quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXIX)


'A perfeição do amor no Céu não está exatamente na nossa felicidade em amar a Deus, mas no prazer que damos a Deus ao amá-lo'

(Santo Afonso de Ligório)

Ama a Deus com toda a força do seu coração. Não há ideal maior do homem inserido nos planos de Deus do que catalisar todo o seu incompleto e tíbio amor humano na convicção sincera de retribuir a dádiva infinita do próprio Amor. Deus quer tão somente o teu firme propósito neste mundo em ser instrumento e reflexo do Amor infinito que te espera no Céu.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIII)

    

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VIII. Sobre como a aparição de Cristo será terrível no Dia do Juízo Final e a hediondez do pecado mortal

O leitor pode, por acaso, estar inclinado a perguntar a razão pela qual Cristo, o mesmo Cristo que viveu entre nós na Terra com toda a gentileza e mansidão, deveria ter uma aparência tão terrível quando vier para ser nosso Juiz? Há muitas razões pelas quais Cristo, nessa qualidade, julgará a humanidade com tanta severidade. A principal delas é porque Ele foi gravemente ofendido pelos pecados dos homens.

Os teólogos afirmam que todo pecado mortal é, em si mesmo, um mal infinito e uma afronta infinita à majestade divina. É uma ofensa de tal magnitude que nem a língua dos anjos nem a dos homens são capazes de descrevê-la. Entende-se, portanto, que, como em todo pecado mortal há uma malícia tão profunda, ele deve ferir profundamente o Coração Divino de Jesus e provocar nele uma justa ira contra o indivíduo que cometeu tal pecado. E para que fique mais evidente quão justa é a ira de Deus, quando despertada pelo pecado mortal, convém explicar mais claramente quão grande é o insulto oferecido a Deus pelo pecado voluntário. 

Imagine as três Pessoas Divinas da Santíssima Trindade de um lado, com seus tesouros infinitos de graça e glória e, do outro lado, o espírito do mal com todos os castigos e tormentos do Inferno; e um homem parado no meio, entre os dois, debatendo consigo mesmo se deve honrar a Deus fazendo a sua vontade ou se deve agir em violação à sua vontade, causando assim a alegria do demônio. Se o homem comete o pecado, ele age contra Deus, e Deus considera sua ação exatamente como se ele tivesse proferido estas palavras blasfemas, ou outras da mesma natureza:

'Eu realmente acredito, ó Deus, que fui criado pelo vosso poder todo-poderoso, redimido pela vossa misericórdia, feito filho predileto pela vossa generosidade, sei que Vós me prometestes a vida eterna, toda a doce bem-aventurança do Céu. Também estou bem ciente de que este Satanás amaldiçoado, vosso grande inimigo e meu, está preparado para me privar de tudo o que é bom e me lançar na perdição eterna. E, no entanto, porque Satanás me tenta agora, porque me sugere um pensamento de impureza, um desejo de vingança, um movimento de inveja, prefiro ceder a esse impulso e, assim, tornar-me merecedor de castigo eterno, do que resistir e repelir a sugestão maligna e, assim, merecer o Céu no futuro e as graças espirituais agora. Portanto, deliberadamente e por minha própria vontade, afasto-me de Vós, ó Deus; sigo por escolha própria este demônio odioso, a quem obedeço em vez de Vós. Embora sejais meu Deus e meu Senhor, embora tenhais nos proibido de transgredir a vossa lei, embora o pecado seja uma ofensa infinita contra Vós, não me importo, cometeria este pecado de qualquer maneira, não desistiria dele mesmo sendo uma grande afronta a Vós. Mais ainda, se eu pudesse fazer tudo o que a malícia do meu coração me permite, eu roubaria de Vós a vossa divindade, eu vos destituiria do vosso trono e, em vosso lugar, eu colocaria o pecado e o passaria a adorar como meu deus. Eu amo o pecado, desejo deleitar-me nele e encontrar nele a minha única felicidade'.

