sexta-feira, 20 de março de 2026

ROSÁRIO DAS SETE DORES DE NOSSA SENHORA

Esta devoção às Sete Dores de Nossa Senhora tem origem no século XIII. Ela relembra as dores que a Virgem Mãe de Deus suportou ao compartilhar o sofrimento e a morte de seu Divino Filho. 


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

ORAÇÕES INICIAIS

Meu Deus, eu vos ofereço este rosário para a vossa maior glória, desejando honrar a vossa Santa Mãe, a Santíssima Virgem, meditando sobre os seus sofrimentos e participando deles. Ó meu Senhor e Salvador, Jesus Cristo, confiando no vosso amor infinito, recorro a Vós em busca de perdão e misericórdia. Arrependo-me profundamente das dores que sofrestes na vossa amarga Paixão por causa dos meus pecados. Por amor a Vós e em vossa santa presença, renuncio e desprezo por completo todos os pecados da minha vida. Peço-vos perdão de todo o meu coração e me comprometo firmemente a emendar-me, preferindo morrer do que vos ofender novamente.

Ó Virgem Maria, nossa Mãe e o refúgio dos pecadores, invoco-vos agora com confiança e amor. Escondei-me sob o vosso manto de amor e proteção. Ao meditar sobre as espadas de dor que traspassaram o vosso Coração Imaculado, concedei-me o perdão dos meus pecados e a graça de praticar e viver uma vida de santidade. 

Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor.
Enviai o vosso Espírito e renovareis a face da terra.

1ª DOR - A PROFECIA DE SIMEÃO

Simeão os abençoou e disse a Maria, sua mãe: Eis que este menino está destinado a ser ocasião de queda e elevação de muitos em Israel e sinal de contradição. Quanto a ti, uma espada te transpassará a alma (Lc 2,34-35).

MEDITAÇÃO

Ó Mãe das Dores, quão profundamente o vosso coração foi transpassado pela dor quando Simeão anunciou que Jesus, o vosso Filho amado, seria um sinal a ser rejeitado! O vosso coração sabia que Ele seria o Messias sofredor que os profetas haviam predito, o homem de dores, que carregaria todos os nossos pecados e nos curaria por meio de suas chagas. Por essa amarga dor, concedei-nos a graça de nunca rejeitar Jesus nem recusar-lhe nada. Ajudai-nos a entregar completamente nossas vidas a Ele e a viver de acordo com a sua santíssima vontade em tudo.

1 Pai Nosso e 7 Ave Marias

JACULATÓRIA

Ó Mãe de misericórdia, ouvi as minhas orações e renovai sempre em meu coração a memória dos sofrimentos do vosso filho Jesus na sua Paixão e Morte de Cruz.
[outras similares ou orações finais dos mistérios do Terço Tradicional]

2ª DOR - A FUGA PARA O EGITO

O anjo do Senhor apareceu em sonho a José e disse: Levanta, toma o menino e a mãe, foge para o Egito e fica lá até que te avise. Pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo. Levantando-se, José tomou o menino e a mãe, e partiu para o Egito (Mt 2,13-14).

MEDITAÇÃO

Ó Mãe das Dores, que dor não preencheu o vosso coração ao fugir de casa e do vosso país, sabendo que o tirano Herodes estava decidido a assassinar o vosso pequeno filho,  fonte de todo o vosso amor! As dificuldades da viagem, a longa jornada e a vida como refugiada não foram nada comparadas ao tormento de tal malícia demoníaca dirigida a Jesus. Por essa amarga de dor, concedei-nos a graça de nunca colocarmos em risco a vida de Jesus em nossas almas por causa dos nossos pecados.

1 Pai Nosso e 7 Ave Marias

JACULATÓRIA

Ó Mãe de misericórdia, ouvi as minhas orações e renovai sempre em meu coração a memória dos sofrimentos do vosso filho Jesus na sua Paixão e Morte de Cruz.

