quarta-feira, 23 de setembro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (153/155)

 

153. POR QUE CHORAS?

Uma menina, mandada a fazer uma compra, perdeu o dinheiro e pôs-se a chorar. Um senhor, que por ali passava, perguntou-lhe:
➖ Menina, por que choras?
➖ Porque perdi o dinheiro com que devia fazer uma compra.
➖ Oh! E por que não tens mais cuidado?
➖ O senhor tem razão; mas o que mais me aflige é pensar no quanto custa ao meu pobre pai ganhar esse dinheiro.

Aquele senhor, compadecido, deu-lhe o dinheiro. Alguns instantes depois voltou a menina para devolver-lhe aquela importância, pois encontrara o dinheiro que havia perdido. O homem, admirado de tanta honradez, não aceitou a devolução e, como recompensa, deu-lhe mais outra quantia. A menina não a queria aceitar, repetindo que não fizera mais que cumprir o seu dever. O senhor, porém, respondeu que ela merecia aquele presente porque procedera não só com justiça mas com honradez.

154. O AMOR DÁ CORAGEM

Era uma jovem de uns dezesseis anos. Vivia num bairro pobre de uma cidade do norte da Espanha. Todos ali eram pescadores e passavam a vida à beira do mar. Sobre aquelas águas sem horizonte navegavam todos os dias procurando naqueles procelosos abismos o pão de cada dia. O pai de nossa jovem era pescador, e dos piores e mais brutos que se possam imaginar. Nunca o viram na igreja. Para ele só havia dois lugares prediletos: a taberna e o mar. Muito natural, portanto, que sua filha, apesar de seus dezesseis anos, não tivesse feito a primeira Comunhão.

Naqueles dias tinham chegado ali alguns padres missionários. Transformaram um barracão em igreja e, pela manhã e à noite, reuniam aqueles pobres pescadores para falar-lhes de Deus e da salvação eterna. Além disso, em horas diversas, reuniam os meninos e as meninas para explicar-lhes o catecismo. E isto era uma necessidade porque, entre aquelas pobres alminhas, muitas nunca tinham ouvido falar de confissão ou de comunhão. Nossa jovem de dezesseis anos era das mais assíduas e atentas. De manhã, quando o pai ia para o mar, ela corria à capela dos missionários para aprender a rezar e cantar e ouvir coisas tão belas que nunca ouvira em sua vida.

Chegou o dia da confissão. Passavam de sessenta as meninas que já haviam completado quinze anos e que no dia seguinte iam ter a felicidade de receber Jesus pela primeira vez. Estavam todas radiantes de alegria. Começava a anoitecer e o padre missionário levantou-se do confessionário. Terminara a sua tarefa. Naquele momento aproximou-se dele uma daquelas meninas e, apontando com o dedo uma jovem que estava no fundo da capela, disse:
➖ Padre, aquela menina tem mais de dezesseis anos e ainda não fez também a primeira comunhão. Nem sequer se confessou. Mas o senhor não a confesse porque, se o pai dela souber que se confessou, dá-lhe uma sova e a deixa moída.
➖ Ele é tão mau assim?
➖ Se é! É péssimo. É o pior homem do bairro e tem o apelido de 'Barrabás'.

O padre missionário dirigiu-se à jovenzinha, que já conhecemos, e entre os dois travou-se o seguinte diálogo:
➖ Quantos anos tens?
➖ Já completei dezesseis.
➖ Nunca te confessaste?
➖ Nunca.
➖ Sabes o catecismo?
➖ Antes, não; mas agora, sim; porque todos os dias tenho vindo pela manhã e à tarde e comprei um livrinho e já o sei de cor.

O padre fez-lhe algumas perguntas e viu que não havia menina que soubesse o catecismo tão bem como ela.
➖ E queres confessar-te?
➖ Sim, Padre.
➖ E comungar?
➖ Mais ainda.
➖ E teu pai consentirá?
➖ Meu pai não o saberá. Quando ele for de manhã para o mar, eu venho comungar e ele não ficará sabendo. E se souber...
➖ Então ele te bate...
➖ Paciência. Será só mais uma surra.