Blasfêmias como as expressas nessas palavras são terríveis e não podem ser lidas sem um arrepio na alma. No entanto, todo homem que, deliberadamente e desafiando a lei de Deus, comete um pecado mortal é culpado de blasfemar contra Deus da mesma maneira. Não é de se admirar, então, que Deus se sinta tão profundamente ofendido pelo pecado mortal. Mas ainda não mostramos toda a extensão da malícia do pecado, que vai ainda mais longe; ele é duplamente ofensivo a Deus porque o pecador não apenas manifesta desprezo por Deus Pai, mas também despreza o seu amado Filho, a Segunda Pessoa da Trindade Divina. 

Com cada pecado deliberado, o pecador parece dizer: 'É verdade que Vós tornastes homem por mim, que me procurastes por trinta e três anos, como uma ovelha perdida; que suportastes fome e sede, calor e frio, e todo tipo de dificuldades por minha causa, enquanto Satanás não fez nada disso por mim; pelo contrário, ele me persegue dia e noite e se esforça para me enganar. Apesar des er assim, prefiro pertencer a ele do que a Vós. Prefiro agradá-lo e vos entristecer. É verdade, ó meu Redentor, que por minha causa fostes açoitado, coroado de espinhos, pregado na cruz e morto em meio a torturas amargas; mas, apesar de tudo isso, não vos dou graças. Mais ainda, embora saiba que com os meus pecados eu vos açoito, vos crucifico, vos mato novamente, não abandonarei os meus pecados; pisarei em vosso precioso sangue e adorarei Satanás em vez de Vós; farei dele meu amigo mais querido e farei o possível para lhe satisfazer'.

Mais uma vez pergunto: essas declarações não são blasfemas ao extremo? Não mostram a mais negra ingratidão da parte do pecador para com o seu Salvador? É difícil imaginar que um cristão entristeça seu Redentor de maneira tão vergonhosa. E, no entanto, há muitos milhares que, se não em palavras, pelo menos em ações, dirigem tais palavras ao seu Salvador.

Em terceiro lugar, o pecador audacioso ultrapassa e desafia o Espírito Santo de Deus, pois suas ações equivalem a expressões como estas: 'Vós, ó Espírito Santo, certamente santificastes a minha alma e a purificastes no sangue de Cristo, embelezando-a com a vossa graça. Sei que a vossa graça santificadora é tão preciosa que toda alma que é adornada por ela passa a se tornar filha do Pai celestial, irmã do Filho Divino, esposa do Espírito Santo, morada da Santíssima Trindade, templo da soberana Divindade, herdeira da felicidade eterna, amiga dos Anjos e Santos, mas - por que me preocuparia com essas prerrogativas sublimes, por que me importaria com essa pérola inestimável e essa joia valiosa? Fora com elas; jogarei essa pérola, essa joia valiosa, aos cães e aos porcos, ou seja, às minhas más paixões. Sacrificarei tudo por elas, servirei ao pecado e viverei no pecado'.

Não vês agora, ó leitor, como o pecado é odioso, como a natureza do pecador é chocante, como é infinita a ofensa contra Deus, o desprezo por Deus que é algo inseparável do pecado? Não estás convencido de que Deus tem motivos justos para sentir santa indignação contra o pecado e os escravos do pecado, e para condenar o pecador à condenação eterna? E se a ira de Deus, que é infinito em santidade e justiça, é despertada a tal ponto por um único pecado mortal, quão grande deve ser a ira e a ofensa do Justo e Santo contra os milhões e milhões de pecados vergonhosos e sem pudor cometidos diariamente não só pelos judeus e pagãos, mas também pelos cristãos! Toda essa ira, todo esse sentimento de dignidade ultrajada pelo insulto oferecido, que o pecador desperta no Coração de Deus, será guardado até o Dia do Juízo Final. O santo sacrifício da Missa e a poderosa intercessão dos santos ainda impedem o braço Divino de executar a vingança.

