sábado, 31 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (V)

 

Esta não é uma lenda fantasiosa, mas uma simples narrativa de autenticidade incontestável; e merece ocupar um lugar nesta coletânea, embora seja, sem dúvida, conhecida por muitos de nossos leitores. Seu tema é uma oração - o Memorare ['Lembrai-vos'] - tão querida ao coração de todos os católicos, saída da pena daquele grande servo de Maria, São Bernardo de Claraval.

Nos tempos de Luís XIII, um cortesão, libertando-se da vida agitada do mundo, de suas loucuras e de seus prazeres, teve a felicidade, movido pela graça de Deus, de abraçar a vida sólida, pura e tranquila do serviço de Deus. Pertencia a uma família nobre e abandonou os esplendores da riqueza para viver nas condições humildes da pobreza.

No início de sua nova vida, uma grande tentação o surpreendeu, sob a forma de uma daquelas seduções com que o mundo tão sedutoramente procura apanhar aqueles que estão prestes a perder-se. Em vez de enfrentar inutilmente o perigo, o novo soldado de Cristo refugiou-se numa igreja de Paris, que, infelizmente, como tantas outras, já não existe. Humildemente, mas com confiança, lançou-se aos pés de Nossa Senhora do Livramento, cuja história acabamos de narrar, e a tentação, juntamente com o seu objeto, desapareceu.

Pouco tempo depois, recebeu a ordenação sacerdotal e celebrou sua primeira Missa na igreja de São Julião, o Pobre (Saint-Julien-le-Pauvre), no Hôtel-Dieu ['Casa de Deus', o principal hospital de Paris], rodeado pelos pobres, que dali em diante adotou como sua família. Uma fortuna de 18.000 libras esterlinas coube-lhe por herança, da qual prontamente tomou posse, não para seu próprio proveito, mas para aliviar as misérias e necessidades de seus novos amigos. Entretanto, tão numerosa era essa família que ele havia adotado, que a fortuna logo se esgotou; e ele começou a procurar os ricos e a pedir-lhes esmolas.

Dedicado ao cuidado dos pobres e dos membros desafortunados da sociedade, esse sacerdote havia abandonado tudo e, não possuindo coisa alguma além de seu coração ardente, realizou prodígios de caridade e promoveu numerosas conversões. Sua solicitude não se limitava aos pobres que viviam em liberdade; penetrava também nas prisões, levando consolação aos infelizes que ali se encontravam, e frequentemente os acompanhava até o lugar de sua terrível morte.

É difícil acreditar que um homem, na hora da angústia e do abatimento, diante de uma morte violenta, possa ainda esquecer-se de Deus. Isso, porém, acontece com demasiada frequência. O santo sacerdote de quem escrevemos tinha uma compaixão particular por essas pobres criaturas. Bernardo de nome [Bernardo de Paris], era mais conhecido em toda Paris pelo título de 'O Pobre Sacerdote'.

Cheio de confiança e amor à Santíssima Virgem, a Ela recorria em todas as conversões que desejava alcançar. Sua oração predileta era aquela que leva o autor do seu nome  - o Memorare. Trazia sempre consigo essa oração, impressa em pequenos pedaços de papel, dos quais distribuiu várias centenas de milhares de exemplares. Quanto bem devem ter produzido! Pois, certamente, essa doce oração tem sido o instrumento para alcançar mil vezes mais graças do que o número de palavras que contém.

Era essa a força do bom sacerdote, cuja serena indiferença às coisas do mundo não era menos notável do que sua santidade. Muitos exemplos disso poderiam ser citados. O Cardeal Richelieu, que nutria grande admiração por ele, insistia em conceder-lhe algum benefício ou proteção. Mas, percebendo que não conseguia convencer o humilde sacerdote a aceitar, disse-lhe certo dia:
➖ Dizei-me, então, de que outra maneira posso ser-vos útil; e pedi-me algum favor.
➖De bom grado me aproveitarei da bondade de Vossa Eminência - respondeu o sacerdote - Permiti-me suplicar a Vossa Graça que ordene a colocação de novas tábuas nas carroças em que os prisioneiros são conduzidos ao lugar da execução, para que sua atenção não seja desviada do amor de Deus e da preparação para o encontro com Ele pelo temor de caírem através do fundo da carroça...

