sexta-feira, 24 de julho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIV)

PARTE III - O INFERNO

VI. Sobre a perda da Visão Beatífica de Deus

Já falamos de muitos e dos terríveis castigos infligidos aos condenados; contudo, estes constituem apenas uma parte muito pequena do conjunto. São incontáveis em número e tão grandes e espantosos que, como diz Santo Agostinho, todos os sofrimentos deste mundo são como nada quando comparados com o fogo eterno e os tormentos do Inferno.

Assim como o Apóstolo São Paulo diz: 'Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais entrou no coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam', também se pode dizer: 'nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram os castigos que Deus preparou para aqueles sobre os quais recaem os seus justos juízos'. E, quando lemos os terríveis castigos com que Deus ameaça esmagar, ainda neste mundo, os transgressores da sua santa lei, não podemos estar certos de que Ele derramará toda a força da sua ira sobre aqueles pecadores audazes que desprezaram os seus avisos e, com malícia diabólica, perseveraram em sua iniquidade até o fim da vida?

Recordai-vos do que Deus disse ao povo de Israel: 'Um fogo se acendeu na minha ira e arderá até o mais profundo do Inferno; consumirá a terra com os seus frutos e queimará os fundamentos dos montes. Amontoarei males sobre os transgressores da minha lei e esgotarei contra eles as minhas flechas. Serão consumidos pela fome, e as aves os devorarão com mordedura amarguíssima; enviarei contra eles os dentes das feras, juntamente com o furor das serpentes. Por fora os devastará a espada e por dentro o terror, tanto o jovem como a virgem, a criança de peito e o homem já avançado em anos' (Dt 32,22-25).

A Sagrada Escritura contém muitas outras ameaças semelhantes e igualmente aterradoras. Não há dúvida de que, na outra vida, onde reinará a justiça e não a misericórdia, Deus castigará com mão inexorável os insolentes violadores dos seus santos mandamentos. Os castigos da eternidade serão sem número e sem medida. Os condenados estarão cercados por aflição e tristeza, por angústias e tormentos inumeráveis. São Bernardo afirma que as penas dos condenados são incontáveis; nenhuma língua mortal é capaz de enumerá-las.

Entretanto, dentre todos esses sofrimentos, aquele que causa a mais aguda angústia é a privação da visão de Deus. Jamais será concedido aos condenados contemplar a Face divina. Essa pena excederá incomparavelmente todos os demais tormentos de que falamos. É impossível ao homem mortal compreender quão grande pode ser essa aflição para os condenados.

Todavia, este é o ensinamento dos Santos Padres: todos sustentam que não há sofrimento que os réprobos lamentem tão amargamente quanto o de serem excluídos para sempre da visão de Deus. Enquanto vivemos neste mundo, pouco pensamos na visão de Deus e no que significaria sermos privados dela por toda a eternidade. Isso provém da obscuridade de nossa percepção, que nos impede de compreender a infinita beleza e bondade de Deus e a felicidade experimentada por aqueles que o contemplam face a face. Mas, depois da morte, quando estivermos livres dos entraves do corpo, nossos olhos se abrirão, e perceberemos, ao menos em certa medida, que Deus é o Bem supremo e infinito, e que a posse dele constitui a nossa mais alta felicidade.

Então, um desejo tão ardente de contemplar e possuir esse Bem supremo se apoderará de nossa alma, que ela será irresistivelmente atraída para Deus e ansiará, com todas as suas forças, contemplar a sua inefável beleza. E, se por causa de seus pecados lhe for negada essa visão beatífica, isso lhe causará a mais intensa angústia. Nenhuma dor, nenhum suplício conhecido neste mundo pode, de modo algum, ser comparado a ela.

São Boaventura dá testemunho disso quando afirma: 'A pena mais terrível dos condenados é serem excluídos para sempre da contemplação bem-aventurada e jubilosa da Santíssima Trindade'. Do mesmo modo, São João Crisóstomo diz: 'Conheço muitas pessoas que temem o Inferno apenas por causa de seus tormentos; mas eu afirmo que a perda da glória celeste é uma fonte de sofrimento mais amargo do que todos os tormentos do Inferno'. O próprio demônio foi constrangido a reconhecer essa verdade, conforme se lê nas Legendas do Bem-aventurado Jordão da Saxônia, outrora Mestre Geral da Ordem Dominicana. 

