domingo, 20 de setembro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'O Senhor está perto da pessoa que o invoca!' (Sl 144)

Primeira Leitura (Is 55,6-9) - Segunda Leitura (Fl 1,20c-24.27a) - Evangelho (Mt 20,1-16a)

  20/09/2026 - VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 NAS VINHAS DO SENHOR


Estamos na fase final da pregação pública de Jesus; depois da longa preparação dos discípulos e das premissas do seu Evangelho, aproxima-se o momento do sacrifício do Cordeiro Imolado para a salvação do mundo. Resta ao Senhor pouco tempo para consolidar, entre os seus, os fundamentos da Igreja e das realidades do Reino dos Céus. E, numa parábola magnífica, Jesus nos ensina que Deus nos chama a todos à perfeição e concede o mesmo prêmio de salvação eterna, independentemente de quando os seus escolhidos encontraram definitivamente o caminho da graça.

'O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha' (Mt 20, 1-2). Desde o batismo, desde a primeira hora, desde 'a madrugada' dos tempos, somos chamados a partilhar e compartilhar a glória de Deus nas vinhas do Senhor, como fieis da Igreja, como discípulos do Cristo, como filhos de Deus. No mundo dos homens, desde o batismo nos tornamos herdeiros potenciais da graça, operários da messe a caminho do Céu.

Mas o mundo nos empurra e confunde a caminhada da graça; as aspirações humanas nos tolhem e retêm os propósitos de santificação. Ficamos à mercê dos tempos e dos contratempos. Deus não nos abandona nunca e, como o patrão persistente e incansável, volta pela manhã, pelo meio-dia, pela tarde, pelo final do dia, à espera do 'sim' filial, pela conversão definitiva, pelo retorno do filho pródigo. Na parábola dos operários da vinha, todos receberam igualmente o mesmo prêmio, o mesmo pagamento, mesmo os que foram chamados por último: 'cada um deles também recebeu uma moeda de prata' (Mt 20, 10). Porque a medida da justiça de Deus não é feita pelas medidas humanas: a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou mesmo mais tarde, ao chamado à vinha e tornaram-se, assim, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus.

Ainda assim, nas sementeiras da graça, fomentaram-se os espinhos da discórdia e da inveja, por parte dos operários que se julgaram injustiçados com o pagamento equivalente: 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’ (Mt 20, 12). Pelo olhar da inveja humana, a misericórdia infinita de Deus teria que ter dimensões paralelas e distintas; a inveja obscurece o valor da graça daquele que a recebeu mais cedo pela concessão da mesma graça concedida ao que chegou mais tarde a ela nos caminhos da vida e, tantas vezes por isso, 'os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos' (Mt 20, 16). Porque a inveja mata e aniquila as sementes da graça recebida e é a caridade comum entre todos que produz, em todos, os mesmos frutos de vida eterna, nas vinhas do Senhor.

sábado, 19 de setembro de 2026

AS VINHAS DE DEUS (XIII/Final)

 

86. Há uma certa erva que, quando mastigada, comunica tamanha doçura que aqueles que a conservam na boca não podem sentir fome nem sede. Assim também, aqueles a quem Deus concede o seu maná celestial de doçura e consolação interiores não podem desejar nem aceitar as consolações mundanas com verdadeiro gosto ou satisfação. É uma pequena antecipação da bem-aventurança eterna, que Deus concede àqueles que o procuram; é o confeito que Ele oferece aos seus filhos para atraí-los; é o cordial que lhes apresenta para fortalecer-lhes o coração; é também, algumas vezes, o penhor e a garantia das recompensas eternas.

87. Quando nossa vontade encontra Deus, repousa nEle, encontrando nEle uma soberana complacência; entretanto, não deixa de exercer o movimento do desejo: pois, assim como deseja amar, ama também desejar; possui o desejo do amor e o amor do desejo. O repouso do coração não consiste em permanecer imóvel, mas em não necessitar de coisa alguma. Não consiste em não ter movimento, mas em não estar sujeito à necessidade de se mover.

88. Nada faz a camomila parecer tão amarga quanto provar mel antes dela. Quando começarmos a saborear as coisas divinas, já não será possível que as coisas deste mundo despertem o nosso apetite.