Certa manhã, foi-lhe comunicado que, na prisão do Châtelet, encontrava-se um homem miserável, condenado a ser despedaçado vivo na roda, que persistia em negar sua culpa e se recusava a ver ou ouvir um ministro da religião. Bernardo apressou-se a ir à sua cela, saudou-o, abraçou-o e consolou-o. Empregou suas palavras mais persuasivas para tentar comover e abrandar aquele coração de pedra. Toda a sua caridade, porém, foi em vão; seu zelo parecia desperdiçado.

O prisioneiro, taciturno, não levantava os olhos nem dava o menor sinal de atenção. Nada respondia e, enquanto o sacerdote esgotava todo o seu repertório de paciência, permanecia imóvel, sentado num banco de pedra. Chegara, então, o momento de experimentar a eficácia de sua oração predileta. O padre Bernardo disse:
➖ Vamos, meu irmão, não vos recusareis a recitar uma pequena oração à nossa Santíssima Mãe, para obter seu auxílio nesta hora de necessidade.
O prisioneiro permaneceu como uma rocha, em seu estado de impenetrável taciturnidade.
➖ Pois bem, eu a recitarei sozinho - disse o sacerdote, ajoelhando-se ao lado do prisioneiro. Peço-vos apenas que unais vossa intenção à minha e, se vos for demasiado penoso falar, participareis de minha oração respondendo simplesmente: Amém.

Tirou de seu breviário uma das pequenas orações e recitou-a em voz alta. Quando terminou, esperou um instante para ver se o coração do prisioneiro havia cedido; mas percebeu apenas um movimento de impaciência e ouviu uma exclamação brutal. Ferido pela dor, o sacerdote prestou atenção somente ao seu zelo. Ergueu a mão trêmula e, colocando a santa oração sobre os lábios do criminoso, tentou introduzi-la à força em sua boca, dizendo:
➖ Já que não quereis recitá-la, havereis de engoli-la!

O prisioneiro estava acorrentado e não podia resistir, suportando silenciosamente aquilo que não tinha forças para impedir. Abriu a boca, ainda agora cerrada pelo desespero, e prometeu recitar a oração que, sem dúvida, já havia purificado os lábios que tocara. Enquanto isso, tremendo de alegria, o bom sacerdote repetiu novamente a oração e percebeu, com visível emoção, que cada palavra saía dos dos lábios do prisioneiro com um fervor de devoção cada vez mais intenso. Por fim, ele suspirou, soluçou e chorou; e, quando a oração terminou, seu coração endurecido havia cedido. Foi tomado de profunda contrição; já não era o infiel obstinado, mas o pecador arrependido.

Entre as lágrimas que lhe embargavam a voz, confessou os numerosos e graves pecados de sua vida. Aceitou, com humilde submissão, o sacrifício de sua própria vida, reconhecendo que era uma expiação demasiado pequena para tão longa sucessão de iniquidades quanto aquelas de que sua existência havia sido marcada. Tão profundamente, de fato, o sentimento de contrição havia penetrado em sua alma que ele desmaiou.

O pecador, salvo pelo poder de Maria, morreu aos pés do pobre sacerdote, que acabara de lhe conceder, na plenitude de seu ministério sacerdotal, o perdão completo de suas transgressões. O Padre Bernardo, repleto de boas obras, deixou esta vida em 23 de março de 1641, sendo sepultado no cemitério anexo ao Hospital da Caridade em Paris.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (166/170)

 

166. FUGIR DAS MÁS COMPANHIAS

Um juiz inglês, de nome Holt, homem distintíssimo no seu oficio, quando jovem se ajuntara a alguns amigos libertinos que, sem escrúpulo, profanavam os dias santos, jogando, embriagando-se e cometendo toda sorte de desordens. Holt teve, porém, a felicidade de desligar-se a tempo daquelas companhias e, entregando-se seriamente aos estudos, fez ótima carreira.