Quando Jordão perguntou a Satanás, por intermédio de um possesso, qual era o principal tormento do Inferno, este respondeu: 'Ser excluído da presença de Deus'. Jordão perguntou então: 'É Deus, pois, tão belo de contemplar?' Ao que o demônio respondeu: 'Sim, pois Ele é de uma beleza incomparável'. Jordão prosseguiu: 'Quão grande é essa beleza?' E o demônio replicou: 'Insensato! Como podes fazer-me semelhante pergunta? Não sabes que a sua beleza está acima de toda comparação?' Jordão insistiu: 'Não poderias apresentar-me alguma comparação que ao menos me desse uma pequena ideia da beleza divina?' Então Satanás respondeu: 'Imagina uma esfera de cristal mil vezes mais resplandecente que o sol, na qual se reunissem a formosura de todas as cores do arco-íris, o perfume de todas as flores, a doçura de todos os sabores mais deliciosos, o valor de todas as pedras preciosas, a bondade dos homens e o encanto de todos os Anjos. Por mais bela e preciosa que fosse essa esfera de cristal, comparada com a beleza divina, ela pareceria disforme e impura'. Então o santo religioso perguntou ainda: 'E dize-me: que darias para seres admitido à visão de Deus?' O demônio respondeu: 'Se houvesse uma coluna que se estendesse da terra ao Céu, coberta de pontas afiadas, pregos e ganchos, eu consentiria de bom grado em ser arrastado para cima e para baixo por essa coluna, desde agora até o Dia do Juízo, se ao menos me fosse permitido contemplar a Face divina por alguns breves instantes'.

Daí podemos compreender quão infinita é a beleza da Face de Deus, se até mesmo o espírito do mal se sujeitaria aos tormentos físicos que ele próprio descreveu, para gozar, ainda que por breves instantes, da contemplação daquele semblante cheio de graça e majestade. Não há, pois, dúvida de que nada causa aos demônios e aos condenados angústia tão profunda quanto serem privados da visão beatífica de Deus.

Suponhamos, portanto, que Deus enviasse um Anjo às portas do Inferno com esta mensagem aos infelizes habitantes daquele lugar de tormento: 'O Todo-Poderoso, em sua misericórdia, compadeceu-se de vós e está disposto a libertar-vos de uma das penas que sofreis. Qual delas desejais que vos seja retirada?' Que pensais que responderiam? Todos, como uma só voz, exclamariam: 'Ó bom Anjo, suplicai a Deus que, ao menos por sua infinita bondade, deixe de privar-nos da visão da sua Face!' Este seria o único favor que implorariam de Deus. Se lhes fosse possível contemplar a Face divina, ainda que permanecessem em meio às chamas do Inferno, a alegria dessa visão faria com que já não se importassem com o fogo devorador. Pois a visão de Deus é tão bela, tão bem-aventurada, tão cheia de êxtase e de delícias infinitas, que todas as alegrias e atrativos da terra não podem ser-lhe comparados nem de muito longe.

Na verdade, toda a felicidade celeste, por maior que fosse, converter-se-ia em amargura se lhe faltasse a visão de Deus; e os próprios redimidos prefeririam estar no Inferno, desde que ali pudessem gozar da visão beatífica, a permanecer no Céu privados dela. Assim como o privilégio de contemplar a Face divina constitui a felicidade principal dos bem-aventurados - aquela sem a qual nenhuma outra felicidade seria verdadeiramente felicidade - assim também constitui a principal miséria do Inferno: o fato de que as almas condenadas estejam para sempre excluídas dessa visão. Sobre isso diz São João Crisóstomo: 'Os tormentos de mil infernos nada são em comparação com a angústia de ser banido da bem-aventurança eterna e da visão de Deus'.

