quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (I)


📌 Mártires (De martyribus)

1. Na língua grega, os 'mártires' (martyr) são chamados, em latim, 'testemunhas' (testis); daí também os 'testemunhos' serem chamados, em grego, martyria. E são chamados testemunhas porque, em razão do testemunho (testimonium) que deram de Cristo, padeceram seus sofrimentos e combateram pela verdade até a morte.

2. Embora pudéssemos chamá-los 'testes', empregando o termo latino, nós os chamamos 'mártires', segundo o grego, porque essa palavra grega tornou-se bastante familiar aos ouvidos da Igreja, assim como muitos outros termos gregos que empregamos em lugar dos latinos.

3. O primeiro mártir do Novo Testamento foi Estêvão, cujo nome, na língua hebraica, é interpretado como 'estandarte', pois, em seu martírio, ele foi o primeiro modelo proposto à imitação dos fiéis. O mesmo nome, traduzido da língua grega para o latim, significa 'o coroado'; e isso de modo profético, porque, por certa previsão do futuro, seu nome anunciava antecipadamente aquilo que haveria de acontecer: ele sofreu e recebeu aquilo que seu nome significava. Assim, 'Estêvão' quer dizer 'coroado': na humildade, foi apedrejado; na glória, porém, foi coroado.

4. Há, além disso, duas espécies de martírio: uma consiste no sofrimento manifesto; a outra, na fortaleza oculta da alma. Com efeito, muitas pessoas, suportando as ciladas do inimigo e resistindo a todos os desejos carnais, tornaram-se mártires mesmo em tempos de paz, porque se ofereceram, em seus corações, como sacrifício a Deus Todo-Poderoso. São precisamente aquelas que, se sobreviesse um período de perseguição, também poderiam ter sido mártires.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

O DESEJO DE AGRADAR A DEUS

Dê rédeas soltas ao seu desejo por Deus; o amor é mais desejável do que a vida neste mundo. Deixe-se ser barro em suas mãos, confiando em sua vontade para você, seja na adversidade ou na glória. Todo desejo deve ser aperfeiçoado ao ser consumido pelo fogo do amor de Deus, e o desejo de agradar a Deus deve estar acima de todos os outros.

Quando morreremos para todas as coisas, para que possamos viver somente para Deus? Ah, sim, quando chegará esse momento? Ó morte preciosa! Mais desejável que a vida; morte que, pelo amor, nos transforma em Deus! São João Crisóstomo disse: Silentium, quod lutem prabet figulo, idem ipse prabe conditori tuo. Oh, que frase! Ele disse: 'Assim como o barro permanece silencioso nas mãos do oleiro, assim também você deve permanecer em silêncio nas mãos do seu Criador'. O barro permanece silencioso, quer o oleiro o molde em um vaso de honra ou de ignomínia; quer o quebre ou o jogue fora; ele se contenta em ser descartado ou colocado em uma galeria de arte. Grave este ensinamento em sua memória.

Até mesmo os desejos mais sagrados, sejam eles referentes à salvação das almas ou às grandes necessidades da Igreja, devem ser consumidos no fogo do amor de Deus, do qual brotam, e aguardam o tempo divino para sua realização. Enquanto isso, cultive um desejo, o mais perfeito de todos: agradar a Deus cada vez mais e alimentar-se da sua Santa Vontade.

(São Paulo da Cruz)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVI)

  

PARTE III - O INFERNO

VIII. Sobre a eternidade

Nas páginas precedentes, apresentou-se ao leitor uma breve descrição dos tormentos do Inferno; agora, é a eternidade que deve ocupar a nossa atenção - assunto sobre o qual não é fácil escrever nem falar. Os tormentos do Inferno são todos tão horríveis e aterradores que bastam para fazer tremer até o homem mais corajoso. Mas o pensamento da eternidade é tão terrível que uma séria consideração a seu respeito é quase suficiente para fazer uma pessoa perder o juízo. Pois, neste mundo, por mais atribulado que um homem possa estar, ele possui uma fonte segura de consolação: sabe que, mais cedo ou mais tarde, a sua miséria terminará.

