sábado, 25 de abril de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (101/104)

 

101. ASSUNTO PARA MEDITAR

O padre Pedro Fabro, varão insigne da Companhia de Jesus, tinha granjeado fama de grande diretor de almas. Um dia procurou-o um cavalheiro e pediu-lhe algum assunto para meditar. O padre respondeu:
➖ Meu filho, basta que faças o seguinte: cada dia pensa por alguns instantes - Cristo em tanta pobreza e eu vivendo em tamanha opulência! Cristo sofrendo fome e sede, e eu gozando de tantos banquetes! Cristo desnudo e eu ricamente vestido! Cristo padecendo horríveis dores e eu no meio de tantas delícias!
➖ Nada mais, padre?
➖ Nada mais que isso.

O cavalheiro retirou-se um pouco desiludido. Entretanto, poucos dias depois, convidado a um jantar, no meio dos manjares suculentos, dos vinhos seletos e da música, no auge, enfim, da alegria, vem-lhe de repente o pensamento: Cristo com fome e sede e eu aqui a fartar-me e a embriagar-me como bruto... Saltaram-lhe as lágrimas dos olhos, levantou-se em silêncio e retirou-se para um convento a fazer penitência. 

Eu aqui... e Cristo na Cruz! Se estiveres lendo um mau livro quando, sobre o céu claro de tua alma, amontoam-se nuvens negras de paixões e imaginações perigosas, pensa: Cristo na Cruz, e eu! Quando estiveres mergulhado em teus negócios ou em conversas mundanas - sanguessugas chupadoras do sangue ou da honra do próximo, pensa: Eu a pecar... e Cristo na Cruz! Se tens coração, se ainda te resta um pingo de fé, basta essa meditação para mudares de vida.

102. LÁGRIMAS DE MÃE

Houve, em tempos idos, um condezinho muito bom, que fôra educado por uma mãe santa. Inculcara-lhe ela uma grande e terna devoção à Virgem Santíssima, cujo escapulário trazia sempre consigo, ensinando-o a chamar Nossa Senhora de mãe. Estes dois amores, à mãe do céu e à da terra, cresceram no coração do condezinho como duas âncoras de salvação que haviam de salvar o mesmo navio.

O jovem foi enviado a uma corte estrangeira. Ali perverteu-se, enfraqueceu-se a sua fé, tornou-se muito mau. Não abandonou, porém, o piedoso costume de ajoelhar-se todas as noites diante da Santíssima Virgem, para rezar as três Ave-Marias, repetindo com fervor: 'Não me abandoneis, minha Mãe! Minha Mãe, não me abandoneis'.

Um dia, tomando parte numa caçada com um amigo infame que o pervertera, foram surpreendidos por uma tempestade e tiveram que pousar numa estalagem. O conde, após a sua oração cotidiana à Santíssima Virgem, adormeceu logo. Pouco depois, começou a sonhar que se achava perante o tribunal de Deus. Uma alma acabava de ser condenada, e ele viu que era a sua que estava sendo conduzida pela própria consciência para ser julgada. Viu também sua mãe de joelhos pedindo misericórdia para ele.

Lúcifer lançou na balança os pecados do jovem conde. A balança caiu até o abismo; os anjos cobriram o rosto com suas grandes asas e Lúcifer deu um grito de triunfo. A alma estava perdida! Foi então que apareceu Maria, a qual, prostrando-se aos pés do Senhor em posição suplicante ao lado da condessa, colocou no outro prato da balança as Ave-Marias do conde e mais as lágrimas da condessa. Nada adiantou. Então a Virgem volveu os olhos para o juiz e duas lágrimas suas caíram no prato da balança, onde estavam as lágrimas da condessa-mãe. A balança cedeu imediatamente. As lágrimas das duas mães salvaram aquele pobre filho!

Um trovão horrível despertou o jovem conde. A dois passos dele, viu então, no outro leito, o cadáver de seu amigo carbonizado.

103. NOBRE E ALTIVA RESPOSTA

Numa perseguição religiosa na China, foi preso e conduzido à presença do mandarim um moço cristão, chamado Paulo Moi. O magistrado, fortemente impressionado com a fisionomia gentil e graciosa do jovenzinho, empregou todos os esforços para faze-lo apostatar da fé.

