sábado, 18 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (IV)

 

22. Se formos melindrosos quanto a cargos e títulos, além de expormos nossas qualificações a exames e contradições, nós as tornamos vis e desprezíveis. Pois a honra, que é nobre quando concedida livremente, torna-se detestável quando exigida, buscada e reivindicada. As flores, que são lindas enquanto deixadas no solo em que foram plantadas, murcham assim que são colhidas.

23. Há muitas causas diferentes que servem para nos fazer julgar os outros precipitadamente, e devemos tentar descobri-las e corrigi-las o mais rápido possível. Algumas pessoas são ásperas, amargas e rudes por natureza, e tornam tudo o que encontram igualmente áspero e amargo, 'mudando' - diz o profeta - 'o juízo em absinto, e nunca julgando o seu próximo senão com rigor e aspereza'. Seria muito bom para essas pessoas caírem nas mãos de um bom médico espiritual. Pois, como essa amargura de coração lhes é natural, é difícil superá-la; e, embora não seja um pecado, mas apenas uma imperfeição, ainda assim é perigosa, porque faz o julgamento temerário e a calúnia reinarem na alma.

24. Todos os cristãos, certamente, mas especialmente todos os religiosos, ao considerarem e lerem as vidas dos santos, deveriam tentar moldar-se conforme o seu exemplo, assim como as abelhas apenas pousam nas flores para colher o mel com o qual se alimentam. Ora, há muitas almas que fazem justamente o contrário disso e se assemelham às vespas, que também pousam na flor, mas para extrair não o mel, mas o veneno; e, se porventura sugam o mel, é apenas para transformá-lo em fel; olhando para as ações de seus próximos não para colher o mel da santa edificação pela consideração de suas virtudes, mas para extrair veneno delas ao repararem nas falhas e imperfeições daqueles com quem convivem ... E, ainda, há outras pessoas maliciosas que não se contentam em reparar nas falhas alheias e copiá-las, mas dão más interpretações a tudo o que veem e incitam os outros a fazerem o mesmo, de modo que são exatamente como as vespas, que por seu zumbido atraem outras moscas para a flor onde descobriram o veneno. 

25. Às vezes, julgamos a afeição mais por belas frases do que pelos frutos de verdadeiros sentimentos interiores, os quais só aparecem em ocasiões raras e notáveis, e que nos são muito mais úteis.

26. A nogueira é muito prejudicial às vinhas e aos campos em que é plantada porque, sendo muito grande, atrai para si toda a seiva da terra, que deixa de ser suficiente para nutrir as outras plantas. Suas folhas são tão densas e espalhadas que fazem uma sombra agradável e, por fim, ela atrai os transeuntes que, ao derrubarem seus frutos, estragam e pisoteiam tudo ao redor. Esses amores tolos causam o mesmo dano à alma, pois a ocupam e absorvem todos os seus pensamentos e sentimentos com tanta força que ela não fica apta para nenhuma boa obra. As folhas, isto é, as conversas, os divertimentos e os galanteios, são tão frequentes que desperdiçam todo o tempo livre de alguém, e então causam tantas tentações, distrações, suspeitas e outras consequências miseráveis que o coração inteiro fica esmagado e arruinado. Em suma, eles banem não apenas o amor celestial, mas o temor de Deus, enervam a mente e enfraquecem a reputação. São, em uma palavra, o passatempo dos mundanos, mas a praga dos corações.

27. O grande São Basílio nos diz que a rosa entre os espinhos faz esta admoestação ao homem: 'As coisas mais agradáveis deste mundo, ó mortais, estão sempre misturadas com a dor; nada aqui é puro: o arrependimento está sempre lado a lado com a alegria, a família e os fardos com a criação dos filhos, a ignomínia com a glória, as humilhações com as honras, o desgosto com o prazer e a doença com a saúde. A rosa é uma flor bela' - continua - 'mas ela sempre me enche de tristeza, ao lembrar-me dos meus pecados, pelos quais a terra foi condenada a produzir espinhos'.

