segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

QUAL DELES É O SEU PERSONAGEM?

Numa noite fria, em alguma taberna à beira de uma estrada poeirenta, reuniram-se à deriva sete personagens em torno de uma mesa redonda de madeira gasta e com bancos toscos, na disposição indicada na figura abaixo. O vinho servira de pretexto para conforto térmico e para conversas um tanto filosóficas concentradas no milagre de Jesus nas Bodas de Caná.


O primeiro personagem, sentado na posição 1 à mesa, iniciou a discussão:
Nympha pudica Deum vidit, et erubuit - A água viu o seu Senhor e corou.
E emendou rapidamente:
— A frase não é minha, mas de um famoso poeta inglês do século XVII. Mas que, em minha opinião, expressa com real grandeza o primeiro milagre de Jesus, prenúncio da Santa Eucaristia.

Um segundo personagem, na posição 6 à mesa, assentiu respeitosamente e complementou:
—  Excelente a sua colocação, mas tenho a firme convicção de que Jesus fez o milagre apenas para atender as necessidades de uma situação difícil da festa. O prenúncio da eucaristia que você citou é uma interpretação equivocada dos fatos ocorridos.

O terceiro personagem a se inserir neste diálogo espiritual foi o homem baixo e atarracado da posição 4 à mesa. Ele argumentou:

— Penso que a mensagem de Jesus seja mais abstrata do que física: o vinho aqui representaria muito mais um bem a ser compartilhado entre os convivas do que a água que preenchia inicialmente as talhas. O prenúncio na verdade seria do milagre dos pães e dos peixes, cujo verdadeiro milagre não seria a sua multiplicação, mas a oferta e a partilha dos bens disponíveis em favor de todos os irmãos.

O personagem 2 à mesa foi taxativo na sua intervenção:
— Interessante a sua abordagem. No caso dos pães e dos peixes, bastaram cinco pães e dois peixes. Por que, neste caso, as talhas foram integralmente preenchidas com água? Não teria bastado um litro, meio litro de água? Existem milagres e milagres... 

O senhor de óculos e espesso bigode ao seu lado, na posição 3 à mesa, questionou os demais:
— Sim, existem milagres e milagres. E também, muitas distorções e manipulações da verdade. Ou, no presente caso, muitas simulações e muitas metáforas. Água é água. Vinho é vinho. São coisas distintas, francamente distintas. Mas não seria esse milagre a persuasão de sei lá quantas pessoas de que, ainda que bebendo água, elas o tomariam como o melhor dos vinhos?

O personagem 5 à mesa, até agora amuado e aparentemente aborrecido com o assunto, deu os ares de sua graça e presença:
— Ah finalmente uma visão racional e equilibrada dessa estória, estória porque se trata de uma fábula. Que pessoa externa se importaria por que faltaria vinho numa festa de casamento? E por que estariam à disposição na festa as tais talhas de água? Por que não teriam controlado a oferta do vinho aos convidados, a ponto do vinho acabar?

Na posição 7 à mesa, um homem particularmente magro manifestou vivamente então a sua opinião:
— Não houve milagre nenhum porque nesta festa - se é que existiu mesmo - eu apostaria que o que faltou foi água e não vinho...

Aqui estão sete personagens que conformam, no seu modo de pensar, a realidade atual e histórica da natureza humana na sua condição de criaturas de Deus e senhores do seu livre arbítrio. Você consegue definir cada um deles? Qual deles é o seu personagem? 

domingo, 4 de janeiro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'As nações de toda a terra hão de adorar-vos, ó Senhor!(Sl 71)

Primeira Leitura (Is 60,1-6) - Segunda Leitura (Ef 3,2-3a.5-6) -  Evangelho (Mt 2,1-12)

  04/01/2026 - SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR

EPIFANIA DO SENHOR


Epifania é uma palavra grega que significa 'manifestação'. A festa da Epifania - também denominada pelos gregos de Teofania, significa 'a manifestação de Deus'. É uma das mais antigas comemorações cristãs, tal como a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo - era celebrada no Oriente já antes do século IV e, somente a partir do século V, começou a ser celebrada também no Ocidente.

