segunda-feira, 12 de outubro de 2026

GLÓRIAS DE MARIA: NOSSA SENHORA APARECIDA

A história é bem conhecida: em 1717, Dom Pedro de Almeida Portugal e Vasconcelos (Conde de Assumar), efetivado como governador das Capitanias de São Paulo e Minas Gerais, viajou de navio de Portugal a Santos, com grande comitiva. Tomando posse do governo em São Paulo, seguiu rumo às minas de ouro em Minas Gerais, fazendo uma longa parada em Guaratinguetá, no período de 17 a 30 de outubro. Para a recepção do ilustre viajante, foram-lhe servidos os melhores pratos da culinária local, incluindo os saborosos pescados do Rio Paraíba do Sul.

Para a nobre tarefa de pescar uma grande quantidade de peixes, foram convocados os pescadores Domingos Alves Garcia, seu filho João Alves e Felipe Pedroso, cunhado de Domingos, entre outros. Entretanto, mesmo com o conhecimento enorme que tinham dos melhores pontos de pesca, não conseguiam nada. Mas algo extraordinário estava para ocorrer. Na rede lançada, surgiu primeiro uma pequena imagem em terracota de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça, que foi recolhida e guardada com zelo pelos pescadores no fundo do barco. E eis que, numa nova investida, mais abaixo no rio, sem nada de peixe, veio a cabeça da imagem. Um objeto de dimensões tão reduzidas coletado do leito largo e vigoroso do Paraíba do Sul! E, surpresa ainda maior, novas investidas da rede trouxeram agora cardumes de peixes, em tão grande quantidade, repetindo-se, no largo do Porto de Itaguaçu, o milagre de Cristo no Mar da Galileia.



Cientes dos fatos extraordinários ocorridos, os pescadores locais recuperaram a imagem e passaram a venerá-la em suas casas, como imagem peregrina, até que a mesma foi colocada em pequeno oratório na casa de Atanásio Pedroso, filho de Felipe, e depois, com o culto já generalizado na ‘Nossa Senhora Aparecida’, erigiu-se uma pequena capela de sua devoção em Itaguaçu, com o apoio do Padre José Alves Vilela, pároco da Igreja de Santo Antônio de Guaratinguetá. Sob a sua coordenação, a devoção recebeu a aprovação episcopal e foi construída, então, a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, no chamado Morro dos Coqueiros, inaugurada em 1745, apenas 28 anos após o achado da imagem. Em torno da igreja, implantou-se rapidamente uma comunidade que constitui hoje a cidade de Aparecida. A igreja tornou-se de imediato centro de romarias e de devoções marianas de toda a natureza.


Com a intensa participação popular e, pela ausência de sacerdotes no Brasil, optou-se pela solicitação de auxílio junto a comunidades religiosas europeias. Em 1894, com a chegada dos padres redendoristas alemães, as atividades religiosas, os cultos e as romarias tornaram-se muito mais organizados, favorecendo muito a rápida difusão da evangelização e a consolidação da igreja como santuário de frequente peregrinação. Tais eventos culminaram com a solene coroação da imagem de Nossa Senhora Aparecida em 8 de setembro de 1904 (com manto azul e coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, ofertados pela Princesa Isabel em visita ao santuário em 6 de novembro de 1888) e com a elevação do santuário à condição de Basílica Menor em 29 de abril de 1908. Em 16 de julho de 1930, o Papa Pio XI outorgou o título de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. Em 1967, ano da comemoração do jubileu dos 250 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, o Papa Paulo VI ofertou ao Santuário Nacional da Padroeira do Brasil uma Rosa de Ouro, ato repetido pelo Papa Bento XVI em 2007. O dia da Padroeira do Brasil é celebrado em 12 de outubro, feriado nacional. 