Vendo que tudo era inútil, ofereceu-lhe como prêmio uma barra de prata para renunciar à fé cristã.
➖ Obrigado, mandarim - disse Paulo, mas uma só barra não basta.
➖ Bem; eu te darei então uma barra de ouro.
➖ Ainda não basta.
➖ Quanto desejas, então, miserável?
➖ Grande mandarim, se desejais que eu renuncie à minha fé, deveis dar-me o que vale a minha alma e, para isso, todo o teu ouro é pouco.
Alguns dias depois, Paulo foi decapitado. Preferiu perder a sua vida a perder a sua alma.

104. CORAGEM CRISTÃ

Santa Blandina, mártir de Liao (177), era uma menina cristã de constituição física muito delicada. No humilde emprego de criada, praticava as mais belas virtudes, copiando em sua vida o divino modelo Jesus Cristo.

Numa perseguição, foi presa com sua patroa e submetida aos mais cruéis tormentos. Conduzida ao tribunal, confessou a sua fé alegremente e com redobrado vigor, repetindo muitas vezes estas palavras:
➖ Eu sou cristã; entre nós cristãos não se cometem os delitos de que nos acusais.

Depois que foi flagelada sem piedade e obrigada a sentar-se num banco de ferro em brasa, meteram-na numa rede e deixaram-na à mercê de um touro furioso que com os chifres a atirou repetidas vezes ao ar. Finalmente, a heroica menina foi degolada.
Os próprios pagãos confessavam jamais ter visto uma criatura tão frágil sofrer com tamanha coragem e resistência.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sexta-feira, 24 de abril de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXII)

'Para Deus, o menor grau de pureza da tua consciência vale mais que todas as tuas obras juntas'

(São João da Cruz)

Eu consagro, neste dia, a minha mente e meus pensamentos em atos de louvor e glória ao meu Senhor e meu Deus. Que, durante várias vezes ao longo do dia de hoje, eu tenha o firme propósito de concentrar completamente os meus pensamentos em Vossa Santa Presença e ligar minha consciência de Filho de Deus à corrente de louvores e graças que se proclamam sem cessar, e por todo o sempre, à Vossa Glória em toda a Terra e nos Céus.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

ORAÇÃO: O LUX BEATA TRINITAS

Santo Ambrósio, arcebispo de Milão (337 – 397), Padre da Igreja, utilizava frequentemente a música no contexto dos ritos litúrgicos, tendo composto inúmeros hinos religiosos, chegando a desenvolver inclusive um estilo próprio de música - o Canto Ambrosiano - que foi precursor do Canto Gregoriano. O hino O LUX BEATA TRINITAS consta no Breviário Romano sob o título de Jam sol recedit igneus, como o hino das Vésperas para o ofício litúrgico aos sábados e do Domingo da Santíssima Trindade.


O Lux beata Trinitas:
Oh luz da bem-aventurada Trindade:
Et principalis Unitas:
Unidade fundamental:
Jam sol recedit igneus,
Que ofusca o fogo do próprio sol
Infunde lumen cordibus.
Enche de luz os corações.

Te mane laudum carmine,
A Vós eleva-se nosso cântico matutino,
Te praedicamus vespere;
A Vós se volta nossa oração vespertina;
Te nostra supplex gloria
Que nossa glorificação suplicante;
Per cuncta laudet saecula.
Vos louve pelos séculos dos séculos.

Deo Patri sit gloria,
A Deus Pai seja dada a glória,
eiusque soli Filio,
E a seu filho Unigênito,
cum Spiritu Paraclito,
Ao Espírito Santo Paráclito,
et nunc, et in perpetuum.
Agora e para sempre.
Amen.
Amém.

terça-feira, 21 de abril de 2026

QUANDO DEUS PUNE OS ÍMPIOS NESTA VIDA

A Providência Divina governa este mundo de tal maneira que não pune todos os ímpios nesta vida, mas não deixa de punir muitos deles. Se Deus punisse a todos, as pessoas poderiam imaginar que tudo acabou nesta vida, não restando nada para a próxima; e se Ele não punisse ninguém, poderiam imaginar que não há Providência para governar os assuntos humanos. Portanto, a Sabedoria Divina (que dirige todas as coisas para o bem de suas criaturas) pune algumas coisas severamente nesta vida, para que as pessoas vejam que a Providência existe (especialmente aquelas coisas tão extremas que elas mesmas clamam a Deus e imploram por vingança) e deixa outras impunes, para que entendamos que Ele reserva o seu castigo para a vida futura e que nem tudo se resolve nesta vida terrena.