89. O suco da romã, como todos sabemos, é muito agradável tanto aos enfermos quanto aos sadios e apresenta uma mistura tão íntima de amargor e doçura que é difícil dizer se agrada ao paladar por sua doce amargura ou por sua amarga doçura. Do mesmo modo, o amor é agridoce; e, enquanto permanecermos neste mundo, sua doçura nunca será perfeitamente doce, porque o próprio amor nunca é perfeito, nem jamais se encontra pura e perfeitamente saciado e satisfeito. Não obstante, mesmo aqui o amor é extremamente agradável: sua amargura torna mais delicada a suavidade de sua doçura, enquanto sua doçura torna mais vivo o encanto de sua amargura.

90. Virá a hora da consolação; e então, com indizível doçura de alma, abrireis o vosso íntimo diante da Bondade Divina, que transformará vossos rochedos em fontes de água, vossa serpente em vara, e todos os espinhos do vosso coração em rosas - e nas mais belas das rosas - que reconfortarão o vosso espírito com sua doçura.

91. Os mundanos e os homens terrenos, que vivem conforme os costumes da terra, tão logo concebem algum bom pensamento ou alguma ideia que lhes parece digna de estima, ou quando possuem alguma virtude, não descansam enquanto não a exibem e a tornam conhecida por todos aqueles que encontram. Nisso, correm o mesmo risco das árvores que fazem brotar suas folhas muito cedo na primavera, como as amendoeiras: se, por acaso, a geada as surpreende, elas perecem e não produzem fruto algum. As pessoas mundanas, que tão levianamente deixam suas flores desabrochar na primavera desta vida mortal, movidas por um espírito de orgulho e ambição, correm sempre o grande risco de serem surpreendidas pela geada, que lhes fará perder o fruto de suas ações.

92. Os justos, ao contrário, conservam todas as suas flores encerradas na bainha da santa humildade e, tanto quanto podem, não permitem que apareçam antes do tempo do grande calor: quando Deus, o divino Sol da justiça, vier aquecer seus corações na vida eterna, onde produzirão para sempre o doce fruto da felicidade e da imortalidade.

93. Somos semelhantes ao coral que, no lugar de sua origem - o oceano - é um arbusto verde-pálido, frágil e flexível; mas, uma vez retirado das profundezas do mar, como do ventre de sua mãe, torna-se quase uma pedra e passa do verde ao vermelho vivo. Assim, enquanto permanecemos mergulhados no mar deste mundo, lugar de nosso nascimento, estamos sujeitos a mudanças extremas e somos flexíveis para todos os lados: à direita, inclinamo-nos ao amor celestial pela inspiração; à esquerda, ao amor terreno pela tentação. Mas, uma vez retirados desta condição mortal, teremos transformado o verde-pálido de nossas esperanças temerosas no vermelho vivo da posse segura. Nunca mais seremos inconstantes, mas permaneceremos para sempre firmes no amor eterno.

94. Sucede com tudo o que poderíamos dizer a respeito da grandeza, da glória e da felicidade eternas, bem como da beleza e dos encantos de que o Céu está repleto. Com efeito, entre uma única folha ou um único fruto e a própria árvore, inteiramente coberta de folhas e carregada de frutos, existe uma proporção ainda maior do que entre a luz do Sol e o esplendor de que os bem-aventurados desfrutam na glória. Nem a beleza dos prados adornados de flores na primavera, nem o encanto dos campos cobertos de colheitas maduras podem comparar-se à beleza e ao encanto dos campos celestiais da felicidade eterna, que superam infinitamente tudo quanto deles se possa dizer ou conceber.

95. Ó queridas resoluções, sois a bela árvore da vida que meu Deus plantou com suas próprias mãos no centro do meu coração e que meu Salvador deseja regar com seu sangue, para fazê-la produzir frutos. Eu morreria mil vezes antes de permitir que algum vento vos arrancasse do meu coração. Não! Nem os prazeres, nem as riquezas, nem as tribulações jamais me afastarão desta resolução. Ah, Senhor! Vós a plantastes e, desde toda a eternidade, guardastes em vosso seio paterno esta bela árvore para o meu jardim. Ai! Quantas almas não receberam semelhante favor! Como poderei, então, humilhar-me suficientemente diante de vossa misericórdia?