28. Mesmo a rosa não é tão perfeita que não tenha as suas imperfeições, pois embora pela manhã seja bela e brilhante, derramando um perfume delicioso ao seu redor, à noite está murcha e desbotada; de modo que a Escritura faz uso dela para simbolizar o prazer e os deleites do mundo, e coisas que, embora pareçam belas aos nossos olhos, são passageiras e de curta duração.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 4, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 17 de julho de 2026

SOBRE O CONSELHO ESPIRITUAL

1. Para vencer as inclinações do orgulho e da soberba, a alma necessita buscar o conselho seguro de um diretor espiritual. Quem confia apenas nas próprias luzes facilmente cai em ilusão e erro.

2. O dom do conselho é uma graça especialíssima com que o Espírito Santo aperfeiçoa a virtude da prudência. Por meio dele, a alma recebe uma facilidade sobrenatural para julgar, prontamente e de modo reto, o que deve fazer em circunstâncias difíceis, escolhendo o que mais convém para a glória de Deus e a própria salvação.

3. Não estamos abandonados às nossas próprias opiniões confusas. Na Igreja, encontramos o conselho seguro e a guia infalível estabelecida por Cristo para que caminhemos na verdade.

4. Diante de uma decisão moral importante, o cristão deve recorrer primeiro à oração, suplicando o conselho divino antes de agir.

5. Aquele que por um mau conselho induz o próximo a cometer uma injustiça ou a faltar com a verdade, torna-se corresponsável pelo pecado alheio e tem a obrigação de tentar reparar o erro.

6. O sacerdote no confessionário não age apenas como um juiz que absolve, mas como um médico que cura e um pai que oferece o conselho oportuno para a emenda de vida.

7. O bom católico acolhe com humildade o conselho de seus pastores, reconhecendo neles os canais da providência e da instrução cristã.

(Excertos da obra 'A Fé Explicada', de Leo Trese)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

GLÓRIAS DE MARIA: MÃE E FORMOSURA DO CARMELO

    

No dia 16 de julho de 1251, São Simão Stock suplicava a intercessão de Nossa Senhora para resolver problemas da Ordem Carmelita quando teve uma visão da Virgem que, trazendo o Escapulário nas mãos, lhe disse as seguintes palavras:

"Filho diletíssimo, recebe o Escapulário da tua Ordem, sinal especial de minha amizade fraterna, privilégio para ti e todos os carmelitas. Aqueles que morrerem com este Escapulário não padecerão o fogo do Inferno. É sinal de salvação, amparo e proteção nos perigos, e aliança de paz para sempre". 


Imposição e Uso do Escapulário

1 - Qualquer padre pode fazer a bênção e imposição do Escapulário à pessoa.

2 - A bênção e a imposição valem para toda a vida e, portanto, basta receber o Escapulário uma única vez.

3 - Quando o Escapulário se desgastar, basta substituí-lo por um novo.

4 - Mesmo quando alguém tiver a infelicidade de deixar de usá-lo durante algum tempo, pode simplesmente retomar o seu uso, não sendo necessária outra bênção.

5 - Uma vez recebido, o Escapulário deve ser usado em todas as ocasiões (inclusive ao dormir), preferencialmente no pescoço.

6 - Em casos de necessidade de retirada do Escapulário, como no caso de doenças e/ou internações em hospitais, a promessa de Nossa Senhora se mantém, como se a pessoa o estivesse usando.

7 - Mesmo um leigo pode fazer a imposição do Escapulário a uma pessoa em risco de morte, bastando recitar uma oração a Nossa Senhora e colocar na pessoa um escapulário já bento por algum sacerdote.

8 - O Escapulário pode ser substituído por uma medalha que tenha, de um lado, o Sagrado Coração de Jesus e, do outro, uma imagem de Nossa Senhora (por autorização do Papa São Pio X).
Oração a Nossa Senhora do Carmo
     Ó Virgem do Carmo e mãe amorosa de todos os fiéis, mas especialmente dos que vestem vosso sagrado Escapulário, em cujo número tenho a dita de ser incluído, intercedei por mim ante o trono do Altíssimo. 