As enormes e crescentes manifestações populares exigiram a construção de uma nova basílica, com dimensões e infraestrutura compatíveis com o maior centro de peregrinação espiritual do Brasil que se tornou Aparecida. Desta forma, entre 1955 e 1980, foi construída a atual Basílica, inaugurada a 04 de julho de 1980 pelo Papa João Paulo II e elevada a Santuário Nacional em 1984. Que continua a receber milhares de peregrinos, infindáveis romarias, em agradecimento, louvor e veneração à Virgem Padroeira do Brasil. Na Sala das Promessas, em meio a milhares de ex-votos, tem-se uma ideia da admirável senda de prodígios e milagres alcançados por tantos romeiros e fieis, pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida.


Em Aparecida, ao contrário de tantos outros centros de peregrinação mariana, a Virgem fez-se aparecer apenas sob a forma de uma pobre e pequena imagem de terracota de 38cm de altura, sem quaisquer visões, mensagens ou prodígios sobrenaturais, para falar aos simples, aos humildes, aos fracos, aos desvalidos, que as almas simples, despojadas de valores intrinsecamente humanos e entregues somente à confiança e à misericórdia de Deus por Maria, são as glórias dos Céus.


ORAÇÃO A NOSSA SENHORA APARECIDA

Ó Senhora da Conceição Aparecida, que fizestes tantos milagres que comprovam vossa poderosa intercessão junto ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, obtende para nossas famílias as graças de que tanto necessitam. Defendei-nos da violência, das doenças, do desemprego e, sobretudo, do pecado, que nos afasta de Vós. Protegei nossos filhos de tantos fatores de deformação da juventude. E concedei a todos os membros de nossas famílias a graça de poderem trilhar o caminho de perfeição e de paz ensinado por Vosso Divino Filho, que afirmou: 'Disse-vos estas coisas para que tenhais paz em Mim. Haveis de ter aflições no mundo; mas tende confiança, Eu venci o mundo!' Amém.

domingo, 11 de outubro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

     

'Na casa do Senhor habitarei, eternamente' (Sl 22)

Primeira Leitura (Is 25,6-10a) - Segunda Leitura (Fl 4,12-14.19-20) - Evangelho (Mt 22,1-14)

  11/10/2026 - VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 O BANQUETE REAL 


No seu ministério público, Jesus falava muitas vezes em forma de parábolas, para incutir nos homens os ensinamentos da Boa Nova, sem lhes ferir demasiado as susceptibilidades da prática consolidada sobre valores falsos ou essencialmente humanos. Neste contexto, o plano divino de salvação da humanidade é apresentado na analogia de que 'o Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho. E mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram ir' (Mt 22,1-2).

O convite pressupõe uma convocação; a festa foi preparada em todos os detalhes e todos os convidados têm lugares específicos reservados na mesa do banquete; a eles está destinado as iguarias mais refinadas - símbolo dos mistérios da graça associados à Visão Beatífica e à plena vida em Deus. Mas muitos 'não quiseram ir' (Mt 22,2), começando pelos hebreus, o povo escolhido do Antigo Testamento. Muitos e muitos outros seguirão neste caminho de recusa explícita, seja pela indiferença, seja pelo envolvimento total nos seus próprios interesses pessoais e mundanos.

A reação do rei é imediata: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes’ (Mt 22,8 - 9). Diante do não do povo escolhido, o Senhor faz a opção pelos outros, os gentios do mundo, por todos os homens que acreditaram e assumiram a doutrina do seu Filho, vítima de amor sacrificada pelo triunfo da Cruz. Ir a todas as encruzilhadas e a todos os cantos do mundo é a vocação missionária da Igreja de todos os tempos, para buscar os eleitos para a grande festa do Senhor.