É próprio da natureza humana cansar-se de tudo depois de algum tempo, até mesmo das coisas que lhe são agradáveis e correspondem aos seus gostos. Se um homem fosse obrigado a permanecer o dia inteiro sentado à mesa, acabaria por sentir repugnância pelos alimentos colocados diante dele. Se alguém fosse forçado a dormir, dia e noite, durante uma semana inteira, no leito mais macio e confortável, como lhe pareceria longo aquele tempo! Se o mais ardoroso amante da dança fosse obrigado a continuar, dia e noite e sem descanso, essa sua diversão favorita, acabaria por adquirir por ela uma profunda aversão.

E, se assim acontece com as coisas conformes à nossa natureza e às nossas inclinações, o que sucederia com aquelas que nos são desagradáveis e repugnantes? Se uma pequena pedra entrasse no sapato de alguém e, como penitência, ele tivesse de conservá-la ali durante uma semana inteira, isso lhe pareceria quase intolerável. E, se uma leve dor ou incômodo se torna, após algum tempo, terrivelmente penoso, como se poderia suportar continuamente uma doença grave ou um verdadeiro sofrimento, sem murmuração nem impaciência?

Se fosse possível que um infeliz pecador fosse condenado a permanecer deitado numa fornalha, amarrado de pés e mãos, durante um ano inteiro, não o privaria a dor do uso da razão? Ninguém poderia ter o coração tão endurecido que não sentisse a mais profunda compaixão por uma pessoa assim atormentada. Contemplai agora o abismo do Inferno, e ali vereis milhares e milhares dessas infelizes criaturas no lago de fogo e de tormentos. Muitas delas já passaram vinte, cem, mil e até cinco mil anos nesse terrível estado de sofrimento.

Mas o que as espera? Não outros cinco mil anos, nem cem mil, nem mil vezes mil anos dessa terrível agonia: elas deverão suportá-la pelos séculos dos séculos. Diante delas está a eternidade, sem conforto nem consolação, sem graça nem misericórdia, sem mérito nem recompensa, sem a mais tênue esperança de libertação. É isso que torna tão incomensurável o tormento dos condenados; é isso que os leva ao furor e ao desespero.

Que imaginais ser realmente a eternidade? Qual será a sua duração? A eternidade é algo que não tem princípio nem fim. É um tempo sempre presente, que jamais passa. Assim, os tormentos dos condenados nunca terminarão, nunca passarão. Quando tiverem transcorrido mil anos, outros mil começarão, e assim por toda a eternidade. Nenhum dos condenados pode calcular há quanto tempo está no Inferno, porque ali não existe sucessão de dias e noites, nem divisão do tempo, mas uma noite contínua e eterna, desde o primeiro instante de sua entrada no Inferno e para sempre.

E, se quiserdes formar uma pálida ideia da eternidade, imaginai que todo o globo terrestre fosse composto de grãos de painço e que, a cada ano, viesse um pássaro e retirasse um desses pequeninos grãos. Que número infinito de anos teria de transcorrer antes que toda a Terra fosse consumida dessa maneira! Mais ainda: quantos milhares de anos não teriam de passar antes que uma única pequena colina fosse consumida! É impossível fazer qualquer estimativa desse número.

Talvez penseis que seria necessária toda a eternidade para destruir a Terra mediante um processo tão lento. Mas acreditai-me: ela poderia ser destruída muitas vezes antes que a eternidade chegasse ao fim. Pois a Terra, por fim, desapareceria, ainda que apenas um único grão fosse retirado de toda ela a cada século; mas a eternidade não pode terminar, porque nada se pode retirar dela. Quão terrível é esse pensamento! É verdadeiramente aterrador quando alguém procura compreendê-lo.

Os condenados se alegrariam e dariam graças a Deus se pudessem esperar que, depois de milhões e milhões de anos de tormentos, seriam finalmente libertados de sua miséria. Mas não há esperança alguma de que sejam finalmente libertados das penas do Inferno. Ninguém que reflita seriamente sobre isso pode deixar de se sentir tomado de assombro e horror. Ó Deus, quão terrível sois! Quão grande é a vossa severidade! Como podeis Vós, Pai das misericórdias, contemplar essas infelizes criaturas condenadas a tais suplícios pelos séculos dos séculos? Como podeis ouvir, sem vos comover, os seus gritos de desespero?

