quarta-feira, 29 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVIII)

         

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XIII. Como os bem aventurados serão levados ao Céu após o Juízo Final 

Quando a terra se abrir e engolir as almas dos condenados, então os anjos e os bem-aventurados exultarão e se alegrarão. Eles exaltarão a justiça de Deus e confessarão que os réprobos mereceram plenamente o seu destino. São João, em seu Apocalipse, oferece uma bela descrição de como os bem-aventurados se alegrarão e glorificarão a justiça de Deus.

Vi descer do céu outro anjo que tinha grande poder, e a terra foi iluminada por sua glória. Clamou em alta voz, dizendo: 'Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios... porque seus pecados se acumularam até o céu, e Deus se lembrou das suas injustiças. Faze com ela o que fez (contigo), e retribuí-lhe o dobro de seus malefícios; na taça que ela deu de beber, dá-lhe o dobro. Na mesma proporção em que fez ostentação de luxo, dá-lhe em tormentos e prantos... Exulta sobre ela, ó céu; e também vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus julgou contra ela a vossa causa' (Ap 18,1-2.5-7.20).

Depois disso, ouvi no céu como que um imenso coro que cantava: 'Aleluia! A nosso Deus a salvação, a glória e o poder, porque os seus juízos são verdadeiros e justos. Ele executou a grande Prostituta que corrompia a terra com a sua prostituição, e pediu-lhe contas do sangue dos seus servos'. Depois recomeçaram: 'Aleluia! Sua fumaça sobe pelos séculos dos séculos'. Então, os vinte e quatro Anciãos e os quatro Animais prostraram-se e adoraram a Deus que se assenta no trono, dizendo: 'Amém! Aleluia!'. Do trono saiu uma voz que dizia: 'Cantai ao nosso Deus, vós todos, seus servos que o temeis, pequenos e grandes'... 'Aleluia! Eis que reina o Senhor, nosso Deus, o Dominador!' Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe glória, porque se aproximam as núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada... 'Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro' (Ap 19,1-7.9).
 
Essas palavras, de fato, apresentam uma perspectiva maravilhosa. Quão excelente não será o canto de triunfo dos santos quando entrarem como convidados nas bodas do Cordeiro! Quão em regozijo cantarão Aleluia! Quão fervorosamente agradecerão a Deus por tê-los livrado da condenação eterna e por tê-los contado entre os seus eleitos!

A ascensão ao Céu ocorrerá em seguida. Será que alguém ousa descrever isso também? As mais doces melodias encherão o ar. São Miguel liderará a gloriosa procissão, carregando a cruz na qual Cristo morreu. Pois a cruz e todos os outros instrumentos da Paixão serão preservados no Céu - pelo menos essa é a opinião de vários teólogos eruditos. Seguindo essas relíquias sagradas, virá o primeiro coro de Anjos, juntamente com aqueles membros da companhia dos salvos a quem a sentença de Cristo designou um lugar no mais baixo dos coros angélicos. As crianças que morreram na infância e as almas que persistiram no pecado até o fim, mas que foram salvas pela infinita misericórdia de Deus e pelo verdadeiro arrependimento de sua parte, estarão com o primeiro coro de anjos. Com que fervor elas louvarão seu Deus por sua compaixão indescritível!

Em seguida virá o coro dos arcanjos, e com eles os santos que mereceram um lugar neste segundo coro angelical. Casais tementes a Deus, viúvas devotas, além de outras pessoas piedosas que viveram no mundo, adornadas com maravilhosa beleza, louvarão e glorificarão a Deus junto com os arcanjos. Em terceiro lugar virá o coro das potências, entre os quais estarão todos os sacerdotes que levaram uma vida santa na terra. Em seguida, virá o coro dos principados, com todos os bispos e prelados santos que governaram a Igreja para a glória de Deus e a salvação daqueles que lhes foram submetidos.

O coro das virtudes virá em quinto lugar, com os doutores da Igreja e todos aqueles que, por meio de sua doutrina e pregação, converteram os incrédulos e os conduziram ao conhecimento da verdadeira fé. Em sexto lugar, virá o coro das dominações, com os confessores que sofreram grande perseguição pela fé e morreram na miséria e na indigência por amor a Cristo. O coro dos tronos seguirá em seguida, com os santos mártires que derramaram o seu sangue e de bom grado entregaram suas vidas pelo nome de Cristo.

