quarta-feira, 8 de abril de 2026

VERSUS: CARIDADE X CARIDADE


A verdadeira caridade é paciente na adversidade e comedida na prosperidade; é forte no sofrimento doloroso, alegre nas boas obras, perfeitamente segura na tentação; é suave com os verdadeiros irmãos e paciente com os falsos; é inocente nas armadilhas; chora na maldade; respira na verdade. É pura em Susana casada, em Ana viúva, em Maria virgem (Dn 13,1-; Lc 2,36). É humilde na obediência de Pedro e livre na argumentação de Paulo. É humana no testemunho dos cristãos, divina no perdão de Cristo. Porque a verdadeira caridade, queridos irmãos, é a alma de todas as Escrituras, a força da profecia, a moldura do conhecimento, o fruto da fé, a riqueza dos pobres, a vida dos moribundos. Conservai-a pois com fidelidade; amai-a com todo o vosso coração e com toda a força do vosso entendimento (cf Mc 12,30).
(São Cesário de Arles)


Pensas que a caridade é facultativa? Que não se trata de uma lei, mas de um simples conselho? Bem gostaria que fosse assim. Mas assusta-me o lado esquerdo de Deus, esse lado para onde Ele mandou os cabritos, aos quais não censurou o fato de terem roubado, pilhado, cometido adultérios ou perpetrado outros delitos deste tipo, mas o fato de não terem honrado a Cristo na pessoa dos seus pobres. Por isso, se me julgais dignos de alguma atenção, servos de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, honremos a Cristo, não só sentando-o à nossa mesa como Simão, não só ungindo-o com perfumes como Maria, não só dando-lhe sepulcro como José de Arimateia, não só provendo o necessário para a sua sepultura como Nicodemos, não só, finalmente, oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra como os magos. Mas, uma vez que o Senhor do universo prefere a misericórdia ao sacrifício (cf Mt 9,13), uma vez que a compaixão tem muitos mais valor que a gordura de milhares de cordeiros, ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao sairmos deste mundo, sejamos recebidos nas moradas eternas (cf Lc 16,9) pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor, a quem seja dada glória pelos séculos dos séculos..

(São Gregório de Nazianzeno)

terça-feira, 7 de abril de 2026

SOBRE A AVAREZA ESPIRITUAL

Muitos principiantes têm às vezes também grande avareza espiritual. Mal se contentam com o espírito que Deus lhes dá, andam muito desconsolados e queixosos por não acharem, nas coisas espirituais, o consolo desejado.

Muitos nunca se fartam de ouvir conselhos e aprender regras de vida espiritual; querem ter sempre grande cópia de livros sobre este assunto. Ocupam-se mais em ler do que em se exercitarem na mortificação e perfeição da pobreza interior do espírito como deveriam.

Além disto, carregam-se de imagens e rosários, ora deixam uns, ora tomam outros; vivem a trocá-los e destrocá-los; querem-nos, já desta maneira, já daquela outra, afeiçoando-se mais a esta cruz do que àquela, por lhes parecer mais interessante. Também vereis a outros bem munidos de Agnus Dei, relíquias e santinhos, como as crianças com brinquedos.

Condeno, em tudo isto, a propriedade do coração e o apego e curiosidades destas coisas; pois esta maneira de agir é muito contrária à pobreza de espírito, que só põe os olhos na substância da devoção, e se aproveita somente do que lhe serve para tal fim, cansando-se de tudo mais.

A verdadeira piedade há de brotar do coração, firmando-se na verdade e solidez assertivas destas coisas espirituais; o resto é mero apego e desserviço de imperfeição, o qual é necessário cortar a fim de se atingir algo da perfeição.

(Excertos da obra 'A Noite Escura da Alma', de São João da Cruz)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVI)

       

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XI. Sobre a proclamação da sentença sobre os bons e os maus

O que foi dito até agora a respeito do Juízo Final é, de fato, algo terrível, mas o que está por vir é ainda maior: estamos prestes a falar da sentença pronunciada sobre os ímpios e de como eles serão lançados no inferno. Isso é tão terrível que nada em toda a eternidade pode ser comparado a tal horror.