3ª DOR - A PERDA DE JESUS NO TEMPLO

Acabados os dias da festa da Páscoa, quando voltaram, o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que os pais o percebessem. Pensando que estivesse na caravana, andaram o caminho de um dia e o procuraram entre parentes e conhecidos. E, não o achando, voltaram a Jerusalém à procura dele (Lc 2,43b-45).

MEDITAÇÃO

Ó Mãe das Dores, que dor não preencheu o vosso coração quando procurava desesperadamente por Jesus, com vosso esposo José, sem conseguir encontrá-lo entre vossos parentes e amigos que voltavam para casa de Jerusalém! Mas quando o vosso Filho respondeu que devia ocupar-se dos assuntos do seu Pai, aceitastes que Ele havia iniciado a missão que o levaria à sua morte sacrificial. A dor daqueles três dias de separação preparou-vos para os três dias de sofrimento que iríeis suportar quando o corpo de Jesus jazia sem vida no túmulo. Por esta amarga dor, concedei-nos a graça de aceitar os desígnios da Divina Providência, mesmo quando não os soubermos compreender.

1 Pai Nosso e 7 Ave Marias

JACULATÓRIA

Ó Mãe de misericórdia, ouvi as minhas orações e renovai sempre em meu coração a memória dos sofrimentos do vosso filho Jesus na sua Paixão e Morte de Cruz.

4ª DOR - O ENCONTRO COM JESUS NO CALVÁRIO

Ao conduzir Jesus, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e o encarregaram de levar a cruz atrás de Jesus. Seguia-o grande multidão de povo e de mulheres que batiam no peito e o lamentavam (Lc 23,26-27).

MEDITAÇÃO

Ó Mãe das Dores, como não deve ter sido ferido o vosso coração maternal ao ver o vosso amado Filho Jesus carregando a sua Cruz até o Calvário, o local final da sua execução! Como deve ter sido doloroso para vós vê-lo tão ensanguentado, espancado e injuriado, enquanto Ele fazia cumprir a sua missão até o fim: dar a sua vida em resgate de todos nós. Por esta amarga dor, concedei-nos a graça de nos negarmos a nós mesmos, tomarmos as nossas cruzes e seguirmos Jesus sempre com perseverança e amor.

1 Pai Nosso e 7 Ave Marias

JACULATÓRIA

Ó Mãe de misericórdia, ouvi as minhas orações e renovai sempre em meu coração a memória dos sofrimentos do vosso filho Jesus na sua Paixão e Morte de Cruz.

5ª DOR - AOS PÉS DE JESUS CRUCIFICADO

Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Vendo a Mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse Jesus para a mãe: Mulher, eis aí o teu filho! Depois disse para o discípulo: Eis aí a tua Mãe! (Jo 19,15-27a).

MEDITAÇÃO

Ó Mãe das Dores, eis que profecia de Simeão atinge agora o seu pleno cumprimento: a espada da dor traspassa o vosso coração enquanto permaneceis aos pés da Cruz do vosso Filho! Unida e crucificada espiritualmente com o vosso Filho Crucificado, fizestes junto convosco a oferenda dele ao Pai. Nós não conseguimos compreender a dor da vossa oferta e nem a medida do amor que a inspirastes. Por esta amarga dor, concedei-nos a graça de unir todos os nossos sofrimentos aos do Nosso Senhor Crucificado, com generosidade e amor desinteressados. 

1 Pai Nosso e 7 Ave Marias

JACULATÓRIA

Ó Mãe de misericórdia, ouvi as minhas orações e renovai sempre em meu coração a memória dos sofrimentos do vosso filho Jesus na sua Paixão e Morte de Cruz.

6ª DOR - O CORPO DE JESUS É DESCIDO DA CRUZ

Chegada a tarde, porque era o dia da Preparação, isto é, a véspera de sábado, veio José de Arimatéia, entrou decidido na casa de Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Pilatos, então, deu o cadáver a José, que retirou o corpo da cruz (Mc 15,42).