Isso pode ser confirmado para alguns dos imperadores que perseguiram a Igreja, que receberam ainda aqui o que lhes era devido, particularmente durante a chamada Era dos Mártires. Assim, a divina Providência resplandece maravilhosamente, usando tiranos como ministros e instrumentos para estabelecer a Fé da sua Igreja com o sangue dos mártires e para adornar o Céu com esse glorioso exército. Pois se não houvesse tiranos, não haveria mártires; se não houvesse Décio, não haveria Lourenço. Se não houvesse Deciano, não haveria Vicente; e se não houvesse Herodes, não haveria mártires inocentes. Neste sentido, muitos reis e imperadores que martirizaram os santos da Igreja tiveram fins trágicos.

Herodes, para matar o Menino Jesus, matou os Inocentes, teve doença e morte foram terríveis;  após ter os olhos saltado das órbitas, em um banho, desesperado, apunhalou o próprio peito e se matou, depois de ter ordenado a morte do terceiro de seus filhos, após já ter matado dois deles (Antiguidades Judaicas, Flávio Josefo, Livro 16, Capítulo 13).

O segundo Herodes, que decapitou Tiago e aprisionou São Pedro, foi ferido por um anjo e morreu devorado vivo por vermes, como o próprio Josefo e São Lucas relatam. O terceiro perseguidor da Igreja (Idem, Livro 19, Capítulo 7, Atos 12) foi Nero (que martirizou São Pedro e São Paulo). Vendo que não podia escapar dos conspiradores que buscavam matá-lo, livrou-os dessa tarefa suicidando-se. O quarto, Domiciano, que exilou São João Evangelista, foi morto pelos seus próprios homens.

Valeriano, um cruel perseguidor da Igreja, foi derrotado em batalha pelo rei dos persas, que o capturou, ordenou que lhe arrancassem os olhos e o usou como apoio para os pés quando cavalgava. Aureliano foi morto pelos seus próprios homens. Décio, que martirizou São Lourenço, foi morto junto com seus filhos.

Diocleciano, a besta mais cruel, que se fez venerar como um deus, caiu em tamanha perdição e loucura que foi forçado a abandonar a Coroa e o Cetro e viver como um homem comum. Maximiano, seu companheiro, também o abandonou e viveu como ele; e mesmo assim, não lhe foi permitido viver, pois Maxêncio, seu filho, que queria tomar o Império, o expulsou de Roma. De lá, fugiu e buscou a proteção de Constantino, seu genro. E, sendo nobremente recebido por ele, tramou uma traição contra o imperador. Isso foi descoberto, e por isso foi punido com a morte, a desonra e a infâmia. Suas estátuas e medalhas foram ordenadas a serem destruídas onde quer que estivessem, e os nomes dos estabelecimentos públicos que levavam seu nome foram ordenados a serem mudados. 

Maxêncio, seu filho, herdeiro dos vícios e da crueldade do pai, morreu por um milagre especial e pela vontade divina. Porque, tendo construído uma ponte falsa sobre um rio perto de Roma, para que o imperador Constantino, ao chegar, afundasse no rio, este, como que num acesso de loucura, esquecendo-se do que havia tramado, colocou os pés sobre o cavalo e, atravessando a ponte, caiu e se afogou.