Na Anunciação do Anjo, já se manifestara a Encarnação do Verbo, revelada porém, a pouquíssimas pessoas: provavelmente apenas Maria, José, Isabel e Zacarias tiveram pleno conhecimento do nascimento de Deus humanado. O restante da humanidade não se deu conta de tão grande mistério. Assim, enquanto no Natal, Deus se manifesta como Homem; na Festa da Epifania, esse Homem se revela como Deus. Na pessoa dos Reis Magos, o Menino-Deus é revelado a todas as nações da terra, a todos os povos futuros; a síntese da Epifania é a revelação universal da Boa Nova à humanidade de todos os tempos.

A Festa da Epifania, ou seja, a manifestação do Verbo Encarnado, está, portanto, visceralmente ligada à Adoração dos Reis Magos do Oriente: 'Ajoelharam-se diante dele e o adoraram' (Mt 2, 11). Deus cumpre integralmente a promessa feita à Abraão: 'em ti serão abençoados todos os povos da terra' (Gn 12,3) e as promessas de Cristo são repartidas e compartilhadas entre os judeus e os gentios, como herança comum de toda a humanidade. A tradição oriental incluía ainda na Festa da Epifania, além da Adoração dos Reis, o milagre das Bodas de Caná e o Batismo do Senhor no Jordão, eventos, entretanto, que não são mais celebrados nesta data pelo rito atual.

A viagem e a adoração dos Reis Magos diante o Menino Deus em Belém simbolizam a humanidade em peregrinação à Casa do Pai. Viagem penosa, cansativa, cheia de armadilhas e dificuldades (quantos não serão os nossos encontros com os herodes de nossos tempos?), mas feita de fé, esperança e confiança nas graças de Deus (a luz da fé transfigurada na estrela de Belém). Ao fim da jornada, exaustos e prostrados, os reis magos foram as primeiras testemunhas do nascimento do Salvador da humanidade, acolhido nos braços de Maria: 'Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe' (Mt 2, 11): o mistério de Deus revelado de que não se vai a Jesus sem Maria. Com Jesus e Maria, guiados também pela divina luz emanada do Espírito Santo, também nós haveremos de chegar definitivamente, um dia, à Casa do Pai, sem ter que voltar atrás 'seguindo outro caminho' (Mt 2, 12).

sábado, 3 de janeiro de 2026

AS OUTRAS SETE MARIAS DA BÍBLIA

Além de Maria, a mãe de Jesus, existem outras sete pessoas citadas na Bíblia com esse nome:

I - MARIA, IRMÃ DE MOISÉS

Os cavalos do faraó, com efeito, entraram no mar com seus carros e seus cavaleiros, e o Senhor os envolveu nas águas, enquanto os israelitas passaram a pé enxuto o leito do mar. A profetisa Maria, irmã de Aarão, tomou seu tamborim na mão, e todas as mulheres seguiram-na dançando com tamborins. Maria as acompanhava entoando: 'Cantai ao Senhor, porque fez brilhar a sua glória, precipitou no mar cavalos e cavaleiros!' (Ex 15,19-21).

Trata-se de uma única Maria, citada duas vezes, em contextos distintos. A Maria citada é Miriam (em hebraico Miryam), irmã de Aarão e de Moisés (Nm 26,59), primeira mulher chamada explicitamente de profetisa na Bíblia, que lidera o cântico de louvor após a travessia do Mar Vermelho e que representa a liderança espiritual feminina em Israel. 'Todas as mulheres' seriam 'todas as demais mulheres' que não se chamavam Maria.

Esta é a mesma Maria que, mais tarde, ao criticar Moisés por causa da mulher etíope que ele desposara (Nm 12,1), provocou a cólera divina (Mn 12,8), que a puniu com uma lepra branca como a neve (Nm 12,10), sendo depois curada e reintegrada ao acampamento do povo de Israel após sete dias de exclusão (Nm 12, 14-15).