Tudo isso nos ensina quão grave deve ser todo pecado mortal, uma vez que Vós, Deus infinitamente misericordioso, podeis condenar o pecador à perdição eterna por um único pecado mortal. Ó cristão, suplico-vos, em nome de tudo o que é santo: não pequeis com tanta facilidade; não considereis o pecado mortal como coisa de pouca importância. Vede quão terrível é o castigo infligido aos infelizes pecadores. Talvez vos pareça quase inacreditável que Deus, cuja misericórdia é infinita, possa impor a uma de suas frágeis criaturas um castigo sem fim por um único pecado mortal.

Entretanto, assim é; e é igualmente verdade que um homem que tenha levado uma vida piedosa, se antes de morrer tiver a indizível desventura de cometer um pecado mortal e morrer sem arrependimento, será entregue à perdição eterna. O salmista não pôde deixar de manifestar a sua admiração diante disso; com efeito, parece considerá-lo quase impossível. Ouvi as suas palavras: 'Pensei nos dias antigos e tive presentes os anos eternos. E meditei de noite em meu coração; exercitei-me e perscrutei o meu espírito. Acaso Deus nos rejeitará para sempre? Ou nunca mais nos será favorável? Ou retirará para sempre a sua misericórdia, de geração em geração? Acaso Deus se esquecerá de usar de misericórdia? Ou, em sua ira, encerrará as suas misericórdias?' (Sl 76,6-10). Em outro salmo, ele responde a essas perguntas: 'O homem não poderá dar a Deus o seu resgate, nem o preço da redenção de sua alma; padecerá eternamente e ainda viverá até o fim; isto é, será atormentado para sempre e, contudo, continuará a viver (Sl 48,9-10).

A razão pela qual Deus, infinitamente misericordioso, pune o pecado mortal com um castigo eterno e nunca mais o perdoa é que o pecador, depois de condenado, não despertará em seu coração a contrição e o arrependimento, nem pedirá perdão a Deus. Pois, se alguém morre em pecado mortal, fica de tal maneira endurecido nele que jamais o abandonará por toda a eternidade. E, porque Deus o entregou à perdição, ele concebe contra Deus um ódio tão intenso que procuraria ofendê-lo de todas as maneiras que pudesse.

Em vez de se humilhar diante de Deus e implorar o seu perdão, preferiria suportar tormentos ainda maiores no Inferno. Portanto, porque o pecador não quer arrepender-se de seus pecados nem pedir perdão por eles, permanece eternamente em estado de pecado; e, como o seu pecado jamais é expiado nem objeto de arrependimento, também o castigo é eterno. Pois Deus não cessa de punir enquanto o pecador não se arrepende, não deplora o seu pecado e não pede perdão. Vê-se, portanto, que Deus não comete injustiça alguma contra o réprobo quando o submete a um castigo eterno, pois a justiça divina exige que, se o pecado permanece eternamente, também a pena correspondente a esse pecado seja eterna. 

Talvez se possa imaginar que os condenados se acostumem aos seus tormentos e que, por fim, se tornem insensíveis e quase indiferentes a eles. Isso está muito longe da verdade. Os condenados sentem os seus tormentos em toda a sua intensidade e sempre no mesmo grau. Cada um dos infelizes habitantes do Inferno sente agora os seus sofrimentos com a mesma intensidade com que os sentiu na primeira hora de sua condenação; e continuará a senti-los com igual violência depois de transcorridos milhares e milhares de anos.

Ora, porque os condenados sabem perfeitamente que jamais serão libertados do Inferno, mas deverão permanecer ali para sempre; porque sabem que os terríveis tormentos que suportam nunca terão fim; porque sabem que nenhuma criatura jamais se compadecerá deles, mas que todas reconhecerão a justiça de sua condenação - por tudo isso, começam a desesperar-se e a amaldiçoar a si mesmos e tudo quanto a mão de Deus criou.