Maximino, também um dos mais cruéis perseguidores da Igreja, foi derrotado em batalha pelo próprio Constantino e escapou fugindo de seu exército para o meio dos aguadeiros. Portanto, indignado com os adivinhos que lhe prometeram a vitória, ordenou que fossem mortos. E por essa afronta, Deus o castigou com uma doença gravíssima, com suas entranhas inchando e apodrecendo; e em seu peito surgiu uma ferida que, pouco a pouco, se espalhou por todo o seu corpo, além das outras feridas que já tinha, das quais jorravam vermes. E com eles exalava um odor tão terrível que ninguém, nem mesmo os cirurgiões, conseguia se aproximar dele. E vendo que seus médicos não conseguiam curá-lo nem lhe fazer nenhum bem, mas, ao contrário, fugiam dele por causa de seu odor abominável, ordenou que muitos deles fossem mortos. Finalmente, perdendo a visão e compreendendo melhor a feiura de seus sofrimentos, pôs fim à sua vida perversa com uma morte dolorosa.

Licínio, que governou no Oriente na época de Constantino, que perseguiu a Igreja não menos cruelmente que seus predecessores, insurgindo-se contra Constantino, também foi morto por ele em batalha.

Depois disso, Juliano, o Apóstata (que, com outras novas artes, travou uma guerra ainda mais cruel contra a Igreja), pôs fim ao seu império e à sua vida em poucos dias, morrendo na guerra contra os persas, deixando seu exército em grande perigo; nem seus deuses, nem seus adivinhos e encantadores, em quem depositava toda a sua confiança, puderam lhe valer qualquer proveito.

Valente, o Ariano, um grande perseguidor dos católicos, foi derrotado pelos godos em batalha; e, quando escondido em uma cabana, esta foi incendiada e assim ele morreu, como mereciam os seus atos.

Esses foram os fins e destinos crueis de muitos daqueles que pegaram em armas contra a religião cristã e isso constitui um argumento considerável a favor da verdade e da santidade da Igreja.

(Excertos da obra Introdução ao Símbolo da Fé', do Frei Luís de Granada, Espanha, 1730)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A SANTA VONTADE DE DEUS

Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2)

O que o Apóstolo quer dizer com 'a vontade perfeita' é que a alma assume a forma de piedade, na medida em que a graça do Espírito a faz florescer até a suprema beleza, atuando com o homem sofredor em sua transformação.

O crescimento do corpo não depende de nós, pois a natureza não mede sua estatura segundo o julgamento ou desejo humano: ela segue sua própria inclinação e necessidades naturais. Ao contrário, na ordem do novo nascimento, a medida e a beleza da alma - concedidas pela graça do Espírito, que vem através do zelo de quem a recebe - crescem segundo a nossa disposição. Quanto mais você se esforça pela piedade, mais a estatura da sua alma se expande, por meio dessas lutas e trabalhos aos quais o Senhor nos convida, dizendo: 'Esforcem-se para entrar pela porta estreita' (Lc 13,24; Mt 7,13), e também: 'Esforcem-se pela violência, pois são os violentos que conquistam o Reino dos Céus' (Mt 11,12). E ainda: 'Aquele que perseverar até o fim será salvo' (Mt 10,22). E mais: 'Pela perseverança, eles conquistarão suas almas' (Mc 13,12). O apóstolo também diz: 'Corramos com perseverança a corrida que nos está proposta' (Hb 12,1), e também: 'Corramos de tal maneira que alcancemos o prêmio' (1Cor 9,24), e ainda: 'Como servos de Deus com paciência incansável' (2Cor 6,4).

Isso nos convida, portanto, a correr e a direcionar todos os nossos esforços para essas batalhas, visto que a graça é proporcional ao esforço de quem a recebe. Pois é a graça do Espírito que concede a vida eterna e a alegria inefável no céu; e é o amor que, pela fé acompanhada de boas obras, conquista a recompensa, atrai os dons e proporciona o gozo da graça. A graça do Espírito Santo e as boas obras, trabalhando para o mesmo fim, preenchem a alma na qual se unem com esta vida bem-aventurada.

Pelo contrário, separadas, não trariam benefício algum à alma. Pois a graça de Deus é de tal natureza que não pode alcançar as almas que rejeitam a salvação; e o poder da virtude humana por si só não basta para elevar à forma da vida celestial aquelas almas que não participam da graça. A menos que o Senhor edifique a casa e guarde a cidade, diz a Escritura, em vão vigia a sentinela, e o construtor trabalha (Sl 127,1). E também: 'Não foi pela espada que conquistaram a terra, nem foram salvos pelas armas - embora armas e espadas tenham servido na batalha -, mas a tua mão e o teu braço, ó Senhor, e a luz do teu rosto' (Sl 43,4).