Ora, aconteceu que, sendo juiz, um dia apresentaram ao seu tribunal um miserável que ele teve de condenar à pena de morte: era um dos seus velhos amigos. A vista daquele homem desfigurado, magro e maltrapilho, fez sobre o juiz uma profunda impressão. Movido de compaixão e curiosidade, perguntou ao réu que era feito dos outros amigos de outrora.
➖ Além de mim e do senhor, todos já morreram de morte violenta em mãos do algoz ou do sicário - respondeu o condenado

Ao ouvir essas palavras, o juiz lançou um profundo suspiro e agradeceu a Deus por havê-lo afastado daquelas companhias. Atribuía o triste fim dos seus amigos companheiros principalmente à profanação do dia do Senhor.

167. SAROU PARA A SUA RUÍNA

Uma mãe queria bem demais a um filhinho. Ora, aconteceu que o menino adoeceu gravemente e a mãe, quase desesperada, não cessava de pedir, a Deus que o curasse. Parecendo-lhe que suas orações não eram ouvidas, procurou o pároco para desabafar-se.

O pároco deu-lhe o conselho de rezar, pedindo que se fizesse a vontade de Deus; pois, se a cura não fosse da vontade de Deus, ela deveria conformar-se. A mãe, porém, não aceitou esse conselho e gritava como desesperada: 'Não, não, não deve morrer! deve sarar como eu quero'.

E o filho sarou, mas levou uma vida péssima, vindo a morrer na forca, castigo pelos seus crimes. Que felicidade para ele, se tivesse morrido daquela enfermidade, quando ainda era inocente. É, pois, melhor fazer nossa oração, confiando na Providência Divina, que conhece o nosso futuro e faz tudo para o nosso bem.

168. OS BILHETES DE PÁSCOA

Um dia, pouco antes da Páscoa, um pregador de Quaresma fez uma prática especial aos homens da paróquia e disse-lhes entre outras coisas o seguinte:
➖ Meus caros homens, atenção! O que vou contar-vos não aconteceu propriamente no céu, mas é uma pequena lenda muito instrutiva.

Um homem, logo depois de falecer, foi bater à porta do céu. Queria entrar. São Pedro, o chaveiro fiel, pediu-lhe os papéis. O pobrezinho apresentou-lhe o atestado de terceiro ano elementar; e São Pedro lhe devolveu o papel dizendo que aquilo não tinha valor no céu. O pobre homem tirou do bolso a carteira de reservista; São Pedro examinou-a e disse: Isto vale para o teu país, mas para o Reino do Céu não vale. Puxou, então, o homem o passaporte para o estrangeiro.
➖ Não serve para nada - explicou o Apóstolo. 

Apresentou-lhe os recibos do imposto, a caderneta da Caixa Econômica, alguns bilhetes de banco... mas nada tinha valor para São Pedro.
➖ Então, que papéis quereis? - perguntou o homem.
➖ Bilhetes de Páscoa - respondeu São Pedro; tens 60 anos e, portanto, deves ter uns 50 bilhetes desses que os vigários costumam dar aos paroquianos que fazem a Páscoa. Sem esses bilhetes não se entra no céu...
Meus caros - acrescentou o pregador - provei-vos de tais bilhetes; eles são o passaporte para o céu. Quem não faz a Páscoa não pode entrar no Paraíso.

169. A DEVOÇÃO DE UMA VARREDORA

Faz poucos anos - diz o Padre Fessart, jesuíta - eu pregava a Quaresma numa paróquia de Paris. Era um domingo. Pelo meio-dia, pouco antes da missa, fui ao confessionário. Apresentou-se-me ali uma moça de aspecto simples e pobre. Desejoso de melhor ajudar a alma que Deus me enviava, perguntei-lhe pela sua condição.
➖ Padre, respondeu-me, de manhã estou no emprego de varrer rua e, depois do meio-dia, ganho um dinheirinho consertando roupas velhas.

