a um castigo eterno, pois a justiça divina exige que, se o pecado permanece eternamente, também a pena correspondente a esse pecado seja eterna. 

Talvez se possa imaginar que os condenados se acostumem aos seus tormentos e que, por fim, se tornem insensíveis e quase indiferentes a eles. Isso está muito longe da verdade. Os condenados sentem os seus tormentos em toda a sua intensidade e sempre no mesmo grau. Cada um dos infelizes habitantes do Inferno sente agora os seus sofrimentos com a mesma intensidade com que os sentiu na primeira hora de sua condenação; e continuará a senti-los com igual violência depois de transcorridos milhares e milhares de anos.

Ora, porque os condenados sabem perfeitamente que jamais serão libertados do Inferno, mas deverão permanecer ali para sempre; porque sabem que os terríveis tormentos que suportam nunca terão fim; porque sabem que nenhuma criatura jamais se compadecerá deles, mas que todas reconhecerão a justiça de sua condenação - por tudo isso, começam a desesperar-se e a amaldiçoar a si mesmos e tudo quanto a mão de Deus criou.

O seu desespero apenas aumenta os seus sofrimentos. Podemos comprovar isso pelo exemplo de nossos semelhantes na Terra quando se entregam ao desespero. É impossível fazer alguma coisa por um homem desesperado: ninguém pode ajudá-lo ou consolá-lo; ninguém pode confortá-lo nem fazê-lo recobrar a razão. Ele se parece com um espectro; delira e se enfurece como o próprio demônio; declara que porá fim à própria vida, que se afogará ou se enforcará; destrói tudo o que encontra pelo caminho; amaldiçoa todos os homens e todas as coisas. É isso que os condenados fazem em seu desespero e, desse modo, atormentam a si mesmos ainda mais do que os demônios podem atormentá-los. Gritam e uivam, amaldiçoam e blasfemam, agitam-se e enfurecem-se; numa palavra, comportam-se como se fossem demônios encarnados.

Em sua fúria e malignidade, atacam-se uns aos outros com a mais feroz animosidade; mais ainda: em seu desesperado frenesi, procuram por todos os meios possíveis estrangular a si mesmos. Contudo, os seus esforços são inúteis. Tudo o que conseguem é aumentar os próprios tormentos e infligir a si mesmos novas dores. Quem dera que todo pecador obstinado gravasse isso profundamente em seu coração e tomasse cuidado para não se tornar, algum dia, presa desse desespero eterno!

'É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo' - diz São Paulo (Hb 10,31). Se agora temermos o Inferno, não teremos motivo para temê-lo nem padecê-lo na outra vida. Todos possuem razões suficientes para temê-lo. Os justos e os santos devem temer o Inferno, porque ainda podem cair nele. Enquanto permanecerem na Terra, estarão cercados não apenas por perigos exteriores, mas também por perigos interiores. Fora deles está o mundo, com os seus atrativos, escândalos, tentações e respeitos humanos.

Dentro deles habitam paixões violentas e uma vontade fraca. Um único pecado mortal é suficiente para causar a sua condenação ao abismo infernal. Quantos estão agora no Inferno que, durante algum tempo, se distinguiram por sua piedade e virtude, mas que gradualmente se tornaram negligentes no serviço de Deus e, por fim, caíram em pecado mortal e morreram sem se terem reconciliado com Deus! Até mesmo a grande Santa Teresa esteve em perigo de condenação, pois Deus lhe mostrou o lugar que lhe estava reservado no Inferno caso ela não abandonasse determinadas faltas.

Os maiores santos estremeceram e tremeram ao pensar no perigo em que se encontravam de cometer um pecado mortal e, por causa dele, serem condenados aos tormentos intermináveis do Inferno. São Pedro de Alcântara, que praticou tão grandes penitências, temia, mesmo em seus últimos momentos, o perigo de cair no Inferno. Santo Agostinho e São Bernardo enchiam-se de terror ao simples pensamento do Inferno e do perigo em que se encontravam de merecê-lo.

O católico negligente e tíbio deve, acima de todos, temer o Inferno, pois caminha continuamente à beira do abismo infernal. Ele dá pouca importância ao preceito de assistir à Santa Missa e à abstinência de carne prescrita pela Igreja; não tem escrúpulos em negligenciar a formação religiosa de seus filhos; convive com pessoas e frequenta lugares que constituem para ele ocasião de pecado; entrega-se a pensamentos impuros e comete pecados de impureza sem remorso; cede aos sentimentos de vingança contra o próximo; apropria-se dos bens alheios; excede-se na comida e na bebida; negligencia a oração e os sacramentos.

Agora é o momento de ele despertar de sua vida de pecado; agora é o momento de abandonar o pecado e mudar de vida, pois, se adiar essa mudança, em breve poderá ser tarde demais. Esta pode realmente ser a última advertência que Deus lhe concede. Se os condenados pudessem retornar à vida, a que penitências e austeridades não se submeteriam com ardor e alegria! O profeta Isaías pergunta: 'Qual de vós poderá habitar com o fogo devorador?' (Is 33,14).

Podeis suportar os terríveis tormentos do Inferno por toda a eternidade, vós que sois tão apegados ao conforto e tão sensíveis à menor dor? Qual de vós mereceu habitar no Inferno? Cada um de nós, imediatamente depois de cometer o primeiro pecado mortal, já merecia ser condenado àquele abismo de miséria e sofrimento! É graças à misericórdia divina que não fomos assim condenados. 'Se o Senhor não tivesse vindo em meu auxílio, por pouco minha alma teria habitado no Inferno' (Sl 93,17). Temos a certeza de haver merecido o Inferno, mas não temos igual certeza de haver sido perdoados. 'O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio' (Eclo 9,1). Que terrível incerteza! Quanto ela deveria fazer-nos tremer!

Isaías pergunta novamente: 'Qual de vós habitará entre as chamas eternas?'  (Is 33,14). A resposta é: todos os pecadores que não abandonam o pecado, que não lamentam nem confessam os seus pecados e não corrigem a própria vida habitarão entre as chamas eternas! Façamos, caro leitor, todos os esforços; empreguemos todas as nossas forças; suportemos todos os sofrimentos e façamos todos os sacrifícios nesta vida, a fim de escaparmos ao horrível destino daqueles que, por sua própria culpa, caem vítimas da justiça divina! Nenhuma dor é grande demais, nenhum sacrifício é caro demais, quando se trata de evitar os tormentos eternos. Digamos, portanto, com Santo Agostinho: 'Senhor, queimai-nos aqui; cortai-nos e feri-nos nesta vida, contanto que nos poupeis na eternidade!'

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)