No banquete real, somente serão aceitos os convidados que estiverem usando o 'traje de festa' (Mt 22,11), ou seja, estiverem revestidos do estado de graça, premissa das almas adentrarem o Reino dos Céus. Assim, até mesmo os que fizeram parte da Igreja - os convidados - mas que usufruíram de uma fé sem obras e não produziram os frutos da graça serão julgados inconvenientes no grande dia do Juízo e serão expulsos do banquete e, assim, perderão definitivamente o Reino dos Céus e serão jogados às trevas, onde só haverá choro e ranger de dentes. Nós devemos ter o firme propósito de servir a Cristo na fé e nas obras, para nos tornarmos os convivas do banquete real por toda a eternidade, tangidos pela misericórdia e não pela justiça divina, porque 'muitos são chamados, e poucos são escolhidos' (Mt 22,14).

sábado, 10 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (II)

 

Maria! Quantas encantadoras lendas estão ligadas ao doce nome de Maria! Eis uma que geralmente é considerada uma narrativa piedosa ou parábola.

Nos primeiros tempos do cristianismo, um piedoso eremita, grande aos olhos de Deus, mas pouco conhecido dos homens - embora São Bernardo tenha pronunciado duas vezes um panegírico em sua honra e composto o ofício para a sua festa - vivia às margens do rio Aube, numa floresta da região de Champagne. Os antigos gauleses haviam adorado ali uma de suas sombrias divindades, que os romanos substituíram por Saturno. Por isso, o lugar era chamado Saturniacum quando o eremita, de nome Victor de Plancy, chegou e construiu uma capela e uma pequena ermida.

Numerosos acontecimentos milagrosos se seguiram a essa obra. Entre os mais surpreendentes estavam as conversões: almas entregues à perdição eram resgatadas para o céu; e corações antes enregelados pelo egoísmo e corrompidos por práticas viciosas inflamavam-se de caridade e produziam tais flores de virtude que até o mundo se via obrigado a admirá-las. São fenômenos que deixam a mente perplexa, mas que a fé explica facilmente.

O santo sentia que as horas que passava sozinho em sua cela eram as mais doces de sua vida. A única criatura viva perto dele era um pardal manso, que alimentava e estimava, considerando-o um símbolo da solidão. Devotado com ternura à Santíssima Virgem, o santo eremita a invocava incessantemente; e as únicas palavras que pronunciava em voz alta eram: Ave Maria! Acostumado a ouvir essas palavras, e somente elas, o pardal aprendeu a repeti-las. Grande foi a alegria do eremita quando, pela primeira vez, a ave pousou em seu ombro e lhe exclamou ao ouvido: Ave Maria!

A princípio, imaginando que algum espírito santo tivesse vindo em missão divina, o eremita caiu de joelhos, reverente. Mas a ave continuou a chilrear Ave Maria! Ave Maria! e ele logo percebeu de onde vinham aquelas doces palavras. O pássaro, que surgira como uma distração inocente, tornou-se um amigo - quase um irmão - uma criatura de Deus que rezava. Victor redobrou os cuidados com ele e, desde então, sua solidão tornou-se agradavelmente mais leve.

A modesta ave, a quem as pessoas deram o nome de 'Pequeno Monge', parecia compartilhar a alegria de seu dono. Ao amanhecer, seu primeiro canto era Ave Maria! Quando Victor lhe lançava migalhas, o passarinho cantava uma ação de graças feita de ave-marias; e, quando o eremita se ajoelhava para suas devoções, pousava em seu ombro e sussurrava suavemente: Ave Maria! Victor cultivava um pequeno jardim. Se, por um instante, perdesse de vista o objeto constante de seus pensamentos, o fiel pardal, pousado numa árvore, logo o faria recordar com seu Ave Maria!


Os cristãos da região, que procuravam o santo eremita em suas aflições e dúvidas, estimavam muito o passarinho. Quando ele os saudava com sua pequena oração, não podiam deixar de considerá-la uma graça milagrosa concedida ao eremita por Nossa Senhora. Quando estava livre, o pardal fazia voos curtos pelos campos. Se Victor, em suas caminhadas meditativas, se afastava da cela mais do que de costume, a ave logo o fazia lembrar-se dela, chilreando uma Ave Maria!