O oitavo coro é o dos querubins, entre cujas fileiras estarão aquelas santas virgens que não apenas mantiveram sua castidade imaculada, mas que, consumidas pela caridade divina, levaram uma vida de altíssima perfeição. O nono e mais elevado dos coros angélicos é o dos serafins. Com eles estarão os santos apóstolos e servos de Cristo, que, seguindo os passos do Redentor, viveram na terra uma vida semelhante aos anjos. Em suma, a cada um dos bem-aventurados será designado o seu lugar em qualquer um dos coros angélicos cuja companhia suas virtudes o tornem mais adequado.

Quão gloriosa será a procissão dos coros, e quão melodiosos serão os cânticos celestiais que entoarão! As palavras nos faltam quando tentamos descrevê-la. E para encerrar o cortejo triunfal, virá o Rei do Céu e da terra, coroado de esplendor, Cristo, o Filho primogênito do Pai celestial, acompanhado por sua Santíssima Mãe, a Virgem Maria. Ele estará rodeado de tal beleza e majestade que o Céu e a terra, e os Anjos e os homens, ficarão maravilhados. De fato, essa ascensão ao Céu será, em todos os aspectos, acompanhada de tal grandeza e glória, será tão inexprimivelmente sublime e bela, que nem mesmo os lábios de um Anjo conseguiriam dar sequer uma ideia do que poderia ser.

Considerai qual não será o êxtase dos redimidos quando se elevarem no ar, tanto em alma quanto em corpo, como se fossem espíritos puros, subindo cada vez mais alto, além dos orbes resplandecentes do Céu com seu brilho dourado, aproximando-se cada vez mais da Jerusalém celestial, a cidade de Deus. Que alegria indescritível os embriagará quando entrarem pelos portões dourados e contemplarem o esplendor e a magnificência da cidade de Deus. Quando a Rainha de Sabá viu a magnificência do palácio de Salomão, ficou sem palavras de espanto. Mas ali está alguém maior do que Salomão, e a majestade e a beleza do palácio do Rei dos reis serão infinitamente maiores do que as de qualquer monarca terreno. Daí podemos supor qual será o êxtase bem-aventurado dos abençoados, quando lhes for concedido contemplar o que Deus preparou para aqueles que o amam.

Não desejas, ó piedoso cristão, habitar com os redimidos e desfrutar das delícias indescritíveis da cidade de Deus, a Jerusalém celestial? Certamente que o desejas. Todos nós temos dentro de nós um impulso poderoso, um anseio ardente por felicidade e alegria. Não busques essa felicidade, não te esforces para garantir a alegria pela qual tua alma anseia neste vale de lágrimas. Levanta os teus olhos para a terra que está acima, que essa seja a tua meta, e um dia subirás às alturas com cânticos de júbilo. Que Deus conceda a ti e a mim que, por sua graça, esse destino feliz seja a nossa parte.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

MEMÓRIA DO SANTO DO DIA

SANTA CATARINA DE SENA, ROGAI POR NÓS!

terça-feira, 28 de abril de 2026

OS FRUTOS ATUAIS DA GRANDE APOSTASIA

De acordo com as palavras de São Paulo, 'haverá apostasia e o homem da iniquidade será revelado'. Em outras palavras, o Homem da Iniquidade nasce de uma apostasia ou pelo menos chega ao poder por meio de uma apostasia, ou é precedido por uma apostasia. Ou seja, ele não existiria se não fosse por uma apostasia. É isso que diz o texto inspirado; agora, observemos, como se pode ver na história, como o curso da Providência nos permite interpretar essa predição.

...Não há razões para temer que tal apostasia esteja sendo gradualmente preparada, se acumulando e amadurecendo em nossos dias? Não existe, neste exato momento, um esforço específico em quase todas as partes do mundo para se viver sem religião, mais ou menos evidente aqui e ali, mas mais visível e sedimenatdo nas regiões mais civilizadas e poderosas? Não há um consenso recente de que um estado não tem nada a ver com religião, que esta diz respeito apenas à consciência individual? O que equivale a dizer que podemos deixar a Verdade desaparecer da face da Terra sem fazer nada para impedi-la. Não existe um movimento vigoroso e unificado em todos os países com o objetivo de privar a Igreja de Cristo de seu poder e posição? Não existe um esforço febril e persistente para se livrar da necessidade da religião nos assuntos públicos? 