MEDITAÇÃO

Ó Mãe das Dores, o vosso coração afogou-se em dor ao abraçar o corpo sem vida do vosso Filho! Aquele que era a vossa própria vida estava agora morto. Quem era a vossa luz nesta vida estava agora sem vida. No entanto, aceitastes essa dor com amor, sabendo que tudo fazia parte do plano de salvação do Pai. Por esta amarga dor, concedei-nos a graça de aceitar com paciência e amor as dores que nos sobrevêm neste vale de lágrimas, crendo firmemente que Deus faz com que todas as coisas contribuam para o bem daqueles que o amam.

1 Pai Nosso e 7 Ave Marias

JACULATÓRIA

Ó Mãe de misericórdia, ouvi as minhas orações e renovai sempre em meu coração a memória dos sofrimentos do vosso filho Jesus na sua Paixão e Morte de Cruz.

7ª DOR - JESUS  É SEPULTADO

Os discípulos tiraram o corpo de Jesus e envolveram em faixas de linho com aromas, conforme é o costume de sepultar dos judeus. Havia perto do local, onde fora crucificado, um jardim, e no jardim um sepulcro novo onde ninguém ainda fora depositado. Foi ali que puseram Jesus (Jo 19,40-42a).

MEDITAÇÃO

Ó Mãe das Dores, quem poderia expressar a cruel angústia deste momento? O mesmo Menino que outrora envolveste em fraldas em meio a uma alegria indescritível, agora envolves silenciosamente em
Seu sudário. Tuas lágrimas se misturam com o sangue e a terra que cobrem Seu corpo ferido. Mas mesmo neste momento tua confiança em Sua promessa não morreu. Teu luto não foi sem esperança, pois sabias que Ele ressuscitaria deste sepulcro, assim como prometeu. Por esta amarga dor, concedei-nos a graça de acreditar com esperança inabalável na vitória de nosso Senhor, mesmo nos momentos mais sombrios da vida.

1 Pai Nosso e 7 Ave Marias

JACULATÓRIA

Ó Mãe de misericórdia, ouvi as minhas orações e renovai sempre em meu coração a memória dos sofrimentos do vosso filho Jesus na sua Paixão e Morte de Cruz.

Rezar três Ave-Marias em honra das lágrimas de Nossa Mãe Dolorosa.

ORAÇÃO FINAL

Ó Maria, vós vos tornastes verdadeiramente a Rainha de todos os mártires, pois estas sete espadas amargas de dor prostraram o vosso Coração Imaculado! Pelos méritos da vossa angústia e lágrimas, concedei-nos, a todos nós pecadores, as graças da contrição perfeita e da conversão. Auxiliai-nos sempre, querida Mãe, a vos imitar, suportando as nossas cruzes e seguindo sempre Jesus com amor e generosidade sem medidas. Amém.

Mãe de Deus, que fostes concebida sem pecado e que sofrestes por nós, rogai por nós (Rezar 3x)

[Recomenda-se ainda encerrar esta devoção com a Ladainha das Setes Dores de Nossa Senhora]

quinta-feira, 19 de março de 2026

19 DE MARÇO - SÃO JOSÉ

     

São José, esposo puríssimo de Maria Santíssima e pai adotivo de Jesus Cristo, era de origem nobre e sua genealogia remonta a Davi e de Davi aos Patriarcas do Antigo Testa­mento. Pouquíssimo sabemos da vida de José, além de suas atividades de carpinteiro em Nazaré. Mesmo o seu local de nascimento é ignorado: poderia ser Nazaré ou mesmo Belém, por ter sido a cidade de Davi. Ignora-se igualmente a data e as condições da morte de São José, mas existem fortes razões para afirmar que isso deve ter ocorrido an­tes da vida pública de Jesus. Com certeza, José já teria falecido quando da morte de Jesus, uma vez que não se explicaria, então, a recomendação feita aos cuidados mútuos à mãe e ao filho, dados, da cruz, por Jesus a Maria e a São João Evangelista.