II - MARIA, FILHA DE MERED

Filhos de Ezra: Jeter, Mered, Efer e Jalon. A mulher de Mered deu à luz Maria, Samai e Jesba, pai de Estemo (1Cr 4,17).

Esta Maria, filha de Mered e irmã de Samai e Jesba, descendente da linhagem de Judá (1Cr 4), é citada ocasionalmente nos textos bíblicos, num contexto tão somente de uma referência genealógica.

III - MARIA MADALENA

Depois disso, Jesus andava pelas cidades e aldeias anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, como também algumas mu­lheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios (Lc 8,2).

Personagem do Novo Testamento, sempre associada ao ministério, à crucificação, ao sepultamento e à ressurreição de Jesus, particularmente relevante como sendo a primeira testemunha da Ressurreição (Jo 20, 16-18). É citada 14 vezes nos textos dos Evangelhos de São Lucas, São Marcos, São Mateus e São João. 

IV - MARIA, IRMÃ DE MARTA E LÁZARO

Estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mu­lher, chamada Marta, o recebeu em sua casa. Tinha ela uma irmã por nome Maria, que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-lo falar. Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse: 'Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude'. Respondeu-lhe o Senhor: 'Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada'. (Lc 10,38-42).

Esta Maria era irmã de Marta e Lázaro, moradores de Betânia, uma cidade perto de Jerusalém. Conhecida por ficar como discípula aos pés de Jesus, ouvindo seus ensinamentos, como prioridade absoluta em relação aos seus demais afazeres, é ela também que vai ungir com óleo os pés de Jesus: 

Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo (Jo 12,3).

V - MARIA, MÃE DE TIAGO E JOSÉ ou MARIA DE CLEOFAS

Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que o tinham seguido e o haviam assistido, quando ele estava na Galileia; e muitas outras que haviam subido juntamente com ele a Jerusalém ... Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o depositavam (Mc 40-41.47).

Esta é também a Maria de Cleofas, assim referida particularmente como esposa de Cleofas no Evangelho de São João (Jo 19,25), discípula citada pelos Evangelhos na crucificação, sepultamento e na manhã da ressurreição de Jesus. Considerada parente de Maria, mãe de Jesus, seus filhos (Tiago, o Menor, e José ou Joset) seriam, portanto, também parentes próximos de Maria, mãe de Jesus.

VI - MARIA, MÃE DE JOÃO MARCOS

[Pedro] dirigiu-se para a casa de Maria, mãe de João, que tem por sobrenome Marcos, onde muitos se tinham reu­nido e faziam oração (At 12,12).

Trata-se da mãe de João Marcos (depois São Marcos, autor do segundo Evangelho), mulher de recursos e proprietária de uma casa espaçosa em Jerusalém, que servia como local de reunião da Igreja primitiva.

VII - MARIA, UMA CRISTÃ DE ROMA

Saudai também a comunidade que se reúne em sua casa. Saudai o meu querido Epêneto, que foi as primícias da Ásia para Cristo. Saudai Maria, que muito trabalhou por vós. Saudai Andrônico e Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são muito estimados entre os apóstolos e se tornaram discípulos de Cristo antes de mim (Rm 16, 5-7).

Esta Maria é uma participante ativa da comunidade cristã em Roma, cujo trabalho e serviço à Igreja mereceu especial destaque de São Paulo em sua carta dirigida aos romanos.

PRIMEIRO SÁBADO DO MÊS (E DO ANO)

  

DEVOÇÃO DOS CINCO PRIMEIROS SÁBADOS 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

UM SANTO DE DEVOÇÃO PARA 2026!

Escolha um santo ou uma santa de sua devoção para o ano de 2026, 
rezando todos os dias do Novo Ano pela intercessão dele junto a Deus
em seu favor e de sua família.

Santo(a) de devoção ... rogai a Deus por mim, rogai a Deus por nós,
rogai a Deus pela minha família. Amém!