E começou a sua confissão. Foi-me dado penetrar no santuário de uma alma muito humilde e muito pura, que se julgava à luz dAquele que descobre manchas até nos Anjos. Profundamente comovido ao considerar o que Deus devia ter feito naquela alma privilegiada, e pensando nos perigos que a cercavam, perguntei-lhe:
➖ Minha filha, como vos conservais fiel a Deus, achando-vos continuamente no meio de gente sem fé e sem lei, que tem no coração ódio e nos lábios blasfêmias contra Deus?
➖ Padre, eu comungo todos os domingos...
➖ Mas o que vedes e ouvis no meio daqueles varredores de rua não faz alguma impressão em vós, em vossa alma?

E sempre com a mesma simplicidade aquela seráfica menina me respondeu:
➖ Padre, eu não vejo nada; vivo no meu coração e nele só há lugar para a minha Comunhão. Jesus veio esta manhã, Jesus virá domingo próximo; este é o meu único pensamento, e o domingo me absorve.
➖ Já comungaste esta manhã?
➖ Ainda não, padre; ganho muito pouco, apenas o necessário para o sustento de minha pobre mãe doente, tanto que sou constrangida a varrer também nos domingos; mas largo da vassoura às 11 horas e assim que posso, depois de confessar-me, faço a Comunhão na missa do meio-dia...

170. COROA OU ESPADA

Carlos V, rei de França, mandou certa vez preparar, duas mesinhas no seu quarto. Sobre uma delas colocou o cetro e a coroa; e sobre a outra a sua espada. Chamando, depois, o filho, disse-lhe: 'Escolhe o que te agradar'. O príncipe, sem hesitar, tomou logo a espada, dizendo ao pai: 'Tomo a espada, porque a coroa eu a devo ganhar. Com a espada combaterei valorosamente, e assim merecerei cetro e coroa'.

Eis o que devem fazer os cristãos: combater valorosamente contra as tentações e suportar com paciência as dores desta vida. Só assim chegarão a conquistar a coroa do reino eterno, isto é, a eterna felicidade do céu.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O TESOURO DA DIVINA CARIDADE

1. O fim único da vida é amar a Jesus apaixonadamente. Alma cristã, vais agir desde já como o avarento. Não terás outro pensamento, outro desejo, senão acumular uma imensa fortuna de amor, não tanto para ti mesma como para Jesus, que vive em teu coração. Diante de ti, levanta-se uma montanha de ouro. Tuas ações, teus desejos, tuas afeições, teus menores movimentos, tudo se pode transformar no ouro muito puro da caridade; custa-te apenas o querer.

2. A ocasião de enriquecer teu Jesus com teu amor não se oferece senão uma única vez. São Geraldo Majela escreveu um bilhete com as seguintes palavras: 'Eu não tenho senão uma única ocasião de me santificar; se eu a deixar escapar, estará para sempre perdida'. Fugiu da casa paterna, e encerrou-se no convento.

3. Lembra-te que o tempo de acumular tesouros de caridade é limitado e não sabes quando terminará para ti. Se São Luís Gonzaga, São João Berchmans, São Estanislau Kostka, Santa Luzia ou Santa Inês tivessem diferido o trabalho de sua santificação, não gozariam no céu de tão grande glória.

4. Considera ainda que a quantidade e qualidade desse tesouro da divina caridade acumulado durante esta vida serão e conservar-se-ão exatamente as mesmas por toda a eternidade. O amor no céu não é substancialmente diferente do amor da terra. Que pena para Jesus e para ti, se, por tua culpa, o amasses menos nos séculos dos séculos! Santa Teresa animava-se com estas palavras: 'Pouco se me dá que se avantajem a mim em glória no céu; como, porém, suportar, ó Jesus, que alguém vos ame mais do que eu?' Pois bem! Tu, pobre alma, esforçar-te-ás por superar no amor à seráfica Santa Teresa.