Quando o Juiz supremo tiver sondado os corações de todos os homens e pesado todas as suas ações na balança da justiça, quando tudo tiver sido revelado e manifestado ao mundo inteiro, Ele proferirá sentença sobre os bons e sobre os maus. Primeiro, Ele voltará um rosto bondoso para os seus eleitos (que estarão à sua direita) e dirigirá a eles as palavras consoladoras: 'Vinde, ó benditos do meu Pai, possuí o reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes; estava nu e me vestistes; estava doente e me visitastes; estava na prisão e viestes ter comigo' (Mt 25,34-36).

'Vocês foram fiéis a mim até o fim das suas vidas. Desprezaram o mundo e todas as coisas do mundo, amaram-me e buscaram acima de tudo promover a minha glória. Sofreram muito enquanto estavam na terra, realizaram árduas obras de penitência, foram desprezados e oprimidos pelos adeptos do mundo e pelos ímpios. Mas agora o tempo do sofrimento terminou e o tempo da felicidade começa; vossa tristeza se transformará em alegria, alegria eterna que nenhum homem poderá tirar de vós. Vinde, pois, ó meus amigos, vinde, vós, abençoados e escolhidos do meu Pai celestial, vinde do trabalho para o descanso, vinde da tristeza para a alegria, vinde dos reinos das trevas para as regiões da luz, vinde da terra para o Céu. Vinde e possuí a pátria celestial, pela qual tantas vezes ansiastes, vinde e reinai comigo para sempre, pois por vossas boas obras merecestes esta recompensa. Vossa felicidade perdurará enquanto eu for Deus, e na minha presença desfrutareis da bem-aventurança do Céu por toda a eternidade'.

Os corações dos eleitos transbordarão de alegria, consolo e deleite ao ouvirem estas palavras amorosas. Eles erguerão os olhos para o rosto benigno de seu Juiz e dirão a Ele com alegria e gratidão: 'Deus e Senhor misericordioso, vossa bondade para conosco é infinita, e vossa generosidade não conhece limites. Como merecemos receber de Vós uma tal recompensa? O que fizemos para merecer a felicidade sem fim? É somente por vossa misericórdia e caridade infinita que Vós nos acolheis em vosso reino de glória. Sede bendito para sempre; nossa boca exaltará a vossa majestadade para sempre!'

Depois disso, Cristo ordenará aos seus Anjos que tragam todos os santos diante de si. E, à medida que se aproximarem do seu trono, Ele as revestirá com uma vestimenta de glória, brilhante e bela, de modo que brilhem como estrelas. Sobre suas cabeças, colocará coroas de ouro de brilho incomparável e, em suas mãos, colocará lírios, rosas, ramos de palmeira e um cetro, para simbolizar a vitória que alcançaram sobre o mundo, a carne e o demônio.

Os perdidos testemunharão a glória e a exaltação dos santos. Ouvirão seus gritos de triunfo, e isso lhes será como fel e absinto. Rangerão os dentes de raiva e remorso; todo o prazer que sentiam em seus pecados agora se foi. Chorarão e lamentarão, e dirão, em meio a soluços de profundo desespero: 'Ai de nós, quão infelizes, quão miseráveis somos! O que fizemos! Vede aqueles a quem outrora desprezávamos, agora tão felizes, tão extasiados, tão honrados e glorificados, e nós, que os desprezávamos, estamos agora tão infelizes, tão miseráveis, tão desonrados, marcados para sempre com todos os sinais de reprovação! E, no entanto, poderíamos ter conquistado para nós o mesmo destino glorioso que eles; o trabalho e a dificuldade não teriam sido além de nossas forças. Mas nós, em nossa maldita loucura, desperdiçamos o Bem Supremo e nos privamos da felicidade eterna em troca de prazeres sem valor e passageiros. Ó que loucura, que insanidade da nossa parte! Como pudemos nos deixar deslumbrar a tal ponto pelas vis devassidões do mundo!'

Depois que esses seres infelizes tiverem lamentado sua miséria por um tempo considerável, a trombeta voltará a emitir um som poderoso. Esse toque da trombeta anunciará a sentença proferida sobre os réprobos e imporá silêncio a todos os presentes. Então, o Juiz se voltará para os ímpios e, olhando para eles com um rosto inflamado de santa ira, dirá: 'Ó pecadores tolos e cegos! Chegou agora o dia terrível de que vos falei quando estava na terra: o dia, a hora do julgamento. Agora está diante de vós Aquele a quem sempre vos mostrastes inimigos. Em vossa presunção arrogante, causastes todo tipo de dor e dano a mim, à minha Igreja, aos meus irmãos e irmãs, a todos os filhos de Deus. Contemplem as feridas que me infligiram; contemplem o lado que perfuraram; contemplem a Cruz na qual me cravaram; contemplem o pilar no qual me açoitaram e, ao qual, nos anos seguintes, amarraram a minha Igreja, minha esposa imaculada, século após século, lacerando e rasgando sua carne com o açoite de vossa zombaria insolente, vossa incredulidade, vossos escândalos, vossas seduções, vossos atos infames de todo tipo'.