O seu desespero apenas aumenta os seus sofrimentos. Podemos comprovar isso pelo exemplo de nossos semelhantes na Terra quando se entregam ao desespero. É impossível fazer alguma coisa por um homem desesperado: ninguém pode ajudá-lo ou consolá-lo; ninguém pode confortá-lo nem fazê-lo recobrar a razão. Ele se parece com um espectro; delira e se enfurece como o próprio demônio; declara que porá fim à própria vida, que se afogará ou se enforcará; destrói tudo o que encontra pelo caminho; amaldiçoa todos os homens e todas as coisas. É isso que os condenados fazem em seu desespero e, desse modo, atormentam a si mesmos ainda mais do que os demônios podem atormentá-los. Gritam e uivam, amaldiçoam e blasfemam, agitam-se e enfurecem-se; numa palavra, comportam-se como se fossem demônios encarnados.

Em sua fúria e malignidade, atacam-se uns aos outros com a mais feroz animosidade; mais ainda: em seu desesperado frenesi, procuram por todos os meios possíveis estrangular a si mesmos. Contudo, os seus esforços são inúteis. Tudo o que conseguem é aumentar os próprios tormentos e infligir a si mesmos novas dores. Quem dera que todo pecador obstinado gravasse isso profundamente em seu coração e tomasse cuidado para não se tornar, algum dia, presa desse desespero eterno!

'É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo' - diz São Paulo (Hb 10,31). Se agora temermos o Inferno, não teremos motivo para temê-lo nem padecê-lo na outra vida. Todos possuem razões suficientes para temê-lo. Os justos e os santos devem temer o Inferno, porque ainda podem cair nele. Enquanto permanecerem na Terra, estarão cercados não apenas por perigos exteriores, mas também por perigos interiores. Fora deles está o mundo, com os seus atrativos, escândalos, tentações e respeitos humanos.

Dentro deles habitam paixões violentas e uma vontade fraca. Um único pecado mortal é suficiente para causar a sua condenação ao abismo infernal. Quantos estão agora no Inferno que, durante algum tempo, se distinguiram por sua piedade e virtude, mas que gradualmente se tornaram negligentes no serviço de Deus e, por fim, caíram em pecado mortal e morreram sem se terem reconciliado com Deus! Até mesmo a grande Santa Teresa esteve em perigo de condenação, pois Deus lhe mostrou o lugar que lhe estava reservado no Inferno caso ela não abandonasse determinadas faltas.

Os maiores santos estremeceram e tremeram ao pensar no perigo em que se encontravam de cometer um pecado mortal e, por causa dele, serem condenados aos tormentos intermináveis do Inferno. São Pedro de Alcântara, que praticou tão grandes penitências, temia, mesmo em seus últimos momentos, o perigo de cair no Inferno. Santo Agostinho e São Bernardo enchiam-se de terror ao simples pensamento do Inferno e do perigo em que se encontravam de merecê-lo.

O católico negligente e tíbio deve, acima de todos, temer o Inferno, pois caminha continuamente à beira do abismo infernal. Ele dá pouca importância ao preceito de assistir à Santa Missa e à abstinência de carne prescrita pela Igreja; não tem escrúpulos em negligenciar a formação religiosa de seus filhos; convive com pessoas e frequenta lugares que constituem para ele ocasião de pecado; entrega-se a pensamentos impuros e comete pecados de impureza sem remorso; cede aos sentimentos de vingança contra o próximo; apropria-se dos bens alheios; excede-se na comida e na bebida; negligencia a oração e os sacramentos.

Agora é o momento de ele despertar de sua vida de pecado; agora é o momento de abandonar o pecado e mudar de vida, pois, se adiar essa mudança, em breve poderá ser tarde demais. Esta pode realmente ser a última advertência que Deus lhe concede. Se os condenados pudessem retornar à vida, a que penitências e austeridades não se submeteriam com ardor e alegria! O profeta Isaías pergunta: 'Qual de vós poderá habitar com o fogo devorador?' (Is 33,14).