Para compreendermos, ao menos em parte, quão grande é essa pena de dano, devemos recordar que fomos criados por Deus para sermos felizes eternamente. Esse amor à felicidade, esse anseio por ela que cada um de nós sente no coração, jamais será destruído, nem mesmo no Inferno. Durante esta vida, os homens, impelidos por esse desejo e cegados pelas paixões, procuram a felicidade nas riquezas, nas honras e nos prazeres dos sentidos. Essas imagens ilusórias da felicidade nos enganam enquanto a alma permanece unida ao corpo. Mas, quando a alma se separa do corpo, todos esses prazeres falsos e passageiros desaparecem, e ela reconhece que somente Deus é a fonte de toda felicidade e que apenas na posse dEle se pode encontrá-la.

Já não iludida pelas falsas aparências, já não obscurecida pelas paixões, ela percebe claramente a inefável e arrebatadora beleza de Deus e suas perfeições infinitas. Contempla o seu poder infinito na criação do universo, a sua sabedoria infinita no governo de todas as coisas, o seu amor incomensurável por ela ao fazer-se homem, ao morrer por ela, ao dar-se a ela como alimento da sua alma no Santíssimo Sacramento e ao destiná-la a participar para sempre da sua própria felicidade no Céu. Esse conhecimento da grandeza, da bondade e da beleza de Deus permanecerá profundamente gravado nela por toda a eternidade. Ela compreenderá também a perfeita justiça dos castigos que Deus inflige eternamente no Inferno a todos aqueles que não guardaram os seus mandamentos.

Então a alma réproba, sedenta de felicidade e irresistivelmente atraída para Deus, único que pode torná-la feliz, esforça-se por lançar-se para Ele com todo o ímpeto de sua natureza, desejando contemplá-o, possuí-lo e unir-se a Ele. Mas sente-se repelida por uma força infinita e rejeitada por Deus por causa dos seus pecados. Ainda que nesse momento lhe fossem oferecidas todas as riquezas, todas as honras e todos os prazeres do mundo, ela os rejeitaria e até os amaldiçoaria, porque anseia unicamente por Deus e somente nele pode encontrar a felicidade.

A alma condenada, atormentada pelos mais horríveis sofrimentos, procura ao seu redor algum alívio, alguma palavra de consolação; mas nem sequer um olhar de compaixão encontra, pois está cercada de demônios cruéis e inimigos implacáveis. Não encontrando misericórdia onde está, levanta os olhos para o Céu e o contempla tão belo, tão encantador, tão admirável, tão repleto da verdadeira felicidade. Recorda-se de que foi criada e destinada a participar dessa bem-aventurança; e agora, em meio às dores mais atrozes, deseja aqueles gozos com um anseio ainda mais indizível. Faz esforços extraordinários para alcançar o Céu, mas não pode abandonar a sua morada de tormentos.

Ninguém no Céu parece notar a sua presença. Ela vê o trono que Deus, em sua bondade, lhe havia preparado, agora ocupado por outro! Já não há mais lugar para ela no Céu. Contempla ali alguns de seus parentes, companheiros e conhecidos, mas eles não lhe dão atenção. Vê todos os eleitos cheios de alegria e felicidade. Nem sequer se compadecem dela; antes, como canta o salmista: 'O justo se alegrará quando vier a vingança' (Sl 57,11).

Em vão a alma réproba invoca os Santos, a Santíssima Virgem e o próprio Salvador divino. Ela sente-se atraída para Deus por um impulso irresistível e compreende que somente Deus pode saciar a sua sede de felicidade e torná-la feliz. Anseia contemplá-lo e possuí-lo; repetidas vezes procura lançar-se para Ele, mas sente-se repelida por uma força invencível. Reconhece-se objeto da ira divina, do anátema de Deus. Tem plena consciência de que a sua situação é irremediável e de que jamais será admitida nas moradas dos bem-aventurados, nem sairá da habitação da miséria sem fim.

