Numa noite fria, em alguma taberna à beira de uma estrada poeirenta, reuniram-se à deriva sete personagens em torno de uma mesa redonda de madeira gasta e com bancos toscos, na disposição indicada na figura abaixo. O vinho servira de pretexto para conforto térmico e para conversas um tanto filosóficas concentradas no milagre de Jesus nas Bodas de Caná.
O primeiro personagem, sentado na posição 1 à mesa, iniciou a discussão:
— Nympha pudica Deum vidit, et erubuit - A água viu o seu Senhor e corou.
E emendou rapidamente:
— A frase não é minha, mas de um famoso poeta inglês do século XVII. Mas que, em minha opinião, expressa com real grandeza o primeiro milagre de Jesus, prenúncio da Santa Eucaristia.
Um segundo personagem, na posição 6 à mesa, assentiu respeitosamente e complementou:
— Excelente a sua colocação, mas tenho a firme convicção de que Jesus fez o milagre apenas para atender as necessidades de uma situação difícil da festa. O prenúncio da eucaristia que você citou é uma interpretação equivocada dos fatos ocorridos.
O terceiro personagem a se inserir neste diálogo espiritual foi o homem baixo e atarracado da posição 4 à mesa. Ele argumentou:
— Penso que a mensagem de Jesus seja mais abstrata do que física: o vinho aqui representaria muito mais um bem a ser compartilhado entre os convivas do que a água que preenchia inicialmente as talhas. O prenúncio na verdade seria do milagre dos pães e dos peixes, cujo verdadeiro milagre não seria a sua multiplicação, mas a oferta e a partilha dos bens disponíveis em favor de todos os irmãos.
O personagem 2 à mesa foi taxativo na sua intervenção:
— Interessante a sua abordagem. No caso dos pães e dos peixes, bastaram cinco pães e dois peixes. Por que, neste caso, as talhas foram integralmente preenchidas com água? Não teria bastado um litro, meio litro de água? Existem milagres e milagres...
O senhor de óculos e espesso bigode ao seu lado, na posição 3 à mesa, questionou os demais:
— Sim, existem milagres e milagres. E também, muitas distorções e manipulações da verdade. Ou, no presente caso, muitas simulações e muitas metáforas. Água é água. Vinho é vinho. São coisas distintas, francamente distintas. Mas não seria esse milagre a persuasão de sei lá quantas pessoas de que, ainda que bebendo água, elas o tomariam como o melhor dos vinhos?
O personagem 5 à mesa, até agora amuado e aparentemente aborrecido com o assunto, deu os ares de sua graça e presença:
— Ah finalmente uma visão racional e equilibrada dessa estória, estória porque se trata de uma fábula. Que pessoa externa se importaria por que faltaria vinho numa festa de casamento? E por que estariam à disposição na festa as tais talhas de água? Por que não teriam controlado a oferta do vinho aos convidados, a ponto do vinho acabar?
Na posição 7 à mesa, um homem particularmente magro manifestou vivamente então a sua opinião:
— Não houve milagre nenhum porque nesta festa - se é que existiu mesmo - eu apostaria que o que faltou foi água e não vinho...
Aqui estão sete personagens que conformam, no seu modo de pensar, a realidade atual e histórica da natureza humana na sua condição de criaturas de Deus e senhores do seu livre arbítrio. Você consegue definir cada um deles? Qual deles é o seu personagem?