Podeis suportar os terríveis tormentos do Inferno por toda a eternidade, vós que sois tão apegados ao conforto e tão sensíveis à menor dor? Qual de vós mereceu habitar no Inferno? Cada um de nós, imediatamente depois de cometer o primeiro pecado mortal, já merecia ser condenado àquele abismo de miséria e sofrimento! É graças à misericórdia divina que não fomos assim condenados. 'Se o Senhor não tivesse vindo em meu auxílio, por pouco minha alma teria habitado no Inferno' (Sl 93,17). Temos a certeza de haver merecido o Inferno, mas não temos igual certeza de haver sido perdoados. 'O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio' (Eclo 9,1). Que terrível incerteza! Quanto ela deveria fazer-nos tremer!

Isaías pergunta novamente: 'Qual de vós habitará entre as chamas eternas?'  (Is 33,14). A resposta é: todos os pecadores que não abandonam o pecado, que não lamentam nem confessam os seus pecados e não corrigem a própria vida habitarão entre as chamas eternas! Façamos, caro leitor, todos os esforços; empreguemos todas as nossas forças; suportemos todos os sofrimentos e façamos todos os sacrifícios nesta vida, a fim de escaparmos ao horrível destino daqueles que, por sua própria culpa, caem vítimas da justiça divina! Nenhuma dor é grande demais, nenhum sacrifício é caro demais, quando se trata de evitar os tormentos eternos. Digamos, portanto, com Santo Agostinho: 'Senhor, queimai-nos aqui; cortai-nos e feri-nos nesta vida, contanto que nos poupeis na eternidade!'

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

SOBRE O AMOR DE DEUS

Toda santidade e perfeição consiste no amor a Jesus Cristo, nosso Deus, nosso sumo bem e nosso redentor. É a caridade que une e conserva todas as virtudes que tornam o homem perfeito. Será que Deus não merece todo o nosso amor? Ele nos amou desde toda a eternidade. 'Lembra-te, ó homem' -assim nos fala - que fui eu o primeiro a te amar. Tu ainda não estavas no mundo, o mundo nem mesmo existia, e eu já te amava. Desde que sou Deus, eu te amo'.

Deus, sabendo que o homem se deixa cativar com os benefícios, quis atraí-lo ao seu amor por meio de seus dons. Eis por que disse: 'Quero atrair os homens ao meu amor com os mesmos laços com que eles se deixam prender, isto é, com os laços do amor'. Tais precisamente têm sido todos os dons feitos por Deus ao homem. Deu-lhe uma alma dotada, à sua imagem, de memória, inteligência e vontade; deu-lhe um corpo provido de sentidos; para ele criou também o céu e a terra com toda a multidão de seres; por amor do homem criou tudo isso, para que todas as criaturas servissem ao homem e o homem, em agradecimento por tantos benefícios, o amasse.

Mas Deus não se contentou em dar-nos tão belas criaturas. Para conquistar todo o nosso amor, foi ao ponto de dar-se a si mesmo totalmente a nós. O Pai eterno chegou ao extremo de nos dar seu único Filho. Vendo-nos a todos mortos pelo pecado e privados de sua graça, que fez ele? Movido pelo imenso, ou melhor - como diz o Apóstolo - pelo seu demasiado amor, enviou seu amado Filho, para nos justificar e nos restituir a vida que havíamos perdido pelo pecado.

Ao dar-nos o Filho, a quem não poupou para nos poupar, deu-nos com ele todos os bens: a graça, a caridade e o paraíso. E porque todos estes bens são certamente menores do que o Filho, Deus, que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele? (Rm 8,32).

(Santo Afonso Maria de Ligório)

domingo, 16 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                   

'À vossa direita se encontra a rainha,
com veste esplendente de ouro de Ofir' (Sl 44)

Primeira Leitura (Ap 11,19a;12,1.3-6a.10ab) - Segunda Leitura (1Cor 15,20-27a) - Evangelho (Lc 1,39-56)

  16/08/2026 - SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

 'O Todo-Poderoso fez grandes coisas a meu favor'

As glórias de Maria podem ser resumidas na portentosa frase enunciada pelo anjo Gabriel: 'Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus' (Lc 1,30). Ao receber a boa-nova do anjo, Maria prostrou-se como serva e disse 'sim', e por meio desse sim, como nos ensina São Luís Grignion de Montfort, 'Deus Se fez homem, uma Virgem de tornou Mãe de Deus, as almas dos justos foram livradas do limbo, as ruínas do céu foram reparadas e os tronos vazios foram preenchidos, o pecado foi perdoado, a graça nos foi dada, os doentes foram curados, os mortos ressuscitados, os exilados chamados de volta, a Santíssima Trindade foi aplacada, e os homens obtiveram a vida eterna'.