          Obtende-me que, depois de uma vida verdadeiramente cristã, expire revestido deste santo hábito e, livrando-me do fogo do inferno, conforme prometestes, mereça sair quanto antes, por vossa intercessão poderosa, das chamas do Purgatório.

        Ó Virgem dulcíssima, dissestes que o Escapulário é a defesa nos perigos, sinal do vosso entranhado amor e laço de aliança sempiterna entre Vós e os vossos filhos. Fazei, pois, Mãe amorosíssima, que ele me una perpetuamente a Vós e livre para sempre minha alma do pecado. 

       Em prova do meu reconhecimento e fidelidade, ofereço-me todo a Vós, consagrando-Vos neste dia os meus olhos, meus ouvidos, minha boca, meu coração e todo o meu ser. E porque Vos pertenço inteiramente, guardai-me e defendei-me como filho e servidor vosso. Amém.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (133/136)

 

133. A METADE DE UM PÃO PARA 50 RELIGIOSAS

Santa Clara, abadessa do convento de São Damião, porfiava com São Francisco na observância da pobreza, de tal modo que, as vezes, não havia nada para a refeição. De uma feita, à hora do almoço, Irmã Cecília, a ecônoma, correu triste a mostrar a abadessa o único pão que havia em casa. Um pão para 50 religiosas!

➖ Minha filha - disse-lhe Santa Clara - divida o pão em duas partes: uma metade mande aos nossos bons Irmãos esmoleiros, os quais com certeza estão necessitados como nós; a outra metade, você a divida em cinquenta fatias, pois tantas são as Irmãs.
➖ Mas, Madre - replicou a ecônoma ➖ para dar de comer a 50 religiosas com a metade de um pão, seria mister que Deus renovasse para nós as maravilhas operadas outrora em favor da multidão faminta...
➖ E por que duvidar, minha filha? Vá - disse a santa com um sorriso angélico - e com espirito de fé faça tudo como lhe ordenei.

Depois, reunidas no refeitório todas as Irmãs, pôs-se a rezar junto com elas; e eis que, durante a oração, as fatias de pão cresciam maravilhosamente nas mãos de Irma Cecília que as distribuía. Todas as Irmãs ficaram abundantemente servidas e não cessavam de dar graças à santa abadessa e mais ainda ao bom Deus, que renovara diante dos seus olhos o prodígio da multiplicação dos pães.

134. SENTAR-SE AO LADO DE UM PADRE

Não faz muito tempo deu-se em Roma o seguinte caso. Um padre subiu a um bonde e foi sentar-se ao lado de certo individuo, que seria tudo menos um cavalheiro. Por que? Porque, levantando-se de mau humor, foi sentar-se ao lado de uma senhora, dizendo em voz alta - para ser ouvido de todos - que não queria viajar ao lado de um corvo.

A senhora mais que depressa levantou-se e foi assentar-se ao lado do sacerdote, dizendo: 'E eu não quero ficar perto de um asno!' Gargalhadas sonoras obrigaram o mal-educado a calar-se envergonhado e a descer na primeira parada.

135. NO TRIBUNAL DE DEUS

São Jerônimo, que foi sempre estudiosíssimo, quando jovem apaixonou-se demais pelos clássicos latinos, e lia com avidez as obras de Plauto, de Terêncio e especialmente de Cícero. Ele mesmo conta que, uma vez, estando gravemente enfermo e à beira da morte, foi arrebatado em espírito ao tribunal do Juiz Jesus Cristo.

Eu estava - dizia o santo - com o rosto por terra e, ferido pelo fulgor do rosto de Deus e não ousava erguer os olhos. O Juiz interrogou-me: 'Quem és tu?' E eu, com voz trêmula, respondi: 'Sou Jerônimo, sou cristão'. 'Cristão? Mentes; não és cristão, mas ciceroniano - Mentiris; Ciceronianus es, non Christianus'.