5. Se todas estas considerações de tão nobre interesse pessoal não te estimulam suficientemente, pondera ainda a glória que dará a Deus, por toda a eternidade, um grau a mais de amor de uma só alma. Pois bem! Pobre e insignificante criatura que és, podes aumentar a glória que tornará ao teu Deus, da sua obra de criação e redenção. Podes causar prazer a Jesus amando-o cada vez mais; podes encantar o coração daquele que é a caridade infinita; podes forçá-lo a inclinar-se com ternura mais intensa para tua alma durante toda a eternidade.

E será coisa de somenos importância causar prazer a Jesus que tanto te ama? Quando Ele morria na cruz, abandonado pela criatura e até mesmo pelo próprio Criador, seus olhos tristes apercebiam-te através das gerações futuras e seu Coração aflito confiava em que um dia o amarias sem reservas. Acaso quererias frustrá-lo nas suas esperanças? Resolve-te desde já a dedicar tua existência ao amor; e busca o meio de aumentar o mais possível tua capacidade de amar.

6. E dois são os meios. O primeiro foi instituído por Nosso Senhor. Aumenta a graça santificante diretamente e como que automaticamente. São os sacramentos dos vivos e mesmo os sacramentos dos mortos recebidos em estado de graça. A santa comunhão e a confissão são duas fontes perenes de onde dimana na alma a vida de Jesus. Com que avidez é preciso aproximar-se todos os dias do banquete do Senhor para nele beber e comer a divina caridade.

Se as almas compreendessem o que é a sagrada comunhão, seria necessário fazer trincheiras nas igrejas, proteger o santo tabernáculo com grades de ferro, de medo que, arrebatadas pela veemência do desejo, as almas famintas viessem roubar Jesus para dele se alimentarem. Cada comunhão e cada confissão aumentam na alma do justo, sem dificuldade, as riquezas eternas, a vida de Jesus Cristo, a divina caridade: poderia a alma passar indiferente ao lado dessas fontes sempre correntes de vida eterna, e não sentir sede de amor, e não se precipitar nas suas águas para aí mitigar a sede e lavar-se de suas manchas?

Como eu compreendo a dor do Coração de Jesus queixando-se de não ter sido devidamente apreciado nesse sacramento de amor, de ser uma torrente que quer transbordar e de não encontrar corações que lhe sirvam de reservatório. Quanto a ti, minha alma, aproveita cuidadosamente todas as ocasiões para receber esses dois sacramentos e nas disposições exigidas. Não procures, recebendo-os, satisfazer um prazer e gozar alguma satisfação. Não é para deleitar-te que o recebes, mas para fartar-te. Não para sentir consolações, mas para haurir forças para atingir os cimos do amor.

7. O segundo meio que aumenta a divina caridade é o ato de amor. Todo ato de amor, disposto pela vontade ou sob seu domínio, por uma faculdade qualquer, torna-se fonte de novo amor. É o meio por excelência de aumentar a graça santificante. A alma pode servir-se dele a seu bel-prazer e com toda a energia e fervor que depender de si. Lembra-te que esse ato é essencialmente espiritual, é um movimento da vontade, infinitamente acima da sensibilidade e mesmo imperceptível aos sentidos. Quanto mais espiritual, calmo e puro, tanto mais profundo e intenso.

(Excertos da obra 'O Divino Amigo', do Pe. Schrijvers)

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A ICONOGRAFIA DE SÃO JUDAS TADEU


Na tradição da arte sacra, São Judas Tadeu é frequentemente representado trazendo consigo a Sagrada Face de Nosso Senhor Jesus Cristo, seja em um medalhão sustentado pelas mãos, seja em uma imagem colocada sobre o peito. O medalhão com a Sagrada Face remonta à tradição do rei Abgar V de Edessa, que teria solicitado a Jesus a cura de uma enfermidade. Segundo versões posteriores da narrativa, Cristo teria deixado milagrosamente impressa sua face em um tecido, conhecido como Mandylion de Edessa. A missão de Tadeu a Edessa, narrada por Eusébio de Cesareia na História Eclesiástica, acabou sendo associada à transmissão dessa imagem. O medalhão mostra Cristo com uma fisionomia bastante semelhante à do próprio São Judas Tadeu e isso contempla uma antiga tradição segundo a qual São Judas seria parente de Jesus.