Não existem quaisquer relíquias de São José e se desconhece o local do seu sepultamento. Muitos pais da Igreja defendiam que, devido à sua missão e santidade, São José, a exemplo de São João Batista, teria sido consagrado antes do nasci­mento e já gozava de corpo e alma da glória de Deus no céu, em companhia de Jesus e sua santíssima Esposa. As virtudes e as graças concedidas a São José foram extraordinárias, pela enorme missão a ele confiada pelo Altíssimo. A dig­nidade, humildade, modéstia e pobreza, a amizade íntima com Je­sus e Maria e o papel proeminente no plano da Redenção, são atributos e méritos extraordinários que lhe garantem a influência e o poder junto ao tro­no de Deus. Pedir, portanto, a intercessão de São José, é garantia de ser ouvido no mais alto dos céus. Santa Tereza, ardorosa devota de São José, dizia: 'Não me lembro de ter-me dirigido a São José sem que tivesse obtido tudo que pedira'.

A devoção a São José na Igreja Ca­tólica é antiquíssima. A Igreja do Oriente celebra esta festa, desde o século nono, no domingo depois do Natal. Foram os carmelitas que in­troduziram esta solenidade na Igreja Ocidental; os franciscanos, já em 1399, festejavam a comemoração do Santo Pa­triarca. Xisto IV inseriu-a no bre­viário e no missal; Gregório XV ge­neralizou-a em toda a Igreja. Cle­mente XI compôs o ofício, com os hinos, para a celebração da Festa de São José em 19 de março e colocou as missões na China sob a proteção do Santo. Pio IX introdu­ziu, em 1847, a festa do Patrocínio de São José e, em 1871, declarou-o Pa­droeiro da Igreja; muitos pontífices promoveram solenemente a devoção a São José, por meio de orações, homilias, encíclicas e devoções diversas.

quarta-feira, 18 de março de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (89/92)

 

89. VIVA O PAPA!

Há tempos, numa vila da diocese de Milão, realizou-se a benção da bandeira de um Círculo de Jovens Católicos. A vila estava então dominada pelos vermelhos, sempre velhacos e prepotentes. Os jovens católicos, desafiando as iras do inimigo, saíram da igreja com o seu estandarte erguido e ali, na mesma praça, onde até então ressoara o grito dos anticlericais, fizeram ecoar o grito dos amigos do Vigário de Cristo: 'Viva o Papa!'

Foram agredidos. Defenderam-se galhardamente, mas um deles recebeu uma punhalada na garganta. Conduzido à farmácia, o farmacêutico, antes de fazer o curativo, disse-lhe: 'Durante alguns dias não poderá falar; se tiver algo a dizer, diga-o agora'. O jovem não hesitou um instante e gritou, quanto lhe permitiram as forças: 'Viva o Papa!'

90. PARA O SANTO PADRE

Na época em que a Igreja foi injustamente espoliada dos Estados Pontifícios, algumas nobres damas de Viena promoveram uma coleta do óbulo de São Pedro à porta da igreja de Santo Estêvão. A coisa não agradou a certo senhor anticlerical, o qual quis aproveitar-se da ocasião para desabafar seu ódio mesquinho contra a religião e os seus ministros. 

Passando diante de uma senhora que segurava a salva do óbulo, recusou-se acintosamente a dar-lhe qualquer esmola e, ao invés, voltando-se para uma pobre que mendigava ali ao lado, tirou do bolso uma nota de cem florins e entregou-lhe, dizendo bem alto: 'Isto é para você; prefiro os verdadeiros pobres aos que comem e bebem lautamente e passeiam em carros de luxo'.

A velha mulher ficou por alguns instantes embaraçada; mas, logo, criando coragem, depositou aquele dinheiro na bandeja de uma das damas, dizendo: 'Para o Santo Padre!' e esquivou-se dali, enquanto o anticlerical também se retirava envergonhado.

Presenciara a cena o Conde Chambord, o qual, admirado do gesto daquela pobre mulher, mandou chamá-la e deu-lhe mil florins com suas mais cordiais congratulações. Isso foi uma verdadeira benção para a pobre que morava numa choça e tinha vários filhos a sustentar. Este episódio ensina-nos como devemos amar o Vigário de Cristo e socorrê-lo em suas necessidades.