Mas quando a humanidade tiver enchido a medida de suas iniquidades, o dia da ira chegará. Ninguém pode imaginar quão terrível será o derramamento da ira de Deus sobre os pecadores. Nos Salmos, lemos: 'Quem avalia a força de vossa cólera, e mede a vossa ira com o temor que vos é devido?' (Sl 89,11). Ai de nós, pobres pecadores! Então, pela primeira vez, experimentaremos devidamente o que fizemos e o quanto ofendemos profundamente a Deus com nossos graves pecados. A ira de Deus é tão ilimitada que nem a Mãe de Deus, nem todos os Anjos e Santos têm poder para diminuí-la ou contê-la; ela se voltará com santo zelo e distribuirá a cada homem o que ele merece com rigorosa justiça. Ouçam o que o próprio Juiz diz sobre isso, sobre a sua ira, pela boca do profeta Ezequiel: 'Chegou o fim para ti, vou desencadear contra ti a minha cólera, vou julgar-te de acordo com o teu procedimento e fazer cair sobre ti o peso de todas as tuas práticas abomináveis. Não te tomarei em consideração, serei sem complacência, pedirei conta de teu proceder, e todos os teus horrores serão manifestos no teu meio. Então sabereis que sou eu o Senhor' (Ez 7,3-4). .

Estas são palavras verdadeiramente terríveis e a ameaça que contêm é das mais assustadoras. Ó quão implacável será o julgamento com que Deus, ofendido por tão inúmeras transgressões, convocará então toda a humanidade. Ai de mim e ai de ti, se nos encontrarmos entre a multidão incontável dos pecadores, e Deus não puder, na sua justiça, poupar-nos! O que faremos para não cairmos nas mãos do Juiz irado? Devemos abandonar o caminho da iniquidade e, agora, enquanto ainda há tempo, fazer as pazes com o Juiz a quem ofendemos. Vamos manifestar de vez em quando um sincero arrependimento pelos nossos pecados, mediante a oração abaixo ou outras orações similares de profundo pesar pelas ofensas e faltas cometidas.

ORAÇÃO

Juiz de infinita justiça dos vivos e dos mortos, reconheço que pequei contra Vós muitas vezes e gravemente. Abandonei-vos, ó meu Pai do Céu; crucifiquei-vos, ó meu Redentor; entristeci o Espírito Santo e desperdicei as vossas graças. Fiz isso pelos inúmeros pecados que cometi em pensamentos, palavras e ações e, por minhas transgressões, incorri na pena da morte eterna. Mas, como Vós não desejais a morte do pecador, mas que ele se converta e viva, deixai-me experimentar desde agora o efeito da vossa justiça, que está sempre unida à vossa misericórdia. Todas as provações que me enviardes nesta vida serão recebidas com gratidão e acolhidas com suavidade, na medida em quiserdes me castigar com a vossa severidade paternal, para que, no Dia do Juízo Final, eu possa encontrar a vossa misericórdia e alcançar um lugar entre os vossos eleitos. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

SOBRE A BATALHA ESPIRITUAL CONTRA OS VÍCIOS

Na luta que devemos empreender contra os vícios, devemos empregar a mesma tática com que estes nos assaltam. Para isso, urge descobrir qual o vício que mais nos subjuga e iniciar contra ele a luta principal. Que cada um, com toda a atenção e diligência da mente, bem como com a máxima vigilância, observe suas investidas. Dirijamos, então, contra ele os dardos dos jejuns cotidianos, golpeando-o com frequentes suspiros e gemidos do coração; invoquemos contra ele o labor das vigílias e das meditações espirituais, as incessantes orações com lágrimas derramadas perante Deus, implorando-lhe que, de modo especial e para sempre, extinga esses ataques.

É impossível triunfar sobre qualquer paixão, se antes não compreendermos que nossa diligência e nosso esforço jamais poderão alcançar-nos a vitória nessa luta. Contudo, toda a obra de purificação exige cuidado e solicitude incessantes, dia e noite. No entanto, ao sentir-se alguém liberto, novamente esquadrinhe todos os recantos do coração com a mesma meticulosidade e surpreenda aquele que entre os outros vícios percebe ser o mais pernicioso. É indispensável, então, que se lance mão de todas as armas espirituais para combatê-lo. Desse modo, depois de vencidos os mais poderosos, mais facilmente serão superados os restantes, e a luta contra os mais fracos passa a ser vitoriosa.