'Por amor a vós, desci do Céu e, por amor a vós, suportei as crueldades da morte. E, no entanto, o meu amor, tão maravilhoso em sua extensão, não despertou resposta em vossos corações, não encontrou amor em troca; pelo contrário, rejeitastes-me com desprezo e ódio quando me apresentei à porta de vossos corações como um suplicante, desejoso de obter admissão ali. Quantas vezes Eu vos chamei e vós não quisestes me ouvir. Estendi as minhas mãos para vós, mas vós vos afastastes do meu abraço. Recorri a ameaças, visitei-vos com muitos castigos amorosos, mas vós não quisestes curvar o vosso pescoço orgulhoso sob o meu jugo suave. Escolhestes deliberadamente servir ao demônio como vosso deus e, por isso, partilhareis agora o seu destino e estareis com ele no abismo da condenação por toda a eternidade. Eu também rirei da vossa destruição. Eis que os meus servos, todos os justos, comerão e se fartarão, enquanto vós passareis fome eternamente. Aos meus servos será dado beber em abundância, enquanto vós tereis sede, e a vossa sede nunca será saciada. Os meus servos se alegrarão e vós chorareis. Meus servos exultarão em êxtase perpétuo e vós gritareis em agonia e desespero. Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para o demônio e os seus anjos. Pois tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era estrangeiro e não me acolhestes, estava nu e não me vestistes, fiquei doente e na prisão e não me visitastes'.

Este veredito, pronunciado pelo Juiz justo, atingirá os ouvidos dos condenados como um trovão; eles cairão prostrados no chão, oprimidos por estas palavras terríveis, e então lançarão tal grito de desespero e raiva, que os próprios Céus e a terra tremerão com o som: 'Ai de nós, malditos e miseráveis que somos! Agora seremos banidos da presença de Deus e dos santos para toda a eternidade! Teremos de arder para sempre e sempre com os demônios nas chamas do inferno! Ide para o fogo eterno! Ó que sentença terrível dos lábios do nosso Juiz! Fogo eterno! Tormento eterno! Nenhuma esperança de salvação! Ai de nós, pecadores miseráveis; ai de nós, ai de nós!

Assim, as almas perdidas se queixarão, chorarão e se lamentarão. Contudo, o tempo da graça já passou; a sentença foi proferida; não há mais misericórdia, nem clemência para elas. 'Compreendam estas coisas, vós que vos esquecestes de Deus; para que Ele não vos arrebate e não haja quem vos livre (Sl 49,22). Sim, compreendam isso, ó infelizes pecadores, e zelem para que um destino semelhante não vos alcance. Pensem em como se sentiriam se estivessem entre esses réprobos. Considerem o que desejariam ter feito e o que dariam como preço de resgate, se fosse possível serem libertados. Pois bem, façam agora o que desejariam ter feito então. Confessem e lamentem seus pecados enquanto ainda há tempo e supliquem a Deus que os preserve do tormento sem fim.

ORAÇÃO

Ó Deus misericordiosíssimo, Vós nos dissestes pela boca do vosso profeta: 'No tempo aceitável, eu te ouvirei, e no dia da salvação, eu te ajudarei' (Is 49,8). Eis que agora é o dia da salvação; por isso, invoco-vos e, com a maior confiança e do fundo do meu coração, suplico-vos que me concedais graça e ajuda na medida das minhas necessidades, para que eu não seja rejeitado. Pois os mortos não vos louvam, ó Senhor, nem aqueles que descem ao inferno, mas os vivos, nós que vivemos em vossa santa presença, exaltaremos o vosso santo nome para sempre. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 5 de abril de 2026

BÊNÇÃO URBI ET ORBI - PÁSCOA 2026


SEMANA SANTA MAIOR: PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO

 SOLENIDADE DA RESSURREIÇÃO DE NOSSO SENHOR

'Haec est dies quam fecit Dominus. Exultemus et laetemur in ea
— 
'Esse é o dia que o Senhor fez. Seja para nós dia de alegria e felicidade'
 (Sl 117, 24)

Cristo ressuscitou! Eis a Festa da Páscoa da Ressurreição, a data magna da cristandade. Por causa da ressurreição de Jesus, podemos ter fé e esperança, obter o perdão dos nossos pecados e a salvação de nossas almas. Com a ressurreição de Jesus, a morte foi vencida. E as Portas do Céu foram abertas para toda a eternidade.

'Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?' 
(1 Cor 15, 55)

 

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!' (Sl 117)

Primeira Leitura (At 10,34a.37-43) - Segunda Leitura (Cl 3,1-4) - Evangelho (Jo 20,1-9)

  04/04/2026 - DOMINGO DA PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO


Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos! A mão direita do Senhor fez maravilhas, a mão direita do Senhor me levantou. Não morrerei, mas, ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor! Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Eis o grande dia do Senhor, em que a vida venceu a morte, a luz iluminou as trevas, a glória de Deus se impôs aos valores do mundo. Jesus veio para fazer novas todas as coisas, abrir o caminho para o Céu, eternizar a glória de Deus na alma humana. Cristo Ressuscitado é a razão suprema de nossa fé, penhor maior de nossa esperança, causa de nossa alegria, plenitude do amor humano. Como filhos da redenção de Cristo, cantamos jubilosos a Páscoa da Ressurreição: 'Tende confiança! Eu venci o mundo' (Jo 16, 33).

O Triunfo de Cristo é o nosso triunfo pois o o Homem Novo tomou o lugar do homem do pecado. Mortos para o mundo, tornamo-nos herdeiros da ressurreição da nova vida em Deus: 'Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus (Cl 3, 1-3).

Entremos com Pedro no sepulcro agora vazio de Jesus: 'Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte' (Jo 20, 6 -7). Este sepulcro vazio é a morte do pecado, a vitória da vida sobre a morte: 'Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?' (1 Cor 15, 55). Jesus ressuscitou! Bendito é o Senhor dos Exércitos que, com a sua Ressurreição, derrotou o mundo e nos fez herdeiros do Céu! Este é o dia da alegria suprema, do triunfo da vida, do gáudio eterno dos justos. Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!

Hæc est dies quam fecit Dominus. Exultemus et lætemur in ea!

sábado, 4 de abril de 2026

SEMANA SANTA MAIOR: SÁBADO SANTO

     VIGÍLIA PASCAL

Estamos prostrados em silêncio diante o Santo Sepulcro. Hoje é o dia da bênção do Fogo Novo, do Círio Pascal, da renovação das nossas promessas do batismo. Cantamos o Exultet com Maria. Com Maria, Mãe de todas as vigílias, aguardamos, em súplice espera, a Ressurreição do Senhor.


Vamos nos juntar à devoção com que Maria, o discípulo amado, Maria Madalena e as santas mulheres recolheram, em seus braços, o corpo de Jesus descido da cruz por José de Arimatéia e Nicodemos. Com que ternura e amor Maria considera todas as suas chagas, olha todo o seu corpo dilacerado, beija todas as suas feridas! E o discípulo amado, como se projeta sobre aquele peito em que havia repousado a cabeça na noite anterior! Como o beija e se acende de vontade de se enterrar naquele peito aberto! E Madalena, como abraça os sagrados pés, de quem recebera o perdão; como os lava com as suas lágrimas e os enxuga com os seus cabelos! Entremos nos piedosos sentimentos dessas almas santas.

I - O QUE NOS ENSINA O ENTERRO DE NOSSO SENHOR

Este mistério nos ensina primeiro COMO DEVEMOS COMUNGAR. Depois que o adorável corpo foi deposto da cruz, Nicodemos trouxe cem libras de um perfume precioso, composto de mirra e aloés, para embalsamá-lo. José de Arimatéia ofereceu-se para envolvê-lo em linho branco e para levar o corpo até um sepulcro novo, talhado na rocha, que ainda não tinha sido utilizado; depois, a entrada do túmulo foi fechada por uma pedra, ficando sob a guarda da autoridade pública e a custódia de soldados. 