91. PIO VII E O ALFAIATE

Napoleão I mandara encarcerar o Papa Pio VII em Savona (1809), perto de Gênova. Os soldados da guarda não tinham nenhuma atenção para com o augusto Pontífice, chegando a faltar-lhe até o indispensável.

O venerando ancião, não tendo sequer uma veste decente, pois sua batina branca estava muito rota, pediu-lhes mandassem um alfaiate para a remendar. Mandaram, pois, ao cárcere um alfaiate, o qual, vendo a mísera veste do Papa, ficou muito comovido. E, para que os habitantes da cidade se interessassem pela triste sorte do Pontífice, levou consigo aquela batina veneranda. 

Cada um dos cidadãos queria possuir um fragmento daquela sotaina, como lembrança do Papa. Com as esmolas arrecadadas, pode o alfaiate confeccionar uma esplêndida veste que levou a Pio VII juntamente com o dinheiro que sobrou. O Papa aceitou, agradecido, a batina, mas ordenou que o dinheiro fosse distribuído aos pobres.

Os bons católicos, em todos os tempos, oferecem de boa vontade o seu auxílio para as múltiplas necessidades do Sumo Pontífice.

92. SUBLIME ESPETÁCULO

Quando o Papa Inocêncio II, após o Concílio de Clermont (1131), se preparava para regressar a Roma, julgou não dever abandonar, a França sem dar uma prova de sua gratidão a São Bernardo, visitando com toda a sua comitiva o mosteiro de Claraval. Ali não lhe foram feitos, como em outras abadias, presentes de cavalos, mulas e ricas equipagens; mas a simplicidade toda angélica bem como a terna caridade com que foi recebido agradaram bem mais ao virtuoso Pontífice.

Os monges foram-lhe ao encontro pobremente vestidos, levando à frente uma cruz de madeira tosca e cantando hinos que exprimiam a compunção pela qual estavam dominados. Toda a corte pontifícia ficou edificada com a gravidade e o porte angélico daqueles servos de Deus. Lágrimas de comoção corriam dos olhos de todos os prelados.

Os religiosos, entretanto, aos quais se dirigiam todos os olhares, conservavam os olhos baixos e nada os fez perder o recolhimento. Os visitantes, entrando na igreja e percorrendo o mosteiro, encontraram por toda parte a imagem da pobreza e mudas lições de exímias virtudes. No refeitório, à hora da refeição, foram servidos legumes e pão preto; havia apenas alguns peixes, e dos mais comuns, para o Papa.

Os prelados, contemplando com os olhos da fé aquela pobreza, recordaram-se bem das palavras de Cristo: 'Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino do céu'. Eis, diziam, os pobres que o Altíssimo se compraz de enriquecer de seus dons. Não é, porventura, este abade o grande Bernardo que faz os Papas, aterra os príncipes soberbos, levanta os povos, rege os concílios e os impérios? Ecce sic benedicetur homo qui timet Dominum ['Assim será abençoado aquele que teme o Senhor' (Sl 127,4)].

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 17 de março de 2026

'DEIXAI-OS EM PAZ!'

Ó pecadores cegos e obstinados, ouçam-me agora! Abram os olhos, eu lhes imploro! Abandonem o pecado, implorem pela graça do arrependimento. Convertam-se a Deus, e imediatamente! Não esperem até amanhã; pois amanhã, a vossa situação estará ainda mais desesperadora! Ai de mim! Minhas palavras são em vão! Esses pecadores não têm nem audição, nem visão, nem entendimento. Eles podem, de fato, fazer penitência e emendar-se, pois isso nunca é impossível; mas nunca o farão, porque nunca desejarão fazê-lo. 'Deixai-os em paz' - disse Cristo aos seus discípulos a respeito dos fariseus endurecidos - 'eles são cegos'. 