Por exemplo, a tentativa de abolir os juramentos sob o pretexto de serem demasiado sagrados para os assuntos do dia a dia, em vez de garantir que sejam proferidos de forma mais reverente e apropriada. Não haveria uma tentativa de educar sem religião, isto é, colocando todas as formas de religião no mesmo nível? Não haveria uma tentativa de reforçar a temperança e todas as virtudes que dela decorrem, sem religião, por meio de sociedades baseadas em meros princípios de utilidade? De ​​fazer da conveniência, e não da verdade, o fim e o padrão das decisões do Estado e da constituição das leis; de fazer dos números, e não da Verdade, o critério para defender ou rejeitar este ou aquele artigo de fé, como se as Escrituras fornecessem uma base para sustentar que muitos estão certos e poucos estão errados? 

De privar a Bíblia do seu significado primordial, para nos fazer pensar que ela tem cem significados, todos igualmente verdadeiros ou, por outras palavras, que ela não tem significado algum, que é letra morta e que pode ser desconsiderada? Substituir a religião como um todo, na medida em que é externa e objetiva, expressa em leis e palavras escritas, por algo meramente subjetivo, confinando-a aos nossos sentimentos internos e, assim, dada a sua instabilidade e variabilidade, destruindo, em última instância, a religião?

(Excertos de "Quatro Sermões sobre o Anticristo', proferidos pelo Cardeal John H. Newman em 1873!)

MEMÓRIA DO SANTO DO DIA

 

SÃO LUÍS DE MONTFORT, ROGAI POR NÓS!

segunda-feira, 27 de abril de 2026

O DESTINO FINAL DOS PRIMEIROS 32 PAPAS



Século I

1º Papa – São Pedro – bispo de Roma no período de 37 a 67
Morto por Nero – imperador romano no período de 41 a 68

2º Papa – São Lino – de 69 a 79
Morto por Vespasiano – imperador romano no períodode 69 a 79

3º Papa – São Cleto – de 79 a 92
Morto por Domiciano – imperador romano no período de 81 a 96

Século II

4º Papa – São Celemente – de 92 a 101
Morto por Trajano – imperador romano no período de 98 a 117

5º Papa – Santo. Evaristo – de 101 a 107
Morto por Trajano – imperador romano no período de 98 a 117

6º Papa – Santot. Alexandro – de 107 a 116
Morto por Trajano – imperador romano no período de 98 a 117

7º Papa – São Xisto – de 116 a 125
Morto por Adriano – imperador romano no período de 117 a 138

8º Papa – São Telésforo – de 125 a 138 
Morto por Adriano – imperador romano no período de 117 a 138

9º Papa – Santo Higino – de 138 a 142
Morto por Antonino – imperador romano no período de 138 a 161

10º Papa – São Pio I – de 142 a 155
Morto por Antonino – imperador romano no período de 138 a 161

11º Papa – Santo Aniceto – de 155 a 166
Morto por Marco Aurélio – imperador romano no período de 161 a 180

12º Papa – Santo Sotero – de 166 a 174
Morto por Marco Aurélio – imperador romano no período de 161 a 180

13º Papa – Santo Eleutério – de 174 a 189 
Morto por Cômodo -  imperador romano no período de 180 a 193

14º Papa – SãoVitor I – de 189 a 199
Morto por Septímio Severo – imperador romano no período de 193 a 211

Século III
 
15º Papa – São Zeferino – de 199 a 217
Morto por Caracala – imperador romano no período de 211 a 217

16º Papa – São Calixto I – de 217 a 222
Morto por Heliogábalo - imperador romano no período de 218 a 222

17º Papa – Santo Urbano I – de 222 a 230
Morto por Alexandre Severo - imperador romano no período de 222 a 235

18º Papa – São Ponciano – de 230 a 235
Morto por Alexandre Severo - imperador romano no período de 222 a 235

19º Papa – Santo Antero – de 235 a 236
Morto por Maximino - imperador romano no período de 235 a 238

20º Papa – São Fabiano de 236 a 250
Morto por Décio - imperador romano no período de 249 a 251

21º Papa – São Cornélio – de 251 a 253
Morto por Treboniano – imperador romano no período de 251 a 253

22º Papa – São Lúcio – de 253 a 254
Morto por Valeriano – imperador romano no período de 253 a 260

23º Papa – Santo Estêvão – de 254 a 257
Morto por Valeriano – imperador romano no período de 253 a 260

24º Papa – São Xisto II – de 257 a 258
Morto por Valeriano – imperador romano no período de 253 a 260

25º Papa – São Dionísio – de 259 a 268
Não sofreu o martírio

26º Papa – São Félix – de 269 a 274
Morto por Aureliano – imperador romano no período de 270 a 275

27º Papa – São Eutiquiano – de 275 a 283
Não sofreu o martírio

28º Papa – São Caio – de 283 a 293
Não sofreu o martírio

Século IV

29º Papa – São Marcelino – de 296 a 304
Não sofreu o martírio

30º Papa – São Marcelo I – de 308 a 309
Morto por Constâncio - imperador romano no período de 305 a 311