Em seguida uma mão invisível desferiu-me uma tempestade de açoites. Eu gritava: 'Misericórdia! Misericórdia!', fazendo mil promessas de não ler mais os clássicos profanos e de entregar-me ao estudo assíduo da Sagrada Escritura. Ó quão rigoroso não será o Juízo divino!

136. O MEMORARE DO 'TERROR'

Na terrível época que se chamou na França como 'o Terror', um certo dia o vigário de Firanges (diocese de Puy) estava batizando ocultamente uma criança. Naquela infeliz época, isso era um crime passível de morte. Repentinamente, 14 hussardos e 5 gendarmes, guiados por um fogoso revolucionário, cercaram a aldeia  de Boisseyres e a casa onde estava o padre. Fugir era impossível. E onde esconder-se?

'Ó Maria, exclamou o padre, vós me salvareis, e eu recitarei o memorare (Lembrai-vos) todos os dias de minha vida, e o farei cantar todos os domingos na minha paróquia'. Assim dizendo, refugiou-se atrás de um armário. O primeiro soldado entrara no aposento justamente no momento em que ele cobria com um velho chapéu de palha as extremidades dos pés que ficaram por baixo do armário. Os soldados procuraram, revistaram, quebraram e estragaram tudo, mas não encontraram o padre. Um dos soldados chegou a enfiar a sua espada por três vezes atrás do armário; a espada passou sempre ao longo do corpo do pároco sem fazer-lhe nem a mínima ferida. Os carrascos partiram desapontados e o sacerdote se salvou.

O protegido de Maria foi fiel em cumprir o seu voto e os seus sucessores continuaram esta prática que consagrou aquela comovente recordação: depois do Magnificat, na igreja paroquial de Piranges, ecoava sempre o canto do Memorare.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 14 de julho de 2026

A SÓS COM DEUS (IV)

 

O santo ama a solidão e ama o retiro e o silêncio, porque ama a luz, porque recebe soberanas notícias da infinita magnificência de Deus; como vive vivendo o amor de Deus, todas as coisas lhe falam de Deus e o próprio Deus fala continuamente ao seu coração palavras do Céu.

Quero nestes dias de recolhimento especial olhar para essas nobilíssimas verdades e pedir humildemente ao Senhor que Ele mesmo me ensine tanta formosura. O amoroso conhecimento e abraço desta formosura faz, ainda na terra, a felicidade da alma santa que goza de viver na companhia de Deus. O trato não necessário com as criaturas impede esta amorosa e gozosa comunicação da alma com Deus e a afasta da vida e da luz divinas.

Nestes dias quero fechar os olhos e os ouvidos do meu corpo, para estar atento e abraçado somente com Deus. Recolhe-te, alma minha, dentro de ti mesma e submerge-te na luz, na verdade, na beleza infinita e no amor sem limites de Deus. Esconde-te em teu Deus, com visão de fé, e vive a vida eterna da graça e do amor.

Moisés, o escolhido de Deus, subiu ao alto do Monte Sinai, ao silêncio não perturbado por ninguém, à claridade e luz pura não contaminada; subiu, deixando abaixo o ruído e as inquietações das gentes com todos os seus afãs, preocupações e pequenezas; subiu para isolar-se das necessárias perturbações de seus afazeres e obrigações e ficar a sós com Deus. Não subia para morrer; subia para receber a instrução e o ensinamento do próprio Deus; para tratar em silêncio e isolamento com Deus e escutar diretamente as palavras de verdade que Ele colocava no íntimo de sua alma. 

Em um momento difícil da perseguição que padeceu por parte dos grandes da terra, Elias sentiu a vida pesada e intolerável; sentiu um tédio avassalador e o peso de sua miséria natural. Deus mandava-o subir à solidão e ao silêncio, e na luz de Deus. Elias não fala, mas escuta, olha, atende a Deus no silêncio e no esquecimento das criaturas, e sente a presença e o olhar de Deus. Nesse olhar de amor, comunica-se-lhe e dá-se-lhe a sabedoria do divino conhecimento. Junto com este conhecimento, recebeu em sua alma a fortaleza do espírito e a vida de Deus, que é vida eterna de luz, de verdade e de todo bem.