Ó Senhor misericordioso, devemos deixá-los em paz? E o que será deles? Estarão perdidos para sempre. Devemos, então, ficar olhando enquanto eles correm para o inferno, sem estender a mão para salvá-los? Sim, deixem-nos em paz. Deixem-nos ir para a sua destruição, porque são cegos. Não se preocupem mais com eles; qualquer esforço gasto na tentativa de convertê-los é infrutífero; eles são cegos. 'Deixai-nos em paz!' Ó palavras terríveis! Ó palavras que não são palavras, mas sim tempestades de granizo e raios! Deixem os pecadores obstinados em paz! Não há, então, mais esperança de sua conversão? Eles são rejeitados por Deus e condenados ao inferno? Então, tudo o que posso fazer é dizer-lhes: Ai de vós! Tenho pena de vós; tenho pena de vossa condição miserável, de vossas preciosas almas; e, a menos que um milagre da graça aconteça para restaurar vossa visão espiritual, tenho pena de vós por causa da eternidade infeliz que vos espera!

Por fim, tenho uma palavra a dizer a vocês. Espero que nenhum de vocês se encontre nesse estado miserável de cegueira; e este sermão visa apenas ser uma advertência salutar para dissuadi-los de jamais cair nele. Ah, que Deus nos proteja, a vocês e a mim, disso! 'Andem enquanto têm a luz'. Agora, enquanto seus olhos estão abertos, andem com cuidado, observando rigorosamente os mandamentos divinos; trabalhem pela sua salvação com temor, humildade e amor servil a Deus; odeiem e evitem o pecado acima de todas as coisas, tanto quanto puderem. Acima de tudo, nunca criem o hábito de pecar, pois esse é o próximo passo para a obstinação. 

Se vocês já o são - que Deus nos livre! - pecadores habituais, presos por um amor desmedido a qualquer criatura, tomem imediatamente uma resolução heróica e, por meio de penitência rápida, libertem-se desse estado, 'para que as trevas não os alcancem'. Já fizeram penitência? Então, mantenham-se fiéis a ela e certifiquem-se de nunca mais cometer outro pecado mortal. Talvez o próximo pecado que cometerem seja aquele que despertará tanto a ira e a indignação de Deus que, de acordo com seus decretos insondáveis e, ao mesmo tempo, justíssimos, Ele retirará a sua luz de vocês e os deixará na cegueira, presos em seus próprios desejos. 

Digam a si mesmos todas as manhãs e noites: Quantos pecados eu não cometi durante a minha vida? Não é hora de eu deixar de pecar agora? Ah, detestem seus pecados passados e arrependam-se de todo o coração por terem ofendido a Deus. Quantos são aqueles que, embora seus pecados sejam menos numerosos que os seus, estão agora em estado de cegueira ou estão de fato no inferno! Agradeço a Deus por ter permitido que sua consciência os atormente e por não ter retirado sua luz de vocês. Não peçam mais para que, após esta vida, possam chegar ao pleno gozo da felicidade em uma eternidade feliz. Amém.

(Excertos da obra 'The Penitent Christian', do Pe. Francis Hunolt, 1889)

segunda-feira, 16 de março de 2026

domingo, 15 de março de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma(Sl 22)

Primeira Leitura (1Sm 16,1b.6-7.10-13a) - Segunda Leitura (Ef 5,8-14) - Evangelho (Jo 9,1-41)

  15/03/2026 - QUARTO DOMINGO DA QUARESMA

A CEGUEIRA ESPIRITUAL


O Quarto Domingo da Quaresma é chamado Domingo Laetare ou Domingo da Alegria, e constitui um dos mais festejados do Ano Litúrgico. Por se enquadrar na metade do tempo quaresmal, período este vivido pela Igreja em meio à tristeza e penitências, a liturgia desse domingo se propõe a reacender nos católicos a firme alegria e esperança que devem ser o sustento dos católicos até a plenitude do tempo pascoal. E a alegria e esperanças cristãs se fundem em plenitude na Luz de Cristo.