Então o desespero apoderar-se-á dela. Proferirá as mais terríveis imprecações contra Deus e contra os eleitos, contra o Céu, contra si mesma, contra os seus pais, seus companheiros e contra todas as criaturas. Todo o Inferno estremecerá com as suas horrendas blasfêmias, e ela se tornará, em meio aos seus acessos de furor, objeto de terror até mesmo para todos os demais condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

ORAÇÃO: OBSECRO TE, DULCISSIME DOMINE IESU CHRISTE

 

Obsecro te, dulcissime Domine Iesu Christi, ut passio tua sit virtus mea, qua muniar, protegar, atque defendar. Vulnera tua sint mihi cibus potusque, quibus pascar, inebrier atque delecter. Aspersio Sanguinis tui sit mihi ablutio omnium delictorum meorum. Mors tua sit mihi vita indeficiens, Crux tua sit mihi gloria sempiterna. In his sit mihi refectio, exsultatio, sanitas et dulcedo cordis mei: Qui vivis et regnas in saecula saeculorum. Amen.


Dulcíssimo Senhor, Jesus Cristo, que a vossa Paixão seja o poder que me fortaleça, proteja e defenda. Que as vossas Chagas sejam alimento e bebida que me nutram, me inebriem e me deleitem. Que a aspersão do vosso Sangue me purifique de todos os meus pecados. Que a vossa Morte seja a minha vida perene e a vossa cruz seja a minha glória eterna. Que isso seja a minha consolação, o meu refrigério, a minha alegria, a pureza e o deleite do meu coração, eu suplico a Vós, que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Amém.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

22 DE JULHO - SANTA MARIA MADALENA

  

Maria Madalena. Para se fazer distinção do nome Maria tão comum entre os habitantes de Israel (esse era o nome, por exemplo, da irmã de Moisés), os textos bíblicos nomeavam as diferentes Marias por um acréscimo singular do personagem - assim, Maria Madalena é a Maria de Magdala, povoado situado às margens do Lago da Galileia e próximo à cidade de Tiberíades. Eis as pouquíssimas referências a ela nas Sagradas Escrituras:

[Lc 8, 2-3]: 'Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses'.

[Jo 19, 25]: 'Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena'.

[Mc 15,40-41; 47]: 'Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que o tinham seguido e o haviam assistido, quando ele estava na Galileia; e muitas outras que haviam subido juntamente com ele a Jerusalém... Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o depositavam'.

[Mc 16, 1; 5-6; 9-10]: 'Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus... Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se. Ele lhes falou: Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde o depositaram... Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios. Foi ela noticiá-lo aos que estiveram com ele, os quais estavam aflitos e chorosos'.

[Jo 20, 1-2; 18]: 'No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro. Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram! ... Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado'.

Ela é a figura bíblica 'Maria de Magdala', da qual Jesus havia expulsado sete demônios. Esta acepção não implica a interpretação direta de 'uma grande pecadora'. O fato de ter-se livrado de 'sete demônios' (sete é o número da perfeição, da plenitude) implica que ela foi curada de todos os seus males tanto físicos (enfermidades) como espirituais (pecados, estes de naturezas quaisquer). É absolutamente forçada e despropositada a conjectura de que Maria Madalena pudesse ter sido uma 'prostituta' na sua condição pregressa antes do seu encontro com Jesus. Desta interpretação espúria, nasceram inúmeras outras lendas e desdobramentos fantasiosos da participação e do envolvimento desta mulher singular na vida pública de Jesus e dos seus apóstolos. 

terça-feira, 21 de julho de 2026

A SÓS COM DEUS (V)

 

São Paulo diz que o Reino dos Céus é paz, justiça e alegria no Espírito Santo; e Jesus me ensina, no Santo Evangelho, esta verdade tão cheia de luz e de consolação: 'O Reino dos Céus está dentro de vós mesmos'. Ele está dentro de mim, e é um reino de luz, de belezas e de harmonias. Não há lugar, nesse reino, para as trevas nem para a fealdade das traições, nem para os desacertos e desvios da vontade. Nesse reino de graça e de amor, só podem ser ouvidas melodias de anjos, que cantam a glória de Deus. Esse reino é constituído pela presença de Deus.

Deus está em mim e me plenifica. Deus envolve minha alma com sua graça e a transforma em seu amor. Deus faz de minha alma um Reino dos Céus, e Ele mesmo é o meu Rei; põe em mim amplitudes e belezas infinitas e me fortalece com aspirações ilimitadas à sua própria Vida eterna e infinita. Porque Deus é a minha vida.