... Por uma tática semelhante, superadas as paixões mais violentas, nos dispomos gradualmente a combater as mais fracas, obtendo assim, sem riscos, uma completa vitória. Contudo, não julguemos que, ao orientarmos nossa luta específica contra um vício particular, olhando com negligência os dardos de outros, sejamos feridos com facilidade por um golpe inesperado. Isso é impossível; pois, quem se preocupa com a purificação de seu coração e, com esse intuito, lança mão de todas as forças de sua alma para libertar-se de determinado vício, envolve todos os outros no mesmo ódio e se mantém vigilante contra todos eles.

A que título mereceria alguém a vitória desejada sobre uma paixão, se depois se tornasse indigno da recompensa prometida aos puros de coração, por se ter contaminado com outros vícios? Mas, quando tivermos feito da luta contra determinada paixão nosso principal propósito, passaremos a rezar nessa intenção, com zelo e solicitude a fim de merecermos a graça de uma vigilância mais cuidadosa e assim alcançarmos uma rápida vitória.

(Excertos da obra 'Conferências', de João Cassiano, monge do século V)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra Vós(Sl 50)

Primeira Leitura (Gn 2,7-9.3,1-7) - Segunda Leitura (Rm 5,12-19) -  Evangelho (Mt 4,1-11)

  22/02/2026 - PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA

JESUS E AS TENTAÇÕES


Neste domingo do Senhor, nos deparamos com uma das páginas mais intrigantes dos Evangelhos: a existência do demônio, sua natureza maligna convertida integralmente às tentações e ao infortúnio eterno da humanidade; a necessidade do homem, no seu encontro com Deus, de superar estas tentações, domar os seus instintos e não acolher ou se submeter às rédeas do pecado.

Homem do infortúnio pela fraqueza dos nossos primeiros pais, reféns da primeira tentação do demônio, iludidos pela serpente 'o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito' (Gn 3,1). Homem da redenção, transformado pelo exemplo de Cristo, que aceita as tentações na sua condição humana para mostrar que as tentações devem ser combatidas pelos frutos da mortificação interior e pela oração intensa e persistente: 'Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites...' (Mt 4,2). A ação do demônio é-nos dirigida sempre nos momentos de maior fragilidade, visando a perda ou o descaminho da santificação pessoal, sempre moldada nos apelos à sensibilidade e aos instintos mais expostos do homem. E, ao se deixar tentar pelo demônio, Jesus nos mostra que a superação das tentações é o caminho que faz os santos e diverge os tíbios e os pecadores.

Três tentações serão impostas por satanás, no intuito desgraçado de obter alguma certeza sobre a verdadeira natureza de Jesus. Exposto ao ridículo nas suas tolas intenções de tentar confundir o próprio Criador, o demônio suscita que o Filho de Deus converta pedras em pães, que aflore o prodígio da proteção dos anjos ao se atirar da parte mais elevada do templo e, na podridão máxima da soberba diabólica, lhe preste culto e adoração, como penhor das riquezas e glórias do mundo.

O Filho de Deus Vivo submete o demônio à sua natureza degradada, confirmada tantas e tantas vezes pelas Sagradas Escrituras: 'Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’ (Mt 4,4); 'Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!' (Mt 4,7) e 'Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto' (Mt 4,10). Três respostas taxativas, categóricas, definitivas, de fim de conversa. Na última expressão, após confirmar a identidade do anjo do mal como 'satanás', Jesus ordena peremptoriamente que ele se afaste em definitivo. Neste início de Quaresma, que seja esta nossa reflexão: como nos comportar diante às tentações, permitidas por Deus para a nossa santificação, ou seja, nunca ceder ao diálogo e às manipulações do mal, mas, implorando a graça divina, ordenar peremptoriamente ao diabo ir rugir nas hostes infernais.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

ATÉ QUANDO?

'Nos últimos tempos, virão escarnecedores cheios de zombaria, que viverão segundo as suas próprias concupiscências' (2Pd 3,3)


'Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores' (Sl 1,1)

O escárnio, a blasfêmia e o escândalo são frutos da miséria humana desde a criação. E o Filho do Homem numa cruz nos ensinou que o caminho da graça não perpassa pela lixeira dos sentidos, muito menos por uma avenida de lixos em conserva.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

INDULGÊNCIA PLENÁRIA DAS SEXTAS-FEIRAS DA QUARESMA

   

Indulgência Plenária: rezar com piedosa devoção a oração En ego, o bone et dulcissime Iesu (Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus!) nas sextas-feiras da Quaresma, diante de uma imagem de Jesus Crucificado e depois da comunhão.