O missionário estava pasmado. A almas como aquelas não se pode negar o maior prêmio da vida: a Eucaristia. Sentou-se, pois, no confessionário e a menina aproximou-se da grade. Já estava o padre a dar-lhe a absolvição, quando se ouviram na capela uns passos pesados e compassados. Não havia dúvida: tinha que ser algum pescador que entrava com seus pesados sapatões. E era isso com efeito. Foi direto ao confessionário e, agarrando pelo braço a jovem que naquele instante se levantava, deu-lhe tremendas bofetadas e pontapés, empurrando-a para a rua e dizendo:
➖ Eu já suspeitava que tu andavas por aqui. De onde te vêm essas beatices? Eu te ensinarei a ter juízo. Fora daqui, filha má...

Era o pai. Não se enganaram os que disseram que ele era o homem mais bruto do bairro. O padre missionário não podia fazer nada com aquele pai monstro.
➖Meninas - disse àquelas que estavam ainda na igreja e contemplavam aterradas aquela cena brutal -  meninas, de joelhos! Vamos rezar três Ave-Marias por aquela filha mártir e por aquele pai verdugo.
E todos se ajoelharam e rezaram com fervor. 

Amanheceu o grande dia da comunhão daquelas boas meninas. Antes da hora já estavam ali com seus melhores vestidinhos. Os bancos estavam enfeitados com flores brancas. Ia começar a missa e o padre perguntou:
➖ Veio aquela menina a quem o pai ontem esbofeteou tão brutalmente?
➖ Não - disseram - não devemos esperar por ela. Terá cama por alguns dias, talvez com alguma costela quebrada.
Diziam isto, quando junto à pia de água benta apareceu a nossa jovem. Tinha a cabeça toda enfaixada, mas seus olhos brilhavam de alegria. Fez o sinal da Cruz e, satisfeita e resoluta, sentou-se no banco entre as outras jovens.
➖ Mas, minha filha - disse-lhe o velho missionário - o que foi que te aconteceu?
➖ Nada, padre - respondeu com a maior tranquilidade - apenas meu pai, por eu me ter confessado, me deu ontem tão tremendas pancadas, que estou com o rosto e a cabeça cobertas de feridas.
➖ E teu pai, onde está agora?
➖ Seguiu para o mar.
➖ Ele sabe que vieste comungar,?
➖ Não, senhor.
➖ E se ele vier a saber?
➖ Vai me dar outra sova.
➖ E que dizes sobre isso?
➖ Não faz mal, padre; para ter a felicidade de comungar, a gente bem pode aguentar duas sovas.
Com que prazer não terá Jesus entrado naquele coração. Aquela jovem, sim, amava a Jesus; aquela, sim, sabia fazer sacrifícios por amor de Jesus Cristo! Vós, meninos e meninas, admirai-lhe a grandeza de alma, a coragem e tal firmeza de caráter.

155. QUE SANTOS BEIJOS!

Margarida acabava de completar vinte anos. Não era mais uma menina. Entretanto, desde a sua primeira comunhão, amava a Jesus-Hóstia com um amor imenso, apaixonado. Sua maior alegria e felicidade consistia em lavar e engomar os objetos que serviam para o altar. Lavava as toalhas e, quando acabava de engomá-las, depositava nelas um beijo porque sabia que sobre elas seriam colocados pelos sacerdotes o cálice, o cibório, a custódia... Lavava e engomava os corporais e beijava-os não uma mas muitas vezes, porque - dizia - sobre eles repousará a branca hóstia, depois de consagrada.

Às vezes estava sozinha na igreja e não podia conter-se: corria ao altar do Santíssimo e, quando julgava que ninguém a via, subia a uma cadeira e beijava a portinha do sacrário, porque - dizia - ali atrás está escondido o meu amor. Aquela alma estava madura para o céu. Margarida morreu na flor dos anos. Tendo sido sacramentada, ia receber o sagrado viático; e foi então que fez o que sempre desejara fazer. Quando o sacerdote aproximou de seus lábios a hóstia divina, que seria a sua última comunhão, antes de tomá-la, imprimiu-lhe um beijo. E dizia depois, satisfeita, que nada mais lhe faltava para ser feliz. E partiu para o céu...