Certo dia de primavera, enquanto Victor jazia enfermo em sua esteira, abriu a pequena porta da cela, e seu amiguinho saiu voando, como de costume. Poucos minutos depois, ele viu, alarmado, um gavião perseguir seu querido pardal. A ave de rapina abriu o bico e estendeu as garras para agarrá-lo e devorá-lo. Já quase sentindo as garras afiadas do inimigo, o pequeno pássaro gritou: Ave Maria! Diante daquele prodígio, o gavião, assustado e aterrorizado, interrompeu a perseguição. O manso pardal teve tempo de voltar à cela; caiu sobre o peito de Victor, chilreou debilmente uma última Ave Maria e morreu.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

DEVEIS RESPLANDECER COMO FILHOS DE DEUS!

'Fazei tudo sem murmurações nem discussões, para que sejais irrepreensíveis e puros, filhos de Deus sem mancha em meio a uma geração perversa e degenerada, na qual deveis resplandecer como astros, levando a Palavra da vida' (Fl 2,14–16).

Estas palavras devem ser compreendidas assim: o homem encontra-se como numa encruzilhada. Se procurar a salvação na luz que vem de Deus, ele a alcançará. Se escolher o mal, seguirá o diabo como castigo. Portanto, se o homem assumir sua condição humana e todas as suas obras sem murmurações, isto é, sem as deformações dos pecados e sem indecisões, com uma fé perfeita, amando o bem e odiando o mal, será certamente libertado no julgamento futuro e separado dos pecadores que se afastam do bem para abraçar o mal. 

Aqueles que agem amando o bem e procurando não ferir ninguém vivem como filhos de Deus, na simplicidade das boas obras, evitando murmurações e disputas vãs, rejeitando sentimentos negativos e mundanos. Insensíveis às armadilhas da sedução, despertam a estima daqueles que se alegram com sua coragem em meio a uma geração pervertida. Na perfeição de sua verdadeira fé, brilham como os astros cuja missão é iluminar o mundo, conforme determinou o Criador do universo. Com uma doutrina que se encarna na vida, converterão os homens a Deus. É dessa maneira que o Filho de Deus, sem pecado, deu a todos a sua Luz.

(Santa Hildegarda de Bingen)

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (III)

 

Tive vários êxtases de amor, e um em particular durante o meu noviciado, quando permaneci, por uma semana inteira, muito afastada deste mundo. Parecia que um véu havia sido lançado sobre todas as coisas terrenas. Mas, naquela ocasião, eu não era consumida por um verdadeiro fogo. Podia suportar aqueles transportes de amor sem esperar que se rompessem os laços que me prendiam à terra; ao passo que, no dia de que agora falo, mais um minuto - mais um segundo - e minha alma teria sido libertada. Ai de mim! Encontrei-me novamente na terra e a aridez logo voltou ao meu coração.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

INVOCAÇÃO À SANTÍSSIMA TRINDADE PELAS ALMAS DO PURGATÓRIO


Ó Deus de toda bondade, Pai das misericórdias, que, pelas orações e jejuns do vosso povo fiel, vos dignastes enviar os vossos Anjos para romper os grilhões do vosso santo apóstolo Pedro e abrir as portas de sua prisão; ouvi também neste dia as orações e súplicas da vossa Igreja e enviai o vosso Anjo às almas pelas quais rezamos, para que, abertas as portas de sua prisão, sejam elas acolhidas na felicidade do seio da vossa misericórdia. Amém.

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Ó Filho de Deus, Salvador das almas, que aliviastes os três jovens na fornalha ardente, derramai o vosso orvalho celeste sobre as almas que, do meio das chamas, clamam a Vós. Somente o vosso precioso Sangue pode apagar as chamas do purgatório; fazei que ele agora se derrame sobre essas almas sofredoras e tende piedade delas, Senhor. Amém. 

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Ó Espírito de amor, tende compaixão do cruel tormento que padecem essas almas, as quais, repletas da mais pura caridade e aspirando sem cessar ao seu Deus, clamam em sua aflição: 'Tenho sede! Tenho sede do meu Deus!' - e, contudo, não podem alcançar o objeto de seu amor, nem receber sequer uma gota daquela torrente de puras delícias. Ó Espírito Santo, concedei que, depois de terem sentido as mais intensas dores do amor, possam saborear suas delícias celestes numa bem-aventurada eternidade. Amém. 