En ego, o bone et dulcissime Iesu, ante conspectum tuum genibus me provolvo, ac maximo animi ardore te oro atque obtestor, ut meum in cor vividos fidei, spei et caritatis sensus, atque veram peccatorum meorum paenitentiam, eaque emendandi firmissimam voluntatem velis imprimere; dum magno animi affectu et dolore tua quinque vulnera mecum ipse considero ac mente contemplor, illud prae oculis habens, quod iam in ore ponebat tuo1 David propheta de te, o bone Iesu: Foderunt manus meas et pedes meos: dinumeraverunt omnia ossa mea. Amen.

Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus! De joelhos me prostro em vossa presença e vos suplico com todo o fervor de minha alma que vos digneis gravar no meu coração os mais vivos sentimentos de fé, esperança e caridade, verdadeiro arrependimento de meus pecados e firme propósito de emenda, enquanto vou considerando com vivo afeto e dor as vossas cinco chagas, tendo diante dos olhos aquilo que o profeta Davi já nos fazia dizer, Ó bom Jesus: ‘Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos’.

(SI 21,17; cf. Missal Romano, ação de graças depois da missa)

É sempre importante lembrar que a indulgência não é o perdão dos pecados, mas a reparação das penas e danos devidos aos pecados. Para se obter a indulgência plenária é preciso:

1. ter uma disposição interior de afastamento total de todo o pecado, mesmo do pecado venial;
2. ter feito confissão recente;
3. receber a Sagrada Comunhão;
4. rezar em intenção do Santo Padre e da Santa Igreja (orações livres, mas que a Santa Sé recomenda fazer na forma de um 'Pai Nosso' e de uma 'Ave Maria').

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (81/84)

 

81. AS TENTAÇÕES DO DEMÔNIO

Quando Santo Inácio se entregava aos exercícios de penitência e oração na gruta de Manresa, Deus, para fortificar-lhe a virtude por meio do combate, permitiu ao demônio que o assaltasse de vários modos. Tendo o tentador estudado o coração de Inácio, encontrando-o inacessível aos golpes da avareza e da luxúria, julgou poder vencê-lo pela vanglória. 

Sugeriu-lhe então o pensamento de que ele era um grande santo e, encobrindo-lhe os pecados, fez-lhe uma excelente descrição das aspérrimas penitências, esmolas e longas horas que passava em oração, bem como de todas as virtudes por ele praticadas. O servo de Deus, iluminado pela graça, reconheceu que aquelas sugestões de vanglória vinham do demônio, espirito orgulhoso, e não do Espirito Santo que é espirito de humildade. Assim venceu o astuto inimigo só com a lembrança de seus grandes pecados e a meditação do inferno que tantas vezes merecera.

Esperava-o outra prova. Foi privado da paz do coração, da tranquilidade interior, de que gozava após a sua conversão, e invadiram-no trevas, temores, cuidados, inquietações. Parecia-lhe que tudo que fazia era pecado, que nada agradava a Deus e que Nosso Senhor o abandonara. Eram temores exagerados, sem fundamento, angústias de espírito e escrúpulos, com que o demônio queria tornar-lhe o caminho da vida espiritual áspero e aborrecido e lançá-lo no desespero. Mas também aqui o demônio teve de meter a viola no saco e os carretéis na algibeira, porque, com a paciência e sobretudo com a obediência cega ao seu confessor, Inácio saiu triunfante dessa nova tentação. Seguiu a voz do ministro de Deus como se fora a do próprio Jesus Cristo, e recuperou a calma.

O demônio tentou ainda abalar a confiança do santo.
➖ Como poderás continuar nessa vida tão austera? - dizia-lhe interiormente - És moço, tens ainda cinquenta anos de vida: como poderás, por tanto tempo, aguentar uma vida tão penosa?