PORQUE HOJE É A PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DO MÊS (E DO ANO)

  

DEVOÇÃO DAS NOVE PRIMEIRAS SEXTAS - FEIRAS   

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

GLÓRIAS DE MARIA: MÃE DE DEUS E RAINHA DA PAZ

La Pietà (1498-1499) - Michelangelo Buonarroti

No primeiro dia do Ano Novo, a Igreja exalta Maria como Mãe de Deus; o calendário dos santos é aberto com a solenidade da maternidade daquela que Deus escolheu para mãe do Verbo Encarnado. Trata-se da primeira festa mariana proposta pela Igreja Ocidental, moldada sob as palavras eternas de Isabel: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre' (Lc 1,42). Todos os títulos e todas as grandezas de Maria dependem do dogma essencial de sua maternidade divina. Desde a Antiguidade, Maria é chamada 'Mãe de Deus', do grego 'Theotokos', título ratificado pelo Concílio de Éfeso, de 22 de junho de 431. Em 1968, o Papa Paulo VI dedicou o 1° dia do ano como Dia Mundial da Paz. Assim, Maria é louvada também neste dia como Rainha da Paz.

São Cirilo de Alexandria (370-442), na homilia pronunciada no Concílio de Éfeso contra Nestório, que negava ser Maria Mãe de Deus:

'Contemplo esta assembléia de homens santos, alegres e exultantes que, convidados pela santa e sempre Virgem Maria e Mãe de Deus, prontamente acorreram para cá. Embora oprimido por uma grande tristeza, a vista dos santos padres aqui reunidos encheu-me de júbilo. Neste momento vão realizar-se entre nós aquelas doces palavras do salmista Davi: ‘Vede como é bom, como é suave os irmãos viverem juntos bem unidos!’ (Sl 132,1). Salve, ó mística e santa Trindade, que nos reunistes a todos nós nesta igreja de Santa Maria Mãe de Deus. Salve, ó Maria, Mãe de Deus, venerável tesouro do mundo inteiro, lâmpada inextinguível, coroa da virgindade, cetro da verdadeira doutrina, templo indestrutível, morada daquele que lugar algum pode conter, virgem e mãe, por meio de quem é proclamado bendito nos santos evangelhos ‘o que vem em nome do Senhor’ (Mt 21,9).

Salve, ó Maria, tu que trouxeste em teu sagrado seio virginal o Imenso e Incompreensível; por ti; é glorificada e adorada a Santíssima Trindade; por ti, se festeja e é adorada no universo a cruz preciosa; por ti, exultam os céus; por ti, se alegram os anjos e os arcanjos; por ti, são postos em fuga os demônios; por ti, cai do céu o diabo tentador; por ti, é elevada ao céu a criatura decaída; por ti, todo o gênero humano, sujeito à insensatez dos ídolos, chega ao conhecimento da verdade; por ti, o santo batismo purifica os que creem; por ti, recebemos o óleo da alegria; por ti, são fundadas igrejas em toda a terra; por ti, as nações são conduzidas à conversão.

E que mais direi? Por Maria, o Filho Unigênito de Deus veio ‘iluminar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte’ (Lc 1,77); por ela, os profetas anunciaram as coisas futuras; por ela, os apóstolos proclamaram aos povos a salvação; por ela os mortos ressuscitam; por ela, reinam os reis em nome da Santíssima Trindade. Quem dentre os homens é capaz de celebrar dignamente a Maria, merecedora de todo louvor? Ela é mãe e virgem. Que coisa admirável! Este milagre me deixa extasiado. Quem jamais ouviu dizer que o construtor fosse impedido de habitar no templo que ele próprio construiu? Quem se humilhou tanto a ponto de escolher uma escrava para ser a sua própria mãe? Eis que tudo exulta de alegria! Reverenciemos e adoremos a divina Unidade, com santo temor veneremos a indivisível Trindade, ao celebrar com louvores a sempre Virgem Maria! Ela é o templo santo de Deus, que é seu Filho e esposo imaculado. A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.'