O Senhor trouxe-me para viver a vida eterna, que consiste em ter o pensamento, a vontade, toda a atenção e todo o afeto postos em Deus e em Jesus Cristo. Parece-me ouvir, como um dulcíssimo eco, o meu santo de devoção, São João da Cruz:

Anima-te e ergue, com alegria, o coração, e entra na luz;
olha, jubiloso e confiante, para o teu Pai Celestial,
que deseja envolver-te e iluminar-te
com a luz e a beleza inatas do seu olhar.

E para que assim o possa fazer,
não queiras nada, nada, nada do que é propriamente teu,
porque é vileza e miséria, porque é pequenez e desarmonia.
E o que é vil e miserável não pode entrar no Reino dos Céus.

Não queiras nada do que pertence à terra, às trevas e à mesquinhez.
Levanta-te e esvazia-te de tudo o que é feio e mortal,
para que entre em ti a chama do amor de Deus e te transforme.
Deus então estabelecerá em ti o Reino dos Céus
e te fará experimentar o gosto da vida eterna.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

segunda-feira, 20 de julho de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXVIII)

'Em tudo, servir e amar; amar a todos, servindo e servir a todos, amando'

(Santo Inácio de Loyola)

Não se pode viver sem este Deus que morreu de braços abertos, crucificado por teu mísero amor humano; suplica ao Pai um coração manso e humilde feito manjedoura bela e santa para servir de morada permanente a este Deus que é o próprio Amor.

domingo, 19 de julho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                

'Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel!' (Sl 85)

Primeira Leitura (Sb 12,13.16-19) - Segunda Leitura (Rm 8,26-27) - Evangelho (Mt 13,24-43)
(
  19/07/2026 - DÉCIMO SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

O REINO DE DEUS (I)


No Evangelho deste Décimo Sexto Domingo do Tempo Comum, Jesus encontra-se ainda numa barca, às margens do mar da Galileia, falando à multidão. E vai se utilizar de três diferentes parábolas para descrever o Reino de Deus aos homens.

A primeira parábola é a do campo semeado de trigo e de joio: 'O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo' (Mt 13,24). No campo do Senhor, ou seja, o mundo, Deus planta sempre a boa semente, plena de fertilidade e capaz de produzir muitos frutos. Mas o Maligno interveio e 'enquanto todos dormiam' (Mt 13,25), contaminou o campo com a erva inútil. O mal sempre triunfa quando o bem não se manifesta ou se recolhe. No mundo dos homens, ambas as plantas germinam igualmente e convivem igualmente, os Filhos da Luz (o trigo) e os herdeiros do Mal (o joio). E não serão separados nas vinhas do Senhor, mas apenas na colheita final: 'Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!' (Mt 13,30). Pois o bem é a prática da virtude que há de superar o mal e o mal pode ser sempre reparado antes da colheita.

A segunda parábola compara o Reino dos Céus a uma minúscula semente de mostarda: 'O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo' (Mt 13,31). De fertilidade ímpar, a pequena semente produz um vigoroso arbusto, tão alto que as aves podem fazer ninhos em seus ramos. O Reino de Deus se desenvolve tal como a pequena semente: no escondimento, quase imperceptível na sua evolução, mas vigoroso e extraordinário na grandeza e dimensão dos seus frutos! O caminho da santificação é essencialmente simples e tranquilo, mas impelido por uma torrente de bênçãos e graças.

A terceira parábola compara o Reino dos Céus a uma porção de fermento: 'O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado' (Mt 13,33). A mistura do bem e do mal no mundo é resultado do campo semeado pelas boas e más sementes; a ação do bem é a de fomentar os ensinamentos evangélicos, atuando como fermento de transformação e transfiguração das almas semeadas nas vinhas do Senhor.

sábado, 18 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (IV)

 

22. Se formos melindrosos quanto a cargos e títulos, além de expormos nossas qualificações a exames e contradições, nós as tornamos vis e desprezíveis. Pois a honra, que é nobre quando concedida livremente, torna-se detestável quando exigida, buscada e reivindicada. As flores, que são lindas enquanto deixadas no solo em que foram plantadas, murcham assim que são colhidas.