31º Papa – Santo Eusébio – de 309 a 310
Desterrado por Maxêncio - imperador (usurpador) romano no período de 306 a 312

32º Papa – São Melquíades – de 311 a 314
Não foi martirizado; o seu papado ocorreu justamente na transição entre as perseguições aos cristãos e a legalização da fé no Império Romano, especialmente após o Edito de Milão (313), promovido por Constantino I, o Grande – o primeiro imperador cristão (306 a 337).

domingo, 26 de abril de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

      

'O Senhor é o pastor que me conduz; para as águas repousantes me encaminha' (Sl 22)

Primeira Leitura (At 2,14a.36-41) - Segunda Leitura (1Pd 2,20b-25) - Evangelho (Jo 10,1-10)

  26/04/2026 - QUARTO DOMINGO DA PÁSCOA 

O BOM PASTOR


No Quarto Domingo da Páscoa, ressoa pela cristandade a imagem e a missão do Bom Pastor: 'Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz' (Jo 1,2 - 4). Jesus, o Bom Pastor, conhece e ama, com profunda misericórdia, cada uma de suas ovelhas desde toda a eternidade. Criadas para o deleite eterno das bem-aventuranças, redimidas pelo sacrifício do calvário e alimentadas pela sagrada eucaristia, Jesus acolhe as suas ovelhas com doçura extrema e infinita misericórdia.

E Jesus, plasmado pelo amor divino, conhece cada uma das suas ovelhas pelo nome. Nada, nem coisa, nem homem, nem demônio algum, poderá nos apartar do amor de Deus. Porque este amor, sendo infinito, extrapola a nossa condição humana e assume dimensões imensuráveis. Ainda que todos os homens perecessem e a humanidade inteira ficasse reduzida a um único homem, Deus não poderia amá-lo mais do que já o ama agora, porque todos nós fomos criados, por um ato sublime e extraordinariamente particular da sua Santa Vontade, como herdeiros dos céus e para a glória de Deus: 'Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele a glória por toda a eternidade!' (Rm 11,36).

Jesus toma sobre os ombros a ovelha de sua predileção, cada um de nós, a humanidade inteira, para a conduzir com segurança às fontes da água da vida (Ap 7,17), onde Deus enxugará as lágrimas dos nossos olhos. E nos mostra o caminho: 'Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem' (Jo 1,9). Somos chamados a uma vida de predileção na Casa do Pai, que homem algum jamais pôde sequer imaginar o que poderia ser viver a eternidade na glória de Deus: 'Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância' (Jo 1,10).

Reconhecer-nos como ovelhas do rebanho do Bom Pastor é manifestar em plenitude a nossa fé e esperança em Jesus Cristo, Deus Único e Verdadeiro, cuja bondade perdura para sempre e cujo amor é fiel eternamente (Sl 99,5). Como ovelhas do Bom Pastor, não nos basta ouvir somente a voz da salvação; é preciso segui-lo em meio às provações da nossa humanidade corrompida, confiantes e perseverantes na fé, até o dia dos tempos em que estaremos abrigados eternamente na tenda do Pai, lavados e alvejados no sangue do Cordeiro (Ap 7,14b).

sábado, 25 de abril de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (101/104)

 

101. ASSUNTO PARA MEDITAR

O padre Pedro Fabro, varão insigne da Companhia de Jesus, tinha granjeado fama de grande diretor de almas. Um dia procurou-o um cavalheiro e pediu-lhe algum assunto para meditar. O padre respondeu:
➖ Meu filho, basta que faças o seguinte: cada dia pensa por alguns instantes - Cristo em tanta pobreza e eu vivendo em tamanha opulência! Cristo sofrendo fome e sede, e eu gozando de tantos banquetes! Cristo desnudo e eu ricamente vestido! Cristo padecendo horríveis dores e eu no meio de tantas delícias!
➖ Nada mais, padre?
➖ Nada mais que isso.

O cavalheiro retirou-se um pouco desiludido. Entretanto, poucos dias depois, convidado a um jantar, no meio dos manjares suculentos, dos vinhos seletos e da música, no auge, enfim, da alegria, vem-lhe de repente o pensamento: Cristo com fome e sede e eu aqui a fartar-me e a embriagar-me como bruto... Saltaram-lhe as lágrimas dos olhos, levantou-se em silêncio e retirou-se para um convento a fazer penitência. 