Na eternidade, veremos Deus face a face. Na terra, vivemos na jubilosa esperança da posse eterna da Plena Visão. E, como cegos, tateamos na penumbra da fé para não nos deixarmos submergir pelas trevas do mundo. Neste domingo, celebramos a luz, a luz de Cristo, que rompe a escuridão de nossa alma cega nos afazeres mundanos. 'Vai lavar-te na piscina de Siloé' (Jo 1,7) é a intimação de Jesus ao mendigo cego de nascença, para lhe curar a cegueira física; 'Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo' (Jo 1, 37) é a confirmação a ele de que está diante do Filho do Homem e pleno da visão de Deus.

Jesus curou o cego de nascença moldando o barro do chão; Jesus nos cura da cegueira espiritual moldando a argila frágil da natureza humana, pelo cinzel da graça e do amor de Deus. Ao se debruçar até o pó, nos dá ciência de que conhece a nossa imensa fragilidade; ao proclamar sua divindade, nos conforta de que somos os herdeiros da divina misericórdia.

E, diante milagre tão portentoso, os fariseus expulsaram o mendigo da sinagoga e se aferraram ainda mais na obstinação dos condenados e, cegos de descrença, mergulharam ainda mais fundo nas trevas do pecado. A perda da visão física é passageira, a perda da visão sobrenatural tem o preço da eternidade. No meio do caminho desta jornada quaresmal, elevemos a Cristo nossas almas frágeis de argila e a Ele supliquemos conservá-las firmemente na direção do Círio Pascal, ao encontro da luz do Cristo Ressuscitado.

sábado, 14 de março de 2026

DIÁLOGO DO HOMEM DOENTE COM CRISTO CONSOLADOR


O homem doente:

Senhor, o dia avança e o sol já começa a declinar: tuas palavras e a tua graça me sustentaram até esta hora, mas novas provações surgem ao meio-dia e, por assim dizer, torrentes ainda mais intensas de sofrimento. Vejo a agitação da vida a meu redor, ouço sons distantes que me falam dos trabalhos diligentes e úteis dos meus semelhantes. O sofrimento e a fraqueza me obrigam a levar uma vida egoísta, assim como o prazer causa egoísmo nos outros. Esse pensamento me enche de tristeza e humilhação, pois, ó meu Deus, Tu me deste um coração para amar-te e uma vontade de trabalhar para a tua glória e o bem dos meus semelhantes.

Por que sou, então, tão impotente, enquanto anseio por servir-te, ou por que o amor e o anseio espirituais sobrevivem à força para exercê-los? Senhor, apaga este fogo sagrado que arde sem propósito em meu coração e apenas torna ainda mais pesado o fardo de uma vida inútil.

Cristo, o Consolador:

A experiência do sofrimento não te ensinou nada, meu filho? Escuta as minhas palavras e guarda-as no coração. De todas as coisas que o homem deve aprender, a mais oculta e misteriosa é o sofrimento. Por mais terno que seja o coração de um homem, ou por mais apurado que seja o seu instinto, ele nunca compreenderá os sofrimentos alheios, a menos que ele próprio tenha sofrido; falará deles como um cego falaria das cores. Daí a incapacidade comum daqueles que nunca conheceram o sofrimento de consolar aqueles que sofrem. Nada pode suprir essa falta; nem o afeto mais caloroso, nem a devoção mais completa. Somente a experiência pessoal pode derrubar a barreira e nos dar a graça de consolar os outros.

Não sentiste isso muitas vezes, meu filho? Que consolo encontraste em teus momentos de fraqueza por parte daquelas pessoas alegres e prósperas a quem a sorte sorriu ininterruptamente? Muitos deles te amavam de verdade e desejavam sinceramente te ajudar; mas, por mais sábias e gentis que fossem suas palavras, faltava sempre aquela palavra que te traria consolo. Essa palavra misteriosa, essa gota de unção sagrada, nada pode ensiná-la à alma a não ser um conhecimento pessoal do sofrimento.