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. VII, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

POEMAS PARA REZAR (LXV)

 

OBLAÇÃO

Que eu seja nada, mais que coisa alguma,
tão desprovido de mortais matérias 
que o elogio se transforme em espuma
e o fogo consuma todas as misérias!

Que minha imagem seja palidez e sombras
para os que se importam com imagens tais
e se restarem os ais das minhas sombras
que se desvaneçam nas sombras dos meus ais!

Que eu anseie a Luz muito mais que a vida
sem valia alguma da humana medição;
que se eu tiver que me impor certa medida
que seja não ter limites os limites do perdão!

Que faça comunhão minhas mãos finitas
E que eu seja uva e pão, ainda que massa,
que se convertam em vossas mãos benditas,
em divinas hóstias de infinita graça!

(Arcos de Pilares)

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

É PRECISO ATRAVESSAR A PONTE...

 

Eis como enfileirados passamos o rio Jordão para entrar na terra prometida, onde Deus nos chama uns após outros. Viva Jesus! Nada há de tão atrativo neste mundo que nos faça desejar que os nossos amigos e parentes permaneçam aqui por muito tempo. Fazei pouco caso deste mundo, porque ele só nos serve de ponto para passarmos para outro melhor. Este mundo só existe para que sirva de ponte, para que possam existir os habitantes do céu.

À medida que vemos este mundo e os bens que nele temos desfazerem-se ante nossos olhos, é preciso recorrermos com mais ardor a Nosso Senhor e confessar que não colocamos as nossas esperanças nem esperamos os nossos contentamentos senão dele e da eternidade que nos destinou. É preciso que seja proferida esta pequena frase de confiança: não há homem no mundo que tenha o coração mais terno e afetuoso para as amizades do que eu, e que tenha sentimento mais vivo nas separações; no entanto tenho em tão pouca conta esta vaidade da vida que passamos, que nunca me volto para Deus com mais sentimento de amor do que quando me fere, ou quando permite que eu seja ferido.

Elevemos os nossos pensamentos ao céu, e estaremos isentos dos acidentes da terra. Tendo buscado bem a Deus, somos arrebatados para Ele. Devemos crer que Deus dispôs isto para seu melhor bem. Permaneçamos em paz, esperando que Ele disponha de nós. Seríeis muito temerário, caro amigo, se pretendêsseis estar isento dos embates que a inconstância desta vida dá de quando em quando aos homens. Quero que choreis essa perda, porque isso é razoável; mas desejo que não choreis desordenadamente, e que nesta ocasião demonstreis que já aproveitastes tanto na virtude que tendes mais fundamento na eternidade do que na imagem deste mundo.

Contemplai esta morte que talvez não tenha dado tempo ao falecido para se despedir dos que amava; e, esperando que ele passe para a graça de Nosso Senhor, digamos a tempo o adeus, renunciando de coração ao mundo e a toda a vaidade; e coloquemos os nossos corações na bem-aventurada eternidade que nos espera. Ah! Caro amigo! O meu coração compadece-se do vosso, e conjuro-o que pertença completamente Àquele que o ressuscitará da morte para a vida e que nos preparou as suas eternas bênçãos. Seja sempre bendito o seu santo nome!

Sim, querido amigo, chorai o vosso falecido, porque Nosso Senhor chorou Lázaro, seu amigo; mas não sejam lágrimas de pesar, mas de uma simples compaixão cristã e de um coração que, como o de São José, chora de ternura e não de arrogância como Esaú. É nestas ocasiões que convém submeter-nos ao agrado do doce Jesus.

Mas dizei-me: e nós quando iremos para essa pátria que nos espera? Ah! Eis-nos à espera da nossa partida, e choramos os que já partiram! Bom presságio são para essa alma as muitas aflições que ela sofreu; porque, tendo sido coroada de espinhos, devemos crer que será coroada de rosas. Vá pois este irmão, possuir o seu eterno repouso no reino da misericórdia de Deus. Se as minhas preces lhe podem apressar este bem, prometo-as de todo o coração; e se pudesse ter na vossa amizade, pedir-vos-ia de todo o coração; pelo menos permiti-me que ocupe o que tenho, e que à medida que os vossos parentes temporais vos vão faltando, o afeto mais que paternal que vos consagro e tenho fielmente dedicado, se torne maior em ternura e ardor santo.