Esta efusão de graças segue Maria na Visitação, pois ela é reflexo da presença e das graças do Espírito Santo que são levadas à sua prima Isabel e à criança em seu ventre. No instante da purificação de São João Batista, o Precursor, Santa Isabel foi arrebatada por inteira pelo Espírito Santo: 'Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo' (Lc 1,41). Por meio de uma extraordinária revelação interior, Santa Isabel confirma em Maria o repositório infinito das graças de Deus: 'Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu' (Lc 1,43).

E é ainda nesta plenitude de comunhão com o Espírito Santo, que Maria vai proclamar o seu Magnificat: 'Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre' (Lc 1,46-55).

Mãe da humildade, mãe da obediência, mãe da fé, mãe do amor. Mãe de todas as graças e de todos os privilégios, Maria foi contemplada com o dogma de fé divina e católica da assunção, em corpo e alma, à Glória Celeste. Dentre as tantas glórias e honras a Maria, a Igreja celebra neste domingo a Serva do Senhor como Nossa Senhora da Assunção.

GLÓRIAS DE MARIA: ASSUNÇÃO AO CÉU

    

A Assunção de Maria - Palma Vecchio (1512 - 1514)

"Pronunciamos, declaramos e de­finimos ser dogma de revelação divina que a Imaculada Mãe de Deus sempre Virgem Maria, cumprido o curso de sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à Glória celeste”.

                            (Papa Pio XII, na Constituição Dogmática  Munificentissimus Deus, de 1º de novembro de 1950)


A solenidade da Assunção da Virgem Maria (celebrada pela Igreja no dia 15 de agosto) existe desde os primórdios do catolicismo e, desde então, tem sido transmitida pela tradição oral e escrita da Igreja. Trata-se de um dos grandes e dos maiores mistérios de Deus, envolto por acontecimentos tão extraordinários que desafiam toda interpretação humana: 

1. Nossa Senhora NÃO PRECISAVA morrer, uma vez que era isenta do pecado original;

2. Nossa senhora QUIS MORRER para se assemelhar em tudo ao seu Filho, pela aceitação de sua condição humana mortal e para mostrar que a morte cristã é apenas uma passagem para a Vida Eterna;  

3. Nossa Senhora NÃO PODIA passar pela podridão natural da carne tendo sido o Sacrário Vivo do próprio Deus;

4. A morte de Nossa Senhora foi breve (é chamada de 'Dormição') e ela foi assunta ao Céu em corpo e alma;

5. Aquela que gerou em si a vida terrena do Filho de Deus foi recebida por Ele na glória eterna;

6. Nossa Senhora foi assunta ao Céu pelo poder de Deus; a ASSUNÇÃO difere assim da ASCENSÃO de Jesus, uma vez que Nosso Senhor subiu ao Céu pelo seu próprio poder.


Louvor a Ti, Filha de Deus Pai,
Louvor a Ti, Mãe do Filho de Deus,
Louvor a Ti, Esposa do Espírito Santo,
Louvor a Ti, Maria, Tabernáculo da Santíssima Trindade!

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXX)

 

'A ciência da cruz só se aprende quando a colocamos sobre os ombros'

(Santa Teresa Benedita da Cruz)

Parece muito pesada a cruz que carregas para seguir a Jesus? Então, jogue fora os teus ressentimentos, tuas críticas, teus julgamentos, tua vaidade, tuas preocupações, teu ego... E verás como é suave a cruz. Não é o peso da cruz que te comprime os ombros, mas é o lastro inútil das vicissitudes humanas que te pesam os pés...