Inácio, iluminado pela oração fervorosa, não custou muito a reconhecer a manha do tentador.
poderás continuar nessa vida tão austera?
➖ Tu falas desse modo? - replicou-lhe - Quem me garante viver mais cinquenta anos? Podes garantir-me uma hora sequer? E, ainda que tivesse de viver mais cinquenta anos, que é isso em comparação com a eternidade? De resto a mim me basta viver um dia a cada dia. Aquele que com sua graça me sustenta hoje me conservará também amanhã e até quando lhe aprouver prolongar-me a vida.
Desta maneira, o valoroso soldado de Cristo, a exemplo de seu Mestre, superou todas as tentações.

82. AOS DESCONTENTES

A muitos, que se lamentam de sua sorte e invejam a dos mais favorecidos, poder-se-ia repetir esta parábola.

A fortuna tinha muitos queixosos e nenhum agradecido. Chegou o descontentamento até aos animais; e o burro, o mais queixoso de todos, foi ter com Júpiter, e disse-lhe: 
➖ Integérrimo deus, como podes consentir esta impiedade da Fortuna contra mim? Ela persegue a inocência e favorece a malícia; o orgulhoso leão triunfa; o tigre cruel engorda; a astuta raposa, que a todos engana, ri-se de todos; o voraz lobo anda à solta; e só eu, que a ninguém faço mal algum, de todos sou desprezado e maltratado, como pouco e trabalho muito, nada de pão e tudo de paus e pauladas...

Júpiter, assaz comovido, ordenou que a Fortuna viesse à sua presença. Saíram soldados a procurá-la. Buscaram-na em casa do rico, do poderoso, do belo, do vaidoso, e não a encontraram. .. Por fim deram com ela na casa da virtude. Levaram-na à presença de Júpiter, que lhe repetiu todas as queixas do burro. A Fortuna, depois de ouvir tudo em silencio, com um lindo sorriso respondeu:
➖ Grande Júpiter, permiti-me dizer apenas uma palavra em minha defesa; somente esta: Se ele é um burro, de que se queixa?
Júpiter, virando-se para o asno, disse-lhe:
➖ Vai, e de hoje em diante procura ser esperto como o leão, corajoso como o tigre, astuto como a raposa, cauteloso como o lobo. Ordena bem os meios para conseguires teus intentos e não terás queixas da Fortuna.

83. AS BOAS OBRAS...

Um dia, um banqueiro milionário me chamou e entregou-me um cheque em que estava escrito: 'Pague-se à vista um milhão de reais’e, logo abaixo, li a firma do banqueiro: Rotschild. Corri ao banco e apresentei o cheque. Todos me saudaram com muita cortesia e o gerente entregou-me um milhão de reais. Quando me retirei, fui de novo alvo de mesuras, sorrisos e saudações de todo o pessoal do banco...

Um belo dia, porém, tomei o mesmo cheque e, por minha conta e orgulho, coloquei nele a minha própria assinatura. Como a minha caligrafia era mais bela que a do banqueiro milionário, corri ao banco cheio de confiança... Mas, desta vez nem dinheiro, nem mesuras; não me pagaram o cheque e por cúmulo, botaram-me para fora sob empurrões e entre dois policiais...

E tudo isso por quê? Por que um cheque assinado por Rotschild tem valor e o meu não tem? É que ao meu falta a condição principal: o crédito. Na vida espiritual, dá-se coisa semelhante. Uma obra assinada por um amigo de Deus tem valor no Banco do Céu; mas uma obra feita por um indivíduo sem religião, que só acredita na filantropia, na honradez natural, nenhum ou bem pouco valor tem diante de Deus.

84. O NÓ GÓRDIO

O célebre capitão Alexandre Magno (+ 323 a. C.), numa de suas guerras, chegou a Górdio, cidade da Frígia, onde se encontrava, numa torre, o assim chamado nó górdio. O famoso nó era muito complicado, e jamais alguém o conseguira desatar. Alexandre, porém, desatou-o sem a mínima dificuldade. De que modo? Com um simples golpe de espada partiu o nó pelo meio.

É assim que devemos fazer para livrar-nos das ocasiões do pecado: cortar imediatamente e sem hesitação os vínculos pecaminosos.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)