Tomai as faixas de Nosso Senhor ou o sudário no qual foi envolvido para o sepulcro e enxugai com ele as lágrimas. Eu na verdade também choro nessas ocasiões, e o meu coração, de pedra para as coisas celestes, derrama lágrimas nesses casos; mas seja Deus louvado, e faço com doçura e para vos falar como a um amigo querido, sempre com um sentimento de dileção amorosa para com a Providência de Deus; porque, depois que Nosso Senhor amou a morte e que a ela se entregou por nosso amor, não posso querer mal à morte, nem dos meus irmãos e nem de ninguém, contanto que se faça por amor da sagrada morte do meu Salvador. Viva, pois, e que Ele reine sempre em vossos corações. Amém!

(São Francisco de Sales)

ETYMOLOGIAE (V)

 

📌As Leis divinas e as Leis Humanas (De legibus divinis et humanis)

1. Todas as leis são divinas ou humanas. As leis divinas fundamentam-se na natureza; as leis humanas, nos costumes. Por essa razão, as leis humanas podem divergir entre si, pois leis diferentes convêm a povos diferentes. Fas é a lei divina; ius é a lei humana. Atravessar a propriedade de um estranho é permitido pela lei divina; não é permitido pela lei humana.

2. Como a jurisprudência, as leis e os costumes diferem entre si (Quid differunt inter se ius, leges, et mores). Ius é um termo geral, e a lei é um aspecto do ius. Chama-se ius porque é justo (iustus). Todo o ius consiste em leis e costumes.

3. A lei é uma norma escrita. O costume é um uso comprovado pelo tempo, ou uma lei não escrita; pois lei (lex, genitivo legis) recebe seu nome de 'ler' (legere), porque é escrita. O costume (mos) é um uso de longa data, derivado igualmente dos 'hábitos morais' (mores, plural de mos). O 'direito consuetudinário' (consuetudo) é um determinado sistema de justiça estabelecido pelos hábitos morais, que é tomado como lei quando falta uma lei; e não importa se ele existe por escrito ou pela razão, pois a razão também confere validade à lei.

4. Além disso, se a lei se fundamenta na razão, então será lei tudo aquilo que estiver de acordo com a razão - desde que esteja de acordo com a religião, seja conforme à boa ordem dos costumes e contribua para o bem-estar. O direito consuetudinário (consuetudo) recebe esse nome porque está em 'uso comum' (communis usus).

5. O direito é natural, civil ou das nações. O direito natural (ius naturale) é comum a todos os povos e, por existir em toda parte pelo instinto da natureza, não é estabelecido por nenhuma disposição legal. Assim são a união entre homem e mulher, a herança e a educação dos filhos, a posse comum de todas as coisas, uma única liberdade para todos e o direito de adquirir tudo aquilo que é obtido do céu, da terra e do mar.

6. Também pertencem ao direito natural a restituição daquilo que foi confiado a alguém e do dinheiro que foi depositado, bem como a repulsão da violência pela força. Ora, isso, ou qualquer coisa semelhante, jamais é injusto, mas é considerado natural e justo.

7. O direito civil (ius civile) é aquele que cada povo ou cidade, individualmente, estabeleceu como próprio para si, por razões humanas ou divinas.

8. O direito das nações diz respeito à ocupação de territórios, à construção, às fortificações, às guerras, aos cativeiros, às escravizações, ao direito de retorno, aos tratados de paz, às tréguas, ao compromisso de não molestar as embaixadas e à proibição de casamentos entre diferentes povos. E é chamado 'direito das gentes' (ius gentium) porque quase todas as nações (gentes) fazem uso dele.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVIII)

    

PARTE IV - O CÉU

II. Sobre as alegrias do Céu

Agora que meditamos sobre a Jerusalém celeste, a cidade de Deus, passaremos a considerar a felicidade de que gozam os santos que nela habitam, tanto no que diz respeito ao corpo quanto à alma. É verdade que, por enquanto, como regra geral, eles ainda não possuem seus corpos; mas, no Último Dia, todos os receberão novamente, e esses corpos serão então tão belos que nada neste mundo poderá comparar-se a eles. Isso se deverá principalmente ao fato de que cada membro será dotado de quatro qualidades ou atributos, a saber: beleza, impassibilidade, agilidade e sutileza. Em razão de sua beleza ou glória, o corpo de cada um dos eleitos resplandecerá como uma estrela; contudo, assim como uma estrela difere de outra em glória, também os santos brilharão com maior ou menor esplendor, conforme suas vidas na terra tenham sido mais ou menos santas.

