PARTE III - O INFERNO
III. Sobre os odores repugnantes do Inferno
Para que nada falte às aflições do Inferno, com as quais as almas perdidas são atormentadas, Deus, em sua ira, decretou que essa prisão horrível fosse permeada por um fedor abominável, como castigo para aqueles que, quando na Terra, se deleitavam excessivamente com o uso de perfumes requintados.
A profecia de Isaías se cumprirá assim: 'Em vez de um aroma agradável, haverá um fedor' (Is 3,24). A matéria animal em decomposição emite um odor tão horrível que ninguém gosta de se aproximar dela. Mas se imaginarmos não uma única carcaça em decomposição, mas centenas de milhares amontoadas, o ar em um raio de quilômetros ficaria tão contaminado que causaria a morte de todos nas proximidades.
Mesmo esse fedor, porém, quando comparado ao fedor do Inferno, parece nada, ou melhor, um odor agradável. O húms que exala do Inferno provém principalmente do próprio lugar que é, por natureza, uma região das mais horríveis e imundas. Nenhuma lufada de ar puro jamais pode penetrar nas paredes hermeticamente fechadas daquela prisão. Além disso, todo o Inferno é um lago de enxofre e piche em chamas, e todos sabem quão repugnantes são os vapores que eles exalam.
'Os incrédulos, os abomináveis, os assassinos, os fornicadores, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos terão sua parte na lagoa que arde com fogo e enxofre, que é a segunda morte' (Ap 21,8). O profeta da Nova Aliança fala aqui de um lago cheio de água estagnada, imunda e fétida, para a qual não há saída. Ele acrescenta que esse lago está cheio de enxofre ardente, do qual se eleva uma fumaça densa, como diz em outro lugar: 'A fumaça dos seus tormentos subirá para todo o sempre'.
Os próprios corpos dos réprobos são tão imundos e repugnantes que exalam um odor extremamente ofensivo, pior do que qualquer fedor neste mundo. Segundo São Boaventura, o corpo de um único réprobo contaminaria tanto o ar na terra a ponto de causar a morte de todos os seres vivos que se aproximassem dele. Se um único corpo exala um fedor tão horrível, que exalação será a que se eleva de muitos milhões desses seres miseráveis?
Conta-se que o tirano Maxêncio costumava, como castigo, mandar amarrar um homem vivo a um cadáver, rosto a rosto e membro a membro, até que a infeliz vítima desmaiasse, ou mesmo morresse pelo contato com o corpo morto e em decomposição. Essa é, de fato, uma tortura na qual ninguém consegue pensar sem estremecer. Quão pior será no Inferno, onde os corpos jazem próximos uns dos outros, sem qualquer esperança de serem separados. Por mais repugnante que seja esse fedor, ele se intensifica consideravelmente com a presença dos demônios que, naturalmente, são muito mais repulsivos ao olfato do que os corpos dos condenados.
Lemos na vida de São Martinho que o maligno lhe apareceu em certa ocasião, e o fedor que encheu a sala era tão insuportável que o santo disse para si mesmo: 'Se um único demônio tem um odor tão repugnante, como será o fedor no Inferno, onde há milhares de demônios todos juntos?' Quanto sofrimento esse fedor abominável deve causar aos condenados! Como deve agravar sua angústia e dor!
Pois deve ser pestilento além de qualquer descrição, surgindo como surge de tantas fontes diferentes: o próprio Inferno, os corpos dos condenados, os demônios, os vermes e répteis, o fogo de piche e enxofre, todos e cada um deles mais fedorentos às narinas dos condenados. Julgai, pelo que foi dito, quão insuportáveis devem ser os odores combinados de todas essas coisas. Ai dos infelizes seres condenados a respirar tal atmosfera! Ai dos pobres pecadores que têm de habitar nela por eras sem fim! Eles devem sucumbir a ela, devem estar constantemente à beira da morte. Ó meu Deus, eu vos imploro pela vossa infinita clemência, poupai-me de um destino tão terrível!
(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)