Todo ato de amor, toda jaculatória de amor, passará através da portinha do Sacrário e encherá de alegria o coração de Jesus tão esquecido pelos bons e tão desprezado pelos maus.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 22 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (II)

2. OS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA

Um patrão sai de casa, em diferentes horários do dia, à procura de trabalhadores para a sua vinha [Mt 20,1-16a].

[1] O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha.
[2] Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 
[3] Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 
[4] e lhes disse: 'Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo'. 
[5] E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 
[6] Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: 'Por que estais aí o dia inteiro desocupados?' 
[7] Eles responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão lhes disse: 'Ide vós também para a minha vinha'. 
[8] Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!'
[9]  Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. [10] Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. 
[11] Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 
[12] 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro'. 
[13] Então o patrão disse a um deles: 'Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 
[14] Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 
[15] Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?' 
[16a] Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.


A dificuldade do texto é que ele apresenta uma aparente injustiça. O salário representa o dom do Reino de Deus, que não é compartilhado com os princípios da lógica humana. A moeda de prata [denário] como pagamento diário [2] representa primariamente a vida eterna e, sendo um dom de Deus, não pode ser fracionada, porque a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou ainda que mais tarde, ao mesmo chamado à vinha e tornaram-se, então, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus [8].

A premissa fundamental desta passagem dos Evangelhos é que Deus não faz acepção de pessoas. O Reino não é concedido em virtude de origem étnica, posição social ou anterioridade histórica, mas a todos que respondem sim ao chamado comum aos filhos de Deus. Todos os que receberam a moeda de prata aceitaram o chamado e, ainda que por pouco tempo, mereceram usufruir integralmente as graças divinas. As diversas horas do dia [1,3,5,6] representam diferentes etapas da vida humana: infância, juventude, maturidade, idade avançada ou proximidade da morte. São Gregório Magno associa uma segunda escala de tempos, associada à história da salvação, além dos períodos da vida humana: madrugada (época de Adão a Noé), nove horas da manhã (de Noé a Abraão), meio dia (de Abraão a Moisés), três horas da tarde (de Moisés a Cristo) e cinco horas da tarde (o tempo a partir de Cristo e da convocação dos gentios). Na história da salvação, os trabalhadores da primeira hora podem representar o povo da Antiga Aliança e os últimos, os gentios introduzidos na Igreja. E estes, portanto, não recebem um Reino de Deus inferior aos primeiros por terem sido chamados mais tarde na história.

A proposição fundamental distingue duas ordens de princípios: (i) justiça: Deus dá aos primeiros trabalhadores chamados aquilo que lhes prometeu; (ii) misericórdia: Deus dá aos últimos trabalhadores chamados mais dos que eles teriam merecido, num sentido não de elogiar o atraso voluntário da conversão, mas impedir o desespero daquele que foi chamado tarde. E, neste contexto, sobrevém a terceira ordem de princípios:  (iii) graças divinas: a parábola não elimina o verdadeiro mérito das obras realizadas na graça, nem exclui diferentes graus de glória. Todos os trabalhadores possuem o mesmo bem essencial: Deus. Mas nem todos o recebem segundo a mesma capacidade de caridade e mérito.

A parábola não nega o mérito; combate a pretensão de transformar a graça em dívida para com Deus. Este ensinamento está presente pela murmuração dos trabalhadores que foram contratados primeiro [11], pelo fato de o patrão ter determinado ao administrador efetuar o pagamento começando pelos últimos trabalhadores [8]. Eles não ficaram satisfeitos por apenas receber o que era justo [13], mas postularam uma partilha distinta em relação aos últimos, convertendo uma reivindicação aparentemente justa em inveja espiritual [15]. Portanto, cuidado: ainda que tenhamos trabalhado bem uma vida inteira, não nos locupletemos de orgulho próprio para reivindicar um mérito que não é nosso e muito menos para menosprezar aqueles que a Providência Divina esperou para chamar depois.