Nesses corpos glorificados e radiantes, os bem-aventurados serão de uma beleza tão inexprimível que, se um homem mortal pudesse agora contemplar um desses seres resplandecentes, ficaria deslumbrado por seu fulgor e estaria prestes a morrer de alegria. Em suas revelações a Santa Brígida, a Santíssima Mãe de Deus disse certa vez: 'Os santos estão ao redor de meu Filho como incontáveis estrelas, cuja glória não pode ser comparada a nenhuma luz temporal. Acredita-me: se os santos pudessem ser vistos resplandecendo com a glória que agora possuem, nenhum olho humano poderia suportar sua luz; todos desviariam o olhar, deslumbrados e cegos'. Pensa que felicidade será para ti quando teu corpo resplandecer como o sol ao meio-dia. Tudo o que vive e se move alegra-se com a luz e o calor do sol: ele enche de alegria toda a face da natureza. Do mesmo modo, teu corpo será motivo de alegria e deleite para ti mesmo e para todos os que estiverem ao teu redor no Céu, por causa de sua beleza e de sua glória.

O segundo atributo é a impassibilidade, pois o corpo glorificado é incapaz de sofrer. Jamais estará doente ou enfermo; não envelhecerá nem perderá sua beleza. Nunca mais será afligido pela fome ou pela sede, pelo calor ou pelo frio, pelas correntes de ar ou pela umidade. Nunca mais poderá ser queimado pelo fogo, afogado na água, ferido pela espada ou esmagado sob algum peso; será imortal, imutável, eternamente dotado de perfeita saúde e de força que jamais desfalece. Se alguém na terra pudesse adquirir esse dom da impassibilidade, com que alegria daria tudo o que possui para obtê-lo!

O terceiro atributo é a agilidade. O corpo glorificado será capaz de percorrer as maiores distâncias com a velocidade do pensamento. Num só instante poderá descer do Céu à terra; num só instante poderá passar de uma extremidade dos Céus à outra, sem esforço, sem fadiga, sem dificuldade. Muitas vezes desejamos poder voar como os pássaros, avançar velozmente como as nuvens sobre as asas do vento, acompanhar o pensamento em seu rápido voo. Se fosse possível adquirir tal poder, todos abririam mão de todas as suas riquezas terrenas para possuí-lo, ainda que apenas por um único ano. Como é, então, que te esforças tão pouco para assegurar para ti a posse desse dom por toda a eternidade?

O quarto atributo do corpo glorificado é a sutileza, que consiste na faculdade de penetrar toda matéria, entrando e saindo por onde quer que deseje. Nenhuma parede é tão espessa, nenhum portão de ferro tão maciço, nenhuma montanha tão grande que possa constituir obstáculo para o corpo glorificado. Assim como os raios do sol atravessam o vidro, também os corpos dos redimidos, tal como se encontram no Céu, atravessam toda matéria, por mais densa e sólida que seja. Eles também podem tornar-se visíveis ou invisíveis à vontade. O que não darias para possuir semelhante faculdade?

Quão grande é a Vossa generosidade, Deus onipotente, para com os vossos eleitos! Vós lhes concedeis dons preciosos e sublimes, que nenhuma quantidade de riquezas deste mundo poderia comprar. Quem não passaria de bom grado a vida ao vosso serviço e não suportaria as aflições deste mundo, a fim de possuir por toda a eternidade esses dons inestimáveis? Pergunta a este pobre e frágil corpo se ele não desejaria ardentemente resplandecer como a luz, estar livre de todo sofrimento, mover-se com a velocidade do pensamento e ser tão livre de impedimentos quanto um espírito. Possuir semelhantes poderes seria, de fato, uma alegria e uma consolação inexprimíveis.

Não consentirias em que te fosse imposta uma dura penitência durante um ano inteiro, se ao fim dele esses atributos te fossem concedidos? Se assim é, não consideres um fardo levar aqui embaixo uma vida de penitência, na esperança de que esses belos dons sejam teus por toda a eternidade. Cuida para que, aqui na terra, ames a luz - a luz das boas obras; suporta com paciência toda dor e tribulação; sê pronto e zeloso no serviço de Deus; mortifica cada vez mais em ti todos os desejos sensuais, e certamente serás, na vida futura, o feliz possuidor desses quatro atributos do corpo glorificado.