23. Há muitas causas diferentes que servem para nos fazer julgar os outros precipitadamente, e devemos tentar descobri-las e corrigi-las o mais rápido possível. Algumas pessoas são ásperas, amargas e rudes por natureza, e tornam tudo o que encontram igualmente áspero e amargo, 'mudando' - diz o profeta - 'o juízo em absinto, e nunca julgando o seu próximo senão com rigor e aspereza'. Seria muito bom para essas pessoas caírem nas mãos de um bom médico espiritual. Pois, como essa amargura de coração lhes é natural, é difícil superá-la; e, embora não seja um pecado, mas apenas uma imperfeição, ainda assim é perigosa, porque faz o julgamento temerário e a calúnia reinarem na alma.

24. Todos os cristãos, certamente, mas especialmente todos os religiosos, ao considerarem e lerem as vidas dos santos, deveriam tentar moldar-se conforme o seu exemplo, assim como as abelhas apenas pousam nas flores para colher o mel com o qual se alimentam. Ora, há muitas almas que fazem justamente o contrário disso e se assemelham às vespas, que também pousam na flor, mas para extrair não o mel, mas o veneno; e, se porventura sugam o mel, é apenas para transformá-lo em fel; olhando para as ações de seus próximos não para colher o mel da santa edificação pela consideração de suas virtudes, mas para extrair veneno delas ao repararem nas falhas e imperfeições daqueles com quem convivem ... E, ainda, há outras pessoas maliciosas que não se contentam em reparar nas falhas alheias e copiá-las, mas dão más interpretações a tudo o que veem e incitam os outros a fazerem o mesmo, de modo que são exatamente como as vespas, que por seu zumbido atraem outras moscas para a flor onde descobriram o veneno. 

25. Às vezes, julgamos a afeição mais por belas frases do que pelos frutos de verdadeiros sentimentos interiores, os quais só aparecem em ocasiões raras e notáveis, e que nos são muito mais úteis.

26. A nogueira é muito prejudicial às vinhas e aos campos em que é plantada porque, sendo muito grande, atrai para si toda a seiva da terra, que deixa de ser suficiente para nutrir as outras plantas. Suas folhas são tão densas e espalhadas que fazem uma sombra agradável e, por fim, ela atrai os transeuntes que, ao derrubarem seus frutos, estragam e pisoteiam tudo ao redor. Esses amores tolos causam o mesmo dano à alma, pois a ocupam e absorvem todos os seus pensamentos e sentimentos com tanta força que ela não fica apta para nenhuma boa obra. As folhas, isto é, as conversas, os divertimentos e os galanteios, são tão frequentes que desperdiçam todo o tempo livre de alguém, e então causam tantas tentações, distrações, suspeitas e outras consequências miseráveis que o coração inteiro fica esmagado e arruinado. Em suma, eles banem não apenas o amor celestial, mas o temor de Deus, enervam a mente e enfraquecem a reputação. São, em uma palavra, o passatempo dos mundanos, mas a praga dos corações.

27. O grande São Basílio nos diz que a rosa entre os espinhos faz esta admoestação ao homem: 'As coisas mais agradáveis deste mundo, ó mortais, estão sempre misturadas com a dor; nada aqui é puro: o arrependimento está sempre lado a lado com a alegria, a família e os fardos com a criação dos filhos, a ignomínia com a glória, as humilhações com as honras, o desgosto com o prazer e a doença com a saúde. A rosa é uma flor bela' - continua - 'mas ela sempre me enche de tristeza, ao lembrar-me dos meus pecados, pelos quais a terra foi condenada a produzir espinhos'.

28. Mesmo a rosa não é tão perfeita que não tenha as suas imperfeições, pois embora pela manhã seja bela e brilhante, derramando um perfume delicioso ao seu redor, à noite está murcha e desbotada; de modo que a Escritura faz uso dela para simbolizar o prazer e os deleites do mundo, e coisas que, embora pareçam belas aos nossos olhos, são passageiras e de curta duração.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 4, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).