O que isso significa? Significa que, do alto, o Senhor luta com aqueles que lutam - e que a coroa não depende unicamente do trabalho dos homens, nem mesmo de seus esforços. A esperança, em última análise, repousa na vontade de Deus. É necessário, portanto, conhecer antes de tudo qual é a vontade de Deus; voltar-se para ela, dirigindo todos os nossos esforços para ela; e, buscando a vida bem-aventurada através do desejo, organizando nossa própria existência tendo em vista essa vida.

A 'vontade perfeita' de Deus consiste em purificar a alma de toda mácula pela graça, elevando-a acima dos prazeres do corpo e oferecendo-a a Deus, pura, repleta de desejo e capaz de ver a luz inteligível e inefável. Então o Senhor declara o homem 'bem-aventurado': 'Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus' (Mt 5,8). E em outro lugar, Ele ordena: 'Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial' (Mt 5,48). O Apóstolo nos exorta a lutar por essa perfeição quando diz: 'A ele é que anunciamos, admoestando todos os homens e instruindo-os em toda a sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo' (Cl 1,28).

(Excertos da obra 'O Objetivo Divino e a Vida Segundo a Verdade', de São Gregório de Nissa)

domingo, 19 de abril de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

     

'Vós me ensinais vosso caminho para a vida;
junto de vós felicidade sem limites!' (Sl 15)
 
Primeira Leitura (At 2,14.22-33) - Segunda Leitura (1Pd 1,17-21) - Evangelho (Lc 24,13-35)

  19/04/2026 - TERCEIRO DOMINGO DA PÁSCOA 

NO CAMINHO PARA EMAÚS


No caminho para Emaús, cidadezinha distante pouco mais de 10km de Jerusalém, Jesus vai manifestar, mais uma vez, a glória da Ressurreição aos seus discípulos. Como que por acaso, Jesus os toma para si na longa caminhada, numa contemplação aparente de um mero convívio humano, nascido das circunstâncias de três peregrinos na mesma direção: 'quando eles iam conversando e discorrendo entre si, aproximou-se deles o próprio Jesus e caminhou com eles' (Lc 24,15). Não há nada de circunstancial ou de mera rotina neste encontro sobrenatural: tal grande manifestação da graça de Deus faz dele um evento singular e extraordinário.

E, de algum modo absolutamente sobrenatural, os discípulos não reconhecem Jesus, a exemplo daqueles que o encontraram às margens do mar de Tiberíades e também não o reconheceram a princípio (Jo 21,4). Movidos pelas emoções humanas, retratam a Paixão e Morte do Senhor àquele 'único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos dias' (Lc 24,18). Eles se referiram ao Senhor como um profeta poderoso, muito provavelmente ciente dos riscos de serem denunciados e presos por proclamarem a um desconhecido a condição de serem discípulos daquele que deveria libertar Israel, de acordo com as suas próprias motivações e perspectivas.

No caminho para Emaús, os dois discípulos expressam, num turbilhão de emoções, os sentimentos de angústia, tristeza, decepção, perturbação e esperança. E é esta esperança que vai torná-los testemunhas do amor. Jesus os repreende pela perturbação que se levanta como o pó da estrada; Jesus os orienta, por meio dos textos bíblicos, no caminho da santificação plena e no entendimento de toda Verdade de Deus. Jesus ilumina para sempre os seus corações, na tarde ensolarada que declina.

E, ficando com eles, o Senhor vai manifestando, mais uma vez, o mistério concreto da Santa Eucaristia como a permanência de Deus Vivo entre os homens: 'Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles' (Lc 24,30-31). Como os dois discípulos de Emaús, na Santa Eucaristia, nós reconhecemos e, mais do que reconhecer, nós ficamos com Jesus, na poeira das estradas do mundo, na certeza da caminhada rumo à eternidade com Deus.