Voltemos agora nossa atenção para o prazer e a satisfação que os bem-aventurados experimentarão por meio dos cinco sentidos; e, antes de tudo, consideremos que satisfação encontrarão por meio da visão. A faculdade da visão será tão perfeita que nada poderá ocultar-se aos seus olhos. Verão aquilo que está distante com a mesma nitidez com que veem o que está próximo; o menor objeto tão claramente quanto o maior; as trevas lhes serão tão claras quanto a luz. Sua visão será tão límpida que poderão contemplar o sol sem desviar os olhos, ainda que sua luz fosse cem vezes mais deslumbrante. Sua vista será tão penetrante que nenhum obstáculo poderá impedi-la. 

Pensa agora no deleite que aguarda o teu sentido da visão, quando teus olhos contemplarem pela primeira vez as glórias do Céu. Em primeiro lugar, contemplarão a própria cidade, com seus palácios e moradas, cujo esplendor e majestade são tão grandes que a contemplação dessas magníficas construções proporcionaria agradável ocupação por toda uma eternidade. Em segundo lugar, contemplarás com deleite as belas flores, as árvores, os jardins e todas as outras maravilhas que atrairão o olhar no Céu. Em terceiro lugar, será para ti um prazer inexprimível contemplar a ti mesmo e a todos os outros santos revestidos de beleza, glória, esplendor, graça e majestade, ultrapassando em muito tudo quanto se pode ver neste mundo.

Em quarto lugar, verás a incomparável beleza dos Anjos, pois acredita-se que esses espíritos celestes assumirão corpos de extraordinária formosura, formados do ar, a fim de se tornarem visíveis aos bem-aventurados. Essa opinião é sustentada por Santo Anselmo. E se a beleza de um Anjo excede incomensuravelmente toda a beleza humana, não te alegrarás em contemplar, por toda a eternidade, tantos milhares de seres angélicos, todos de beleza incomparável? Em quinto lugar, sobre nada repousarão teus olhos com tão intenso deleite quanto sobre a inexprimível beleza de Jesus e Maria, cujos corpos glorificados são tão irresistivelmente encantadores, atraentes, belos e majestosos que, se fosse permitido aos condenados contemplá-los, já não considerariam o Inferno insuportável.

Considera agora que fonte inesgotável de deleite será estar contínua e eternamente cercado por visões tão encantadoras e tão sublimes. Nossa inclinação natural leva-nos, aqui embaixo, a empreender longas viagens para contemplar alguma bela paisagem, a despender grandes somas para adquirir algum objeto belo e até mesmo a colocar em perigo nossas almas na busca ardente daquilo que é belo. Se o amor pela beleza está tão profundamente enraizado em nossa natureza, como é estranho que não ansiemos pela beleza do Céu! Por que não fechamos nossos olhos às atrações da terra, para que sejamos considerados dignos de abri-los diante dos esplendores do Céu? 

Da visão, passemos agora à audição. Seria imprudente tentar descrever o prazer que os ouvidos experimentarão ao escutar os cânticos dos Anjos e a suave música de suas harpas. Os nove coros dos Anjos cantarão os louvores de Deus, e os bem-aventurados unir-se-ão a eles não apenas de coração, mas também mesclarão suas vozes nessa doce harmonia. Assim, as faculdades tanto da alma quanto do corpo serão exercitadas, e os louvores de Deus se elevarão em melodiosos hinos e cânticos celestes.

Pois, se nós, mortais, somos impelidos pelo amor fervoroso e pela alegria do coração a elevar nossa voz em cânticos, quanto mais assim farão os santos Anjos e os bem-aventurados santos, todos abrasados pelo amor de Deus e repletos de uma alegria inexprimível! Seus hinos de louvor ressoarão incessantemente pelas moradas do Céu. Em espírito profético, o velho Tobias diz: 'As portas de Jerusalém serão construídas de safira e esmeralda, e todos os seus muros ao redor serão feitos de pedras preciosas; todas as suas ruas serão pavimentadas com pedras brancas e puras, e em suas ruas cantar-se-á: Aleluia' (Tb 13,21-22).