Por outro lado, a parábola não nos autoriza adiar a conversão e isso constituiria uma leitura gravemente contrária à sua proposição. Ao chamado do patrão, os trabalhadores da última hora disseram: 'Ninguém nos contratou' [7] e não: 'fomos chamados mais cedo, mas preferimos ser chamados outra vez somente no final do dia'. Há uma diferença fundamental entre aquele que só conhece ou acolhe eficazmente o chamado de Deus no final da vida (como o bom ladrão dos Evangelhos) daquele que porventura presume da misericórdia divina e adia deliberadamente a sua conversão. A presunção é um pecado gravíssimo contra a esperança, porque ninguém pode saber se terá uma última hora, tempo para se converter ou disposição interior para fazê-lo ainda em tempo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

MEMÓRIA DO SANTO DO DIA

SANTA EFIGÊNIA, ROGAI POR NÓS! 

ONDE ESTÁS, QUANDO NÃO ESTÁS CONTIGO?

 


1. Não podemos confiar muito em nós, porque frequentemente nos faltam a graça e o critério. Pouca luz temos em nós e esta facilmente a perdemos por negligência. De ordinário também não avaliamos quanta é a nossa cegueira interior. A miúdo procedemos mal e nos desculpamos, o que é pior. Às vezes nos move a paixão, e pensamos que é zelo. Repreendemos nos outros as faltas leves, e nos descuidamos das nossas maiores. Bem depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos, mas não se nos dá do que os outros sofrem de nós. Quem bem e retamente avaliasse suas obras não seria capaz de julgar os outros com rigor.

2. O homem interior antepõe o cuidado de si a todos os outros cuidados, e quem se ocupa de si com diligência facilmente deixa de falar dos outros. Nunca serás homem espiritual e devoto, se não calares dos outros, atendendo a ti próprio com especial cuidado. Se de ti só e de Deus cuidares, pouco te moverá o que se passa por fora. Onde estás, quando não estás contigo? E, depois de tudo percorrido, que ganhaste se esqueceste a ti mesmo? Se queres ter paz e verdadeiro sossego, é preciso que tudo mais dispenses, e a ti só tenhas diante dos olhos.

3. Portanto, grandes progressos farás se te conservares livre de todo cuidado temporal; muito te atrasará o apego a alguma coisa temporal. Nada te seja grande, nobre, aceito ou agradável, a não ser Deus mesmo ou o que for de Deus. Considera vã toda consolação que te vier das criaturas. A alma que ama a Deus despreza tudo que é abaixo de Deus. Só Deus eterno e imenso, que tudo enche, é o consolo da alma e a verdadeira alegria do coração.

(Da Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis)

domingo, 20 de setembro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'O Senhor está perto da pessoa que o invoca!' (Sl 144)

Primeira Leitura (Is 55,6-9) - Segunda Leitura (Fl 1,20c-24.27a) - Evangelho (Mt 20,1-16a)

  20/09/2026 - VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 NAS VINHAS DO SENHOR


Estamos na fase final da pregação pública de Jesus; depois da longa preparação dos discípulos e das premissas do seu Evangelho, aproxima-se o momento do sacrifício do Cordeiro Imolado para a salvação do mundo. Resta ao Senhor pouco tempo para consolidar, entre os seus, os fundamentos da Igreja e das realidades do Reino dos Céus. E, numa parábola magnífica, Jesus nos ensina que Deus nos chama a todos à perfeição e concede o mesmo prêmio de salvação eterna, independentemente de quando os seus escolhidos encontraram definitivamente o caminho da graça.

'O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha' (Mt 20, 1-2). Desde o batismo, desde a primeira hora, desde 'a madrugada' dos tempos, somos chamados a partilhar e compartilhar a glória de Deus nas vinhas do Senhor, como fieis da Igreja, como discípulos do Cristo, como filhos de Deus. No mundo dos homens, desde o batismo nos tornamos herdeiros potenciais da graça, operários da messe a caminho do Céu.