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

(The Golden Manual, 1850)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

VIDA INTERIOR: SABER OUVIR A VOZ DO ESPÍRITO SANTO!

Como é possível que tantas pessoas, depois de terem vivido quarenta ou cinquenta anos em estado de graça e recebido frequentemente a Santa Comunhão, quase não manifestem os dons do Espírito Santo em sua conduta e em seus atos, se ofendam por uma ninharia, mostrem grande avidez por elogios e levem uma vida muito natural? Essa condição provém dos pecados veniais que cometem frequentemente sem se preocupar com eles; esses pecados e as inclinações que deles nascem atraem essas almas para as coisas da terra e mantêm os dons do Espírito Santo como que presos, semelhantes a asas que não podem se abrir. Falta recolhimento a essas almas; elas não estão atentas às inspirações do Espírito Santo, que passam despercebidas. Consequentemente, permanecem na obscuridade, não nas trevas do alto, próprias da vida íntima de Deus, mas na obscuridade inferior que procede da matéria, das paixões desordenadas, do pecado e do erro; essa é a explicação de sua inércia espiritual. A essas almas dirigem-se as palavras do salmista, que o Ofício Divino nos apresenta diariamente nas Matinas: 'Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações'.

Para sermos dóceis ao Espírito Santo, devemos primeiro ouvir a sua voz. Para isso, são necessários o recolhimento, o desapego do mundo e de nós mesmos, a guarda do coração e a mortificação da vontade própria e do juízo pessoal. Se o silêncio não reina em nossa alma, se a voz dos afetos excessivamente humanos a perturba, não podemos ouvir com segurança as inspirações do Mestre interior. Por essa razão, o Senhor submete nossos apetites sensíveis a duras provações e, de certo modo, os crucifica, para que finalmente se calem ou se tornem inteiramente submissos à nossa vontade animada pela caridade. Se habitualmente estamos preocupados conosco mesmos, certamente ouviremos a nós mesmos ou, talvez, uma voz mais pérfida e perigosa, que procura nos desviar. Por isso, Nosso Senhor nos convida a morrer para nós mesmos, como o grão de trigo lançado à terra.

Para ouvir as inspirações divinas, devemos, portanto, fazer silêncio em nós mesmos; mas, mesmo então, a voz do Espírito Santo permanece misteriosa. Como diz Cristo: 'O Espírito sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito'. Palavras misteriosas, que devem tornar-nos prudentes e reservados em nossos juízos sobre o próximo, atentos às inclinações que o Senhor coloca em nós e que constituem as sementes diversas de um futuro conhecido pela divina Providência. São inclinações à renúncia, à oração interior; são mais preciosas do que pensamos. Alguns intelectuais sentem, desde cedo, uma atração pela oração mental silenciosa, que talvez seja a única capaz de preservá-los do orgulho espiritual e da aridez do coração, tornando suas almas semelhantes às das crianças, como devem ser para entrar no Reino de Deus e, sobretudo, na intimidade desse Reino. Muitas vezes, uma vocação para determinada ordem religiosa pode ser reconhecida por essas primeiras inclinações.

A voz do Espírito Santo começa, portanto, por um impulso interior, uma iluminação obscura; e, se perseveramos na humildade e na conformidade com a vontade de Deus, esse impulso manifesta claramente à consciência sua origem divina, embora permaneça misterioso. Os primeiros clarões tornar-se-ão outras tantas luzes que, como as estrelas, iluminarão a noite de nossa peregrinação rumo à eternidade; a noite escura tornar-se-á, assim, luminosa, semelhante à aurora da vida celeste: 'E a noite será minha luz em minhas delícias'. Para chegarmos a ser dóceis ao Espírito Santo, precisamos, portanto, de silêncio interior, recolhimento habitual, atenção e fidelidade.

(Excertos da obra 'As Três Idades da Vida Interior', Pe. Reginald Garrigou-Lagrange)