QUANDO O CORPO DE NOSSO SENHOR CHEGA ATÉ NÓS NA SAGRADA COMUNHÃO, DEVEMOS TAMBÉM ENVOLVÊ-LO COM O PERFUME DAS SANTAS INTENÇÕES, COM O PERFUME DAS BOAS OBRAS, COM A APRESENTAÇÃO DE UM CORAÇÃO PURO DA INOCÊNCIA, FIGURADA NAQUELE LINHO SEM MANCHA; COM UMA RÍGIDA DETERMINAÇÃO DE FAZER O BEM TAL QUAL A PEDRA DO SEPULCRO; UMA CONSCIÊNCIA INTEIRAMENTE RENOVADA PELA PENITÊNCIA; E, DEPOIS DA COMUNHÃO, DEVEMOS CERRAR AS PORTAS DO NOSSO CORAÇÃO COM A PEDRA E O SELO DO NOSSO RECOLHIMENTO, FRENTE A MODÉSTIA, MESURAS E ATENÇÃO COM NÓS MESMOS, COMO GUARDAS VIGILANTES PARA IMPEDIR QUE NOS ARREBATEM O TESOURO PRECIOSO QUE ACABAMOS DE RECEBER.

É assim que fazemos? Este mistério nos ensina, em segundo lugar, AS TRÊS PREMISSAS QUE CONSTITUEM A MORTE ESPIRITUAL A QUE ESTÁ CHAMADO TODO CRISTÃO, segundo a doutrina do Apóstolo: 'tomai-vos por mortos, porque mortos estais e vossa vida está escondida com Cristo em Deus'. O primeiro dessas premissas é AMAR A VIDA OCULTA; estar como morto, em relação a todas as coisas que podem ser ditas ou pensadas sobre nós, não buscar nem ver o mundo, nem ser visto por ele. Jesus, na noite do seu sepultamento, dá-nos esta lição. Que o mundo nos esqueça e até nos possa pisar, pouco nos importa. Nós não devemos nos preocupar com isso, mais do que se importa um morto. A felicidade de uma alma cristã é se esconder em Jesus e em Deus. Nossa perversa natureza se compraz em deleitar-se, em querer ser louvado, amado, ser distinguido de reputação e amizades; não lhe façamos caso; quanto mais sensível e extremado sejamos ao apreço dos outros, mais indigno este se torna e maior é a nossa necessidade de privar-nos dele. Que se nos livre da reputação, para que em nada nos levem em conta, que nem pensem em nós, que nos olhem com horror. Faça-se, Senhor, Vossa Santa Vontade! 

A segunda premissa da morte espiritual é USAR OS BENS SENSÍVEIS POR NECESSIDADE, SEM DAR-LHES NENHUMA IMPORTÂNCIA; não nos deleitar com a preguiça nem com os prazeres da vida, nem os prazeres da gula, nem a satisfação da curiosidade que quer ver e saber de tudo; estar, em suma, como mortos para os prazeres dos sentidos. Nesta segunda premissa é preciso juntar O ABANDONO DE SI MESMO À DIVINA PROVIDÊNCIA, abandono que, tal como um cadáver, nos deixamos levar, sem argumentar e nem querer ou desejar qualquer coisa, indiferentes a todas as coisas e a todas as ocupações. Quando deixarei de me amar desordenadamente? Quando morrerei em mim para viver somente em Vós?

II - O QUE NOS ENSINA A DESCIDA DA ALMA DE JESUS AO LIMBO

Este mistério nos ensina, em primeiro lugar, O AMOR DE JESUS AOS HOMENS. Ao deixar o sagrado corpo, sua santa alma poderia ter-se apresentado diante de Deus para descansar ali todas as suas dores; mas o seu amor para os homens o inspirou a descer ao limbo para consolar os Patriarcas e anunciar-lhes que, dentro de quarenta dias, eles o iriam acompanhar ao paraíso. É assim, pois, que o amor de Jesus não tem repouso. Após sua morte, como em sua vida, fez todo o bem possível aos homens. Obrigado, ó Jesus, mil vezes obrigado por este esforço em nos fazer tanto bem. 

Este mistério nos ensina, em segundo lugar, O NOSSO AMOR A JESUS. À vista dessa santa alma, os justos retidos não podem conter o seu júbilo e entoam cânticos de louvor, gratidão e amor, e entregam todos os seus corações ao Deus libertador. Eis aí os nossos modelos: Por que teríamos menos gratidão e amor, uma vez que Jesus morreu por nós e por eles, porque nos ama como amou a eles e, como a eles, nos prometeu seu Paraíso?

(Excertos da obra 'Meditações para todos os dias do ano para uso do clero e dos fieis', de Pe. Andrés Hamon, Tomo II).