Mas o mundo nos empurra e confunde a caminhada da graça; as aspirações humanas nos tolhem e retêm os propósitos de santificação. Ficamos à mercê dos tempos e dos contratempos. Deus não nos abandona nunca e, como o patrão persistente e incansável, volta pela manhã, pelo meio-dia, pela tarde, pelo final do dia, à espera do 'sim' filial, pela conversão definitiva, pelo retorno do filho pródigo. Na parábola dos operários da vinha, todos receberam igualmente o mesmo prêmio, o mesmo pagamento, mesmo os que foram chamados por último: 'cada um deles também recebeu uma moeda de prata' (Mt 20, 10). Porque a medida da justiça de Deus não é feita pelas medidas humanas: a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou mesmo mais tarde, ao chamado à vinha e tornaram-se, assim, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus.

Ainda assim, nas sementeiras da graça, fomentaram-se os espinhos da discórdia e da inveja, por parte dos operários que se julgaram injustiçados com o pagamento equivalente: 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’ (Mt 20, 12). Pelo olhar da inveja humana, a misericórdia infinita de Deus teria que ter dimensões paralelas e distintas; a inveja obscurece o valor da graça daquele que a recebeu mais cedo pela concessão da mesma graça concedida ao que chegou mais tarde a ela nos caminhos da vida e, tantas vezes por isso, 'os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos' (Mt 20, 16). Porque a inveja mata e aniquila as sementes da graça recebida e é a caridade comum entre todos que produz, em todos, os mesmos frutos de vida eterna, nas vinhas do Senhor.

sábado, 19 de setembro de 2026

AS VINHAS DE DEUS (XIII/Final)

 

86. Há uma certa erva que, quando mastigada, comunica tamanha doçura que aqueles que a conservam na boca não podem sentir fome nem sede. Assim também, aqueles a quem Deus concede o seu maná celestial de doçura e consolação interiores não podem desejar nem aceitar as consolações mundanas com verdadeiro gosto ou satisfação. É uma pequena antecipação da bem-aventurança eterna, que Deus concede àqueles que o procuram; é o confeito que Ele oferece aos seus filhos para atraí-los; é o cordial que lhes apresenta para fortalecer-lhes o coração; é também, algumas vezes, o penhor e a garantia das recompensas eternas.

87. Quando nossa vontade encontra Deus, repousa nEle, encontrando nEle uma soberana complacência; entretanto, não deixa de exercer o movimento do desejo: pois, assim como deseja amar, ama também desejar; possui o desejo do amor e o amor do desejo. O repouso do coração não consiste em permanecer imóvel, mas em não necessitar de coisa alguma. Não consiste em não ter movimento, mas em não estar sujeito à necessidade de se mover.

88. Nada faz a camomila parecer tão amarga quanto provar mel antes dela. Quando começarmos a saborear as coisas divinas, já não será possível que as coisas deste mundo despertem o nosso apetite.

89. O suco da romã, como todos sabemos, é muito agradável tanto aos enfermos quanto aos sadios e apresenta uma mistura tão íntima de amargor e doçura que é difícil dizer se agrada ao paladar por sua doce amargura ou por sua amarga doçura. Do mesmo modo, o amor é agridoce; e, enquanto permanecermos neste mundo, sua doçura nunca será perfeitamente doce, porque o próprio amor nunca é perfeito, nem jamais se encontra pura e perfeitamente saciado e satisfeito. Não obstante, mesmo aqui o amor é extremamente agradável: sua amargura torna mais delicada a suavidade de sua doçura, enquanto sua doçura torna mais vivo o encanto de sua amargura.

90. Virá a hora da consolação; e então, com indizível doçura de alma, abrireis o vosso íntimo diante da Bondade Divina, que transformará vossos rochedos em fontes de água, vossa serpente em vara, e todos os espinhos do vosso coração em rosas - e nas mais belas das rosas - que reconfortarão o vosso espírito com sua doçura.