Essas palavras parecem indicar que os redimidos caminharão livremente uns com os outros pela Jerusalém celeste, unindo suas vozes em jubilosos aleluias. Em maravilhosa harmonia, os Anjos e os Santos louvarão e glorificarão o seu Deus. Que felicidade para eles, ó meu Deus! Que doçura, que alegria! Se os cânticos suaves nos alegram aqui e despertam sentimentos elevados em nosso coração, os cânticos dos Anjos e dos Santos certamente nos causarão arrebatamento e deleite quando tivermos a felicidade de ser admitidos em sua bem-aventurada companhia.

Meu Deus e meu tudo! Quão grande é a abundância dos favores que preparastes para aqueles que vos amam! Meu coração tem sede da torrente das alegrias celestes. Verdadeiramente bem-aventurados são aqueles que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Os santos exultarão e se alegrarão nessa glória, e os altos louvores de Deus estarão em seus lábios. Quem me dera que já agora me fosse concedido unir-me a esses cidadãos do Céu e, juntamente com eles, exaltar para sempre o vosso nome! Quando chegará a hora, aquela feliz hora em que me será concedido contemplar a majestade da vossa morada? Até que ela chegue, suportarei com paciência todos os sofrimentos e tribulações deste mundo e tornarei mais luminosa minha jornada por este vale de lágrimas cantando os vossos louvores; bendirei o Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre em minha boca. Engrandecei comigo o Senhor, ó Anjos e Santos; exaltemos para sempre o seu nome.

Do sentido da audição passemos agora ao olfato. Os deliciosos aromas do Paraíso ultrapassam tudo quanto o homem possa imaginar. Os mais belos lírios, rosas, violetas, cravos e outras flores raras e encantadoras crescem nos jardins do Paraíso celeste, e sua fragrância é tão deleitável que, se um homem possuísse apenas uma pétala de uma dessas flores, ficaria como que arrebatado pela suavidade de seu perfume. 'Israel [isto é, a multidão dos redimidos] florescerá como o lírio, e seu perfume será como o do Líbano' (Os 14,6).

A experiência tem mostrado abundantemente que os corpos dos santos, mesmo enquanto repousam em seus túmulos, já exalam suave fragrância; quão mais intensa será essa fragrância quando forem novamente chamados à vida e glorificados! Acima de todos, os corpos de Cristo e de sua Santíssima Mãe exalarão perfume tão suave que todo o Céu será por ele impregnado. Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor, onde seremos revigorados pelos aromas fragrantes que nos envolverão! Pois, se os suaves perfumes nos confortam e reanimam aqui embaixo, certamente os aromas do Paraíso darão força e refrigério aos bem-aventurados.

Até mesmo o sentido do paladar será satisfeito no Céu; não, é verdade, pelo consumo de alimentos comuns, mas de uma maneira que ainda não somos capazes de conceber. Os bem-aventurados saborearão um doce alimento que os saciará, como aprendemos pelas palavras do Salmista real: 'Eles se inebriarão com a abundância da vossa casa, e Vós os fareis beber da torrente de vossas delícias' (Sl 35,9). 

O sentido do tato terá igualmente o seu prazer particular. Quanto mais alguém se tiver mortificado aqui na terra, maior será o bem-estar de seu corpo na vida futura. Santo Anselmo diz: 'Na vida futura, os santos experimentarão uma sensação de conforto e bem-estar inexprimíveis. Essa agradável sensação penetrará todos os membros, produzindo um maravilhoso sentimento de paz e contentamento'. Com efeito, o que poderia faltar ao corpo glorificado no Céu? Ele gozará de saúde perpétua, repouso perpétuo e felicidade perpétua, de tal maneira que, na superabundância de alegria e satisfação, mal poderá compreender quão invejável é a sua condição.

Finalmente, os redimidos encontrarão imenso prazer em contemplar uns aos outros, em conversar entre si, no convívio afetuoso e na amizade recíproca. Pensa que bela visão será contemplar centenas de milhares de seres em todo o esplendor de seu estado glorificado. Se na terra consideramos agradável contemplar um belo rosto, podemos compreender, ainda que apenas em pequena medida, como será no Céu, onde o mais humilde de seus habitantes possuirá uma beleza que ultrapassa em muito os encantos pessoais de qualquer homem mortal.