O bastão simboliza a condição de peregrino e missionário do santo que, segundo a tradição, anunciou o Evangelho em regiões orientais. Em algumas representações, o santo aparece com uma clava, associada ao instrumento de seu martírio. O livro que o santo segura representa sua missão de anunciar e transmitir o Evangelho. Pode também evocar a Epístola de São Judas, tradicionalmente associada ao apóstolo, embora sua identificação autoral seja objeto de discussão histórica. As cores variam nas imagens: a túnica vermelha pode evocar o martírio e o branco simboliza pureza e santidade, enquanto o verde está comumente associado à esperança cristã e à vida espiritual.

São Judas Tadeu, rogai por nós!

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (V)

 

Durante o meu postulantado, custava-me muito realizar certas penitências exteriores, habituais em nossos conventos, mas nunca cedi a essas repugnâncias; parecia-me que a imagem de meu Senhor Crucificado me olhava com olhos suplicantes e me pedia esses sacrifícios.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

terça-feira, 27 de outubro de 2026

POEMAS PARA REZAR (LXVI)

Este poema apresenta um diálogo entre a alma pecadora e o Amor divino, personificado em Cristo. A alma, consciente de sua indignidade, hesita em aproximar-se de Deus, mas é acolhida pela misericórdia divina. O diálogo final consubstancia na alma a comunhão eucarística.


O AMOR (LOVE III)

O Amor me acolheu; minha alma, porém, recuou,
envergonhada do seu pecado e do seu pó.

Mas o Amor, que tudo vê, percebendo que eu hesitava,
aproximou-se de mim e, com doçura, 
perguntou se alguma coisa me faltava.

➖ Um convidado digno de estar aqui - respondi.
E o Amor me disse:
 ➖Esse convidado és tu.
➖ Eu, tão ingrato e tão  indigno?
Ah, meu Senhor, não posso sequer olhar para Vós!

O Amor tomou-me pela mão e, sorrindo, respondeu:
➖ E quem criou esses olhos, senão Eu?
➖ É verdade, Senhor, mas eu os desfigurei;
que a minha vergonha receba o castigo merecido.

➖ E não sabes quem tomou sobre si a tua culpa?
➖ Meu Senhor, então deixai-me servir-vos. 
➖Senta - disse o Amor - e prova do meu alimento.
Então me sentei e comi.

George Herbert (1593–1633)

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

ORAÇÃO: UM TEMPLO FEITO DE CARNE

 

Enquanto minha alma se prostra por terra, ofereço-vos, com todos os meus ossos e de todo o meu coração, a adoração que vos é devida. Ó Deus glorioso, que habitais em silêncio inefável, edificastes, para minha renovação, um tabernáculo de amor sobre a terra, onde é de vosso agrado repousar: um templo feito de carne e formado com o santíssimo óleo do santuário. Então o enchestes com vossa santa presença, para que nele se realizasse plenamente toda adoração, manifestando a adoração das pessoas eternas de vossa Trindade e revelando aos mundos que criastes em vossa graça um mistério inefável, um poder que nenhuma parte de vossa criação pode sentir ou apreender.

Maravilhados diante dele, os seres angélicos mergulham no silêncio, tomados de reverência perante a nuvem escura desse mistério eterno e a torrente de glória que emana dessa fonte de maravilhamento, pois, na esfera do silêncio, ele recebe a adoração de toda inteligência que foi santificada e tornada digna de Vós.

(Santo Isaac, o Sírio)