Essa lei é tão profunda e tão universal que até mesmo Eu, que possuo todo o conhecimento, quis sentir todos os segredos da miséria humana na fraqueza da carne, para que assim pudesse tornar-me para o homem aquele Consolador experiente de quem ele tanto necessita em momentos de angústia. Minha participação em suas dores atrai os homens poderosamente a mim; e quando o fogo da provação se abate sobre eles, não é para a contemplação da minha glória no Monte Tabor que se voltam, mas para a minha Cruz no Calvário. Lá, vendo em meus membros sagrados os sulcos de suas próprias aflições, dizem com confiança inabalável: 'Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa ter compaixão de nossas fraquezas; mas um que, em tudo, foi tentado como nós, sem pecado' (Hb 4,15). Esta ciência do sofrimento é tão importante que nada pode compensar a falta dela. Aquele que não a possui, que tenha cuidado ao tentar lidar com as dores dos outros; mas aquele que a possui pode fazer todas as coisas, pois carrega dentro de si um poder de cura.

Aquele que sofreu, que passou por longos anos de dor e aflição, de ansiedade desgastante, de desânimos secretos, de esperanças frustradas e lágrimas solitárias - tal pessoa, se não recebeu sua alma em vão, deve doravante percorrer o mundo como um sacramento vivo do meu consolo. Tal pessoa não pode deixar de exercer uma influência reconfortante sobre as almas sofredoras. Os doentes, os entristecidos, os aflitos, reconhecem-no imediatamente entre os outros homens. Outros podem falar, mas ele é o único que detém o segredo daquela palavra-chave, que encontra o caminho para o coração ferido e age como bálsamo sobre as suas feridas.

Tal pessoa é gentil, terna, paciente diante da dor. Ele sabe que um doente se tornou novamente uma criança e que, se precisa de palavras encorajadoras para despertar as energias adormecidas de sua mente, por outro lado, sua fraqueza requer a indulgência, a tranquilidade e a vigilância de uma mãe. Aquele que foi ensinado pelo próprio sofrimento possui a arte de conduzir suavemente as almas doentes a pensamentos sobre mim. Ele não fará, como alguns fazem, de seu zelo um pretexto para uma dureza que, por si só, provoca e desperta oposição. 'A cana quebrada Ele não quebrará, e o pavio fumegante Ele não apagará' (Is 43,3).

Portanto, alegra-te, ó meu filho, por teres conhecido o que é sofrer, e conforta-te por ainda seres chamado a sofrer; esta iniciação ao sofrimento é um tesouro inefável. Em breve irás procurar os aflitos; ou, se não puderes ir em busca deles, eles virão a ti. Acolhe os aflitos como enviados a ti por mim; acolhe-os como aqueles por quem aprendeste, trabalhaste e sofreste; acolhe-os como aqueles que confiei aos teus cuidados neste mundo. Não precisarás de palavras ensaiadas para falar com eles; abre teu coração e mostra-lhes as cicatrizes de tuas próprias feridas; diz-lhes que sabes o que é sofrer; ouve a história de suas provações e responde-lhes com a plenitude de teu coração. 

Rico neste tesouro de consolo, poderás ir sem medo entre os pobres e os aflitos. Tuas dores desaparecerão diante das dores deles, teus sofrimentos se desvanecerão diante dos sofrimentos deles; esquecer-te-ás de ti mesmo ao ministrar aos outros e, quando a noite chegar, ficarás surpreso ao sentir uma nova vida brotando dentro de ti; e dirás a mim em tua gratidão: 'Senhor, o que é isto que me aconteceu?  Para onde Tu me tens conduzido, e o que eu tenho feito? Não sei como isso aconteceu, mas enquanto me esforçava por fazer algo pelos outros, parece que, na verdade, estava fazendo tudo por mim mesmo; ao tentar curá-los, estava curando minhas próprias feridas; ao procurar consolar os aflitos, enxugava minhas próprias lágrimas; ao me esforçar para acalmar suas dores, perdi a amargura das minhas; ao dar o pouco que tinha, encontrei tudo'.

(Excertos da obra 'Counsels to the Sick", do Abade Henri Perreyve [1831 - 1865])