Além disso, os redimidos estarão unidos entre si pelo vínculo da caridade mútua, pois amar-se-ão uns aos outros mais ternamente do que os mais afetuosos irmãos e irmãs. Ainda que jamais tenham se encontrado na terra, conhecer-se-ão melhor do que se tivessem sido criados juntos. Cada um conhecerá os acontecimentos da vida terrena do outro. Cada um poderá ver o coração do outro e saber quão grande é a afeição que este lhe dedica. Cada um se alegrará com a glória do outro como se fosse a sua própria; e o mais humilde no Reino dos Céus exultará com a glória do mais elevado tanto quanto este próprio poderá exultar. Isso foi explicado a Santo Agostinho por São João Batista em uma visão: 'Sabe” - disse-lhe ele - 'que, por causa da inexprimível caridade que os bem-aventurados têm uns pelos outros, cada qual não sente menor alegria pela exaltação do outro do que sentiria se ela fosse sua. Mais ainda: aquele que é maior deseja que o menor lhe seja igual e até mais honrado do que ele próprio; pois, no triunfo deste, ele também triunfaria. Da mesma maneira, aqueles que ocupam um lugar mais humilde alegram-se com a glória dos que ocupam os lugares mais elevados; não os invejam, longe disso. Não desejariam para si a elevada posição se os outros não a possuíssem; antes lhes dariam uma parte de sua própria glória, se isso fosse possível'.

Daí se pode compreender que os santos se alegram com o esplendor com que seus companheiros são coroados e nutrem por todos e por cada um deles uma afeição sincera e profunda. De modo especial, amam aquele que, por sua palavra ou por seu exemplo, os ajudou no caminho para o Céu; a esse não sabem como manifestar suficientemente sua gratidão. Cada um sentirá também particular afeição pelo santo que escolheu como seu padroeiro na terra e a quem honrou com especial devoção; e essa afeição será correspondida por aquele a quem foi dirigida. Aqueles que estiveram assim ligados uns aos outros encontrar-se-ão com maior frequência; conversarão sobre coisas santas e contarão mutuamente suas experiências na terra, narrando como, de maneira maravilhosa, a Providência de Deus os salvou da perdição eterna. Em suma, serão incontáveis os prazeres proporcionados aos redimidos por esse convívio, e eles farão tudo quanto estiver ao seu alcance para agradar uns aos outros e demonstrar mutuamente sua bondade.

Ó Deus de todas as misericórdias! Quem não desejaria entrar nessa terra de paz eterna, onde existem alegrias que ultrapassam tudo quanto o homem mortal pode conceber, alegrias tão numerosas e variadas, tão maravilhosas e tão doces! Às vezes, os prazeres deste mundo exercem tamanho fascínio sobre o homem que ele não consegue renunciar a eles, ainda que veja o Inferno aberto diante de si. E, no entanto, esses prazeres são menos que nada quando comparados às alegrias do Céu; na verdade, todas as alegrias que alguém possa imaginar ou desejar para si não podem igualar sequer a menor e mais humilde das alegrias que serão nossas por toda a eternidade! Ó meu Deus, quão inexprimível será a bem-aventurança do Céu! Que me seja concedida a felicidade de participar dessa ventura!

Movido por esse desejo, não vos darei descanso; todos os dias vos suplicarei que me leveis para junto de Vós. Desprenderei meu coração deste mundo; renunciarei inteiramente a todos os prazeres terrenos; todas as minhas aspirações, todos os meus afetos estarão voltados para os tesouros celestes, e todos os dias me conservarei pronto para abandonar este cenário terreno. Quanto mais cedo a morte vier buscar-me, tanto mais bem-vinda será, pois deixarei esta terra de exílio e entrarei em minha verdadeira pátria. Que Deus conceda que assim seja. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 15 de setembro de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXXII)

  

'Se os anjos pudessem sentir inveja, invejariam os homens por receberem a Comunhão'

(São Pio X)

Jesus, ao receber esta santa eucaristia, eu queria estar convosco diante dos sacrários mais isolados, abandonados e esquecidos da Terra, para Vos fazer companhia, Vos louvar e adorar e Vos oferecer este sacrifício como sustento e remédio para a minha vida e a vida dos homens que Vos abandonam em tantos altares...