Como a Moisés e como a Elias, chamastes-me e trouxestes-me, Senhor, à Religião, e agora a esta solidão e recolhimento; não para morrer, nem para tristezas, nem para ruídos ou distrações com as criaturas, não para descansar, mas para a tua casa de silêncio e santidade, para viver em ti mesmo, para comunicar-te e dar-me a tua vida, e alegrias e luzes do espírito; vim para viver na tua própria vida.

Que eu vos conheça e vos ame, Deus meu. Quereis dar-me uma vida sobrenatural em plenitude. Que eu prepare a minha alma com virtudes e com o contínuo trato convosco na oração e no silêncio, para que possa crescer e desenvolver-se continuamente mais esta vossa vida em mim. Dá-me a vossa própria vida. Como poderei corresponder a um tal bem?

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

segunda-feira, 13 de julho de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXVII)

 

'Cada novo dia é uma moeda a mais que Deus nos dá para comprarmos a sua glória'

(Santa Rosa de Lima)

Eu consagro, neste dia, a minha mente e meus pensamentos em atos de louvor e glória ao meu Senhor e meu Deus. Que, durante várias vezes ao longo do dia de hoje, eu tenha o firme propósito de concentrar completamente os meus pensamentos em Vossa Santa Presença e ligar minha consciência de Filho de Deus à corrente de louvores e graças que se proclamam sem cessar, e por todo o sempre, à Vossa Glória em toda a Terra e nos Céus.

domingo, 12 de julho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

               

'A semente caiu em terra boa e deu fruto' (Sl 64)

Primeira Leitura (Is 55,10-11) - Segunda Leitura (Rm 8,18-23) - Evangelho (Mt 13,1-23)

  12/07/2026 - DÉCIMO QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

A PARÁBOLA DO SEMEADOR


No Evangelho deste domingo, Jesus nos ensina a força e a eficácia da Palavra de Deus, lançada aos homens pelo semeador, imagem do apóstolo. Palavra que fecunda e irriga de graças a terra inteira, e que produz muitos frutos de salvação, pois assim diz o Senhor: 'Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la' (Is 55,10 - 11).

Jesus se coloca em uma barca, às margens do mar da Galileia e fala à multidão, reunida na praia, por meio de uma parábola: 'Ouvi, portanto, a parábola do semeador' (Mt 13,8). A Palavra de Deus é um tesouro de bênçãos e graças, que somente se revela na luz do Cristo, na pureza de uma consciência devotada às coisas do Alto, no despojamento do eu e na entrega ao discernimento espiritual de ver, ouvir e entender as coisas de Deus com o coração (profecia de Isaías). Os mistérios do Reino dos Céus são revelados apenas aos pequeninos, aos puros de coração, aos Filhos da Luz.

Jesus é o Semeador; a Palavra de Deus feita Carne, Sangue e Revelação. As sementes da graça devem ser acolhidas, endossadas, vividas, transmitidas, compartilhadas. Almas de apóstolo, eis a síntese da nossa fé cristã, pois também somos semeadores da Palavra de Deus: 'A verdade sai de minha boca, minha palavra jamais será revogada: todo joelho deve dobrar-se diante de mim, toda língua deve jurar por mim' (Is 45,23).

A Palavra de Deus é semente lançada ao mundo para se tornar fruto de salvação. No coração enrijecido dos que renegam o Cristo, a semente é vã pois foi lançada em terra estéril, à beira do caminho. Há sementes que morrem sem germinar entre pedras ou entre espinhos, sem encontrar raízes ou luz, sufocadas pelas paixões do mundo, estancadas por qualquer revés, entregues à própria sorte de suas enormes fragilidades. As sementes que dão fruto são aquelas acolhidas na terra fértil do coração humilde e da alma temente a Deus, regadas e cuidadas com zelo e perseverança, firmadas em raízes profundas e alimentadas pela luz do Cristo. Sementes da graça que vão produzir frutos em abundância: 'Um dá cem, outro sessenta e outro trinta' (Mt 13,23).