Eu aqui... e Cristo na Cruz! Se estiveres lendo um mau livro quando, sobre o céu claro de tua alma, amontoam-se nuvens negras de paixões e imaginações perigosas, pensa: Cristo na Cruz, e eu! Quando estiveres mergulhado em teus negócios ou em conversas mundanas - sanguessugas chupadoras do sangue ou da honra do próximo, pensa: Eu a pecar... e Cristo na Cruz! Se tens coração, se ainda te resta um pingo de fé, basta essa meditação para mudares de vida.

102. LÁGRIMAS DE MÃE

Houve, em tempos idos, um condezinho muito bom, que fôra educado por uma mãe santa. Inculcara-lhe ela uma grande e terna devoção à Virgem Santíssima, cujo escapulário trazia sempre consigo, ensinando-o a chamar Nossa Senhora de mãe. Estes dois amores, à mãe do céu e à da terra, cresceram no coração do condezinho como duas âncoras de salvação que haviam de salvar o mesmo navio.

O jovem foi enviado a uma corte estrangeira. Ali perverteu-se, enfraqueceu-se a sua fé, tornou-se muito mau. Não abandonou, porém, o piedoso costume de ajoelhar-se todas as noites diante da Santíssima Virgem, para rezar as três Ave-Marias, repetindo com fervor: 'Não me abandoneis, minha Mãe! Minha Mãe, não me abandoneis'.

Um dia, tomando parte numa caçada com um amigo infame que o pervertera, foram surpreendidos por uma tempestade e tiveram que pousar numa estalagem. O conde, após a sua oração cotidiana à Santíssima Virgem, adormeceu logo. Pouco depois, começou a sonhar que se achava perante o tribunal de Deus. Uma alma acabava de ser condenada, e ele viu que era a sua que estava sendo conduzida pela própria consciência para ser julgada. Viu também sua mãe de joelhos pedindo misericórdia para ele.

Lúcifer lançou na balança os pecados do jovem conde. A balança caiu até o abismo; os anjos cobriram o rosto com suas grandes asas e Lúcifer deu um grito de triunfo. A alma estava perdida! Foi então que apareceu Maria, a qual, prostrando-se aos pés do Senhor em posição suplicante ao lado da condessa, colocou no outro prato da balança as Ave-Marias do conde e mais as lágrimas da condessa. Nada adiantou. Então a Virgem volveu os olhos para o juiz e duas lágrimas suas caíram no prato da balança, onde estavam as lágrimas da condessa-mãe. A balança cedeu imediatamente. As lágrimas das duas mães salvaram aquele pobre filho!

Um trovão horrível despertou o jovem conde. A dois passos dele, viu então, no outro leito, o cadáver de seu amigo carbonizado.

103. NOBRE E ALTIVA RESPOSTA

Numa perseguição religiosa na China, foi preso e conduzido à presença do mandarim um moço cristão, chamado Paulo Moi. O magistrado, fortemente impressionado com a fisionomia gentil e graciosa do jovenzinho, empregou todos os esforços para faze-lo apostatar da fé.

Vendo que tudo era inútil, ofereceu-lhe como prêmio uma barra de prata para renunciar à fé cristã.
➖ Obrigado, mandarim - disse Paulo, mas uma só barra não basta.
➖ Bem; eu te darei então uma barra de ouro.
➖ Ainda não basta.
➖ Quanto desejas, então, miserável?
➖ Grande mandarim, se desejais que eu renuncie à minha fé, deveis dar-me o que vale a minha alma e, para isso, todo o teu ouro é pouco.
Alguns dias depois, Paulo foi decapitado. Preferiu perder a sua vida a perder a sua alma.

104. CORAGEM CRISTÃ

Santa Blandina, mártir de Liao (177), era uma menina cristã de constituição física muito delicada. No humilde emprego de criada, praticava as mais belas virtudes, copiando em sua vida o divino modelo Jesus Cristo.

Numa perseguição, foi presa com sua patroa e submetida aos mais cruéis tormentos. Conduzida ao tribunal, confessou a sua fé alegremente e com redobrado vigor, repetindo muitas vezes estas palavras:
➖ Eu sou cristã; entre nós cristãos não se cometem os delitos de que nos acusais.

Depois que foi flagelada sem piedade e obrigada a sentar-se num banco de ferro em brasa, meteram-na numa rede e deixaram-na à mercê de um touro furioso que com os chifres a atirou repetidas vezes ao ar. Finalmente, a heroica menina foi degolada.
Os próprios pagãos confessavam jamais ter visto uma criatura tão frágil sofrer com tamanha coragem e resistência.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)