91. Os mundanos e os homens terrenos, que vivem conforme os costumes da terra, tão logo concebem algum bom pensamento ou alguma ideia que lhes parece digna de estima, ou quando possuem alguma virtude, não descansam enquanto não a exibem e a tornam conhecida por todos aqueles que encontram. Nisso, correm o mesmo risco das árvores que fazem brotar suas folhas muito cedo na primavera, como as amendoeiras: se, por acaso, a geada as surpreende, elas perecem e não produzem fruto algum. As pessoas mundanas, que tão levianamente deixam suas flores desabrochar na primavera desta vida mortal, movidas por um espírito de orgulho e ambição, correm sempre o grande risco de serem surpreendidas pela geada, que lhes fará perder o fruto de suas ações.

92. Os justos, ao contrário, conservam todas as suas flores encerradas na bainha da santa humildade e, tanto quanto podem, não permitem que apareçam antes do tempo do grande calor: quando Deus, o divino Sol da justiça, vier aquecer seus corações na vida eterna, onde produzirão para sempre o doce fruto da felicidade e da imortalidade.

93. Somos semelhantes ao coral que, no lugar de sua origem - o oceano - é um arbusto verde-pálido, frágil e flexível; mas, uma vez retirado das profundezas do mar, como do ventre de sua mãe, torna-se quase uma pedra e passa do verde ao vermelho vivo. Assim, enquanto permanecemos mergulhados no mar deste mundo, lugar de nosso nascimento, estamos sujeitos a mudanças extremas e somos flexíveis para todos os lados: à direita, inclinamo-nos ao amor celestial pela inspiração; à esquerda, ao amor terreno pela tentação. Mas, uma vez retirados desta condição mortal, teremos transformado o verde-pálido de nossas esperanças temerosas no vermelho vivo da posse segura. Nunca mais seremos inconstantes, mas permaneceremos para sempre firmes no amor eterno.

94. Sucede com tudo o que poderíamos dizer a respeito da grandeza, da glória e da felicidade eternas, bem como da beleza e dos encantos de que o Céu está repleto. Com efeito, entre uma única folha ou um único fruto e a própria árvore, inteiramente coberta de folhas e carregada de frutos, existe uma proporção ainda maior do que entre a luz do Sol e o esplendor de que os bem-aventurados desfrutam na glória. Nem a beleza dos prados adornados de flores na primavera, nem o encanto dos campos cobertos de colheitas maduras podem comparar-se à beleza e ao encanto dos campos celestiais da felicidade eterna, que superam infinitamente tudo quanto deles se possa dizer ou conceber.

95. Ó queridas resoluções, sois a bela árvore da vida que meu Deus plantou com suas próprias mãos no centro do meu coração e que meu Salvador deseja regar com seu sangue, para fazê-la produzir frutos. Eu morreria mil vezes antes de permitir que algum vento vos arrancasse do meu coração. Não! Nem os prazeres, nem as riquezas, nem as tribulações jamais me afastarão desta resolução. Ah, Senhor! Vós a plantastes e, desde toda a eternidade, guardastes em vosso seio paterno esta bela árvore para o meu jardim. Ai! Quantas almas não receberam semelhante favor! Como poderei, então, humilhar-me suficientemente diante de vossa misericórdia?

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. VII, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

POEMAS PARA REZAR (LXV)

 

OBLAÇÃO

Que eu seja nada, mais que coisa alguma,
tão desprovido de mortais matérias 
que o elogio se transforme em espuma
e o fogo consuma todas as misérias!

Que minha imagem seja palidez e sombras
para os que se importam com imagens tais
e se restarem os ais das minhas sombras
que se desvaneçam nas sombras dos meus ais!

Que eu anseie a Luz muito mais que a vida
sem valia alguma da humana medição;
que se eu tiver que me impor certa medida
que seja não ter limites os limites do perdão!

Que faça comunhão minhas mãos finitas
E que eu seja uva e pão, ainda que massa,
que se convertam em vossas mãos benditas,
em divinas hóstias de infinita graça